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'Você me enganou': Mauricio de Sousa brinca sobre como convenceu Pelé a aceitar o personagem Pelezinho

A próxima sexta-feira marcará um momento histórico para o futebol mundial. No dia 23 de outubro, Edson Arantes do Nascimento, o Rei do Futebol, completará oito décadas de vida. Completando 80 anos, Pelé acumula homenagens dos quatro cantos do mundo, dentro e fora dos gramados.

Dentre tantas honrarias ao filho de Seu Dondinho e Dona Celeste, uma daquelas que conquistou mais fãs fora das quatro linhas nasceu de uma empreitada ousada de um cidadão ilustre da cidade de Santa Isabel, em São Paulo: Maurício de Sousa.

Próximo de completar 85 anos, o cartunista e escritor, criador da Turma da Mônica, conversou com exclusividade com a reportagem do ESPN.com.br, e relembrou como convenceu o Rei do Futebol a virar uma personagem nos quadrinhos semelhantes às crianças do Bairro do Limoeiro.

A primeira edição da Turma do Pelezinho chegou às bancas em agosto de 1977, em uma revistinha que se manteve ativa até dezembro de 1986, e retornou em 2012. Contando histórias com base na infância de Pelé, os gibis contavam com personagens baseados em amigos do Rei do Futebol em Bauru, no interior de São Paulo: Cana Braba, Teófilo, Frangão, Bonga, Neuzinha, Samira, Jão Balão, Seu Dondinho e o cachorro Rex.

“Quando comecei a fazer quadrinhos, senti falta disso [ter personagens ligados ao esporte]. Até que um dia, estava voltando de uma viagem da Itália e na minha frente sentou o Pelé. Pensei: ‘poxa vida, daria um personagem legal. O Pelé'. Não tem um personagem de futebol que tenha apelo para um desenhista. Até hoje estamos assim. Estava ali mesmo, chamei ele para conversar e falei: ‘Pelé, o que você acha de fazermos um personagem em cima de você? Um personagem que sempre ganhe todos os jogos, seja um grande craque?’”, lembrou Maurício, contando a reação do Rei do Futebol ao convite.

“Ele gostou da ideia e abriu caminho para que discutíssemos isso no Brasil. Só que ele focou nos negócios dele, sumiu um pouco e eu também. Mas, eu não esquecia da nossa conversa. Queria insistir nisso. Ele foi para o Cosmos, em Nova York. E eu fui atrás dele. Fizemos uma reunião, apresentei a ideia, mas ele queria virar um personagem super. Um superatleta. E eu falei para ele: 'Vamos fazer um Pelezinho, criança, você pega um público maior e mais importante para nós. Você vai acabar concorrendo com muito super-herói. Um personagem futebolista como você é o único'. Ele teimou, não quis. Foi muito difícil convencê-lo. Eu não consegui convencê-lo disso. Mas eu fiz o seguinte. Tinha levado um desenho do Pelezinho e falei para ele: 'Mostra esses desenhos para os seus filhos e veja se eles preferem este ou um super Pelé'”.

Sorrindo, Maurício de Sousa relembrou qual foi a reação do eterno craque da seleção brasileira com a estratégia adotada para convencer sobre a criação dos gibis.

“Ele levou para casa. No dia seguinte fui encontrar com ele na 5ª Avenida. E ele me disse: 'Você foi desonesto comigo'. Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse: 'Você sabia que as crianças iam gostar mais do personagem infantil. Você me enganou'. Eu disse que tínhamos combinado. E ele de fato aceitou, tinha um compromisso e daí nasceu o Pelezinho. Nessa briga toda que eu fiz para não criar um super-herói”.