<
>

'Ele só sai se quiser': presidente do Fortaleza abre o jogo sobre contrato de Ceni, direitos de transmissão, bilionário russo e a importância da Copa do Nordeste

Marcelo Paz ainda não sabe se poderá tentar um novo mandato como presidente do Fortaleza, no fim de 2021.

Ele cumpre atualmente seu segundo termo, mas o primeiro foi apenas uma continuação do mandato de Luis Eduardo Girão, que renunciou ao cargo em novembro de 2017 - em outubro de 2018, Paz venceu o pleito que disputou.

“Precisa ver como vai ser esse ponto, é uma questão estatutária e não sabemos se contaria como uma terceira eleição (o que é vetado) ou segunda”, disse Paz, em entrevista ao ESPN.com.br.

O que ele já sabe, por outro lado, é quem será o técnico do clube, no que depender de sua vontade, pelo tempo que seu mandato vigorar.

“Rogério (Ceni) só sai do Fortaleza quando ele quiser”, afirmou.

Assim que assumiu a presidência do clube, o dirigente foi a São Paulo fechar a contratação do então ex-técnico do Tricolor Paulista.

“Foi meu primeiro ato de gestão. A situação surgiu quando eu ainda era diretor de futebol e o (Antônio Carlos) Zago era o técnico. A tendência era o Zago continuar, mas ele voltou para Caxias do Sul (para dirigir o Juventude) e a gente ficou sem treinador. Na hora, pensei no Rogério”, revela.

Outra convicção de Paz diz respeito à crescente importância da Copa do Nordeste para os clubes da região, competição pela qual o Fortaleza reestreia nesta terça-feira, contra o América-RN, em Salvador, às 20h.

Com 14 pontos, o time co-lidera o grupo A com o Bahia e já está garantido na próxima fase da disputa.

“Contando todos os estaduais e regionais, a Copa do Nordeste é a competição que tem mais times das séries A e B. E, coincidentemente, essa presença maior nas duas principais séries aconteceu depois da criação da Copa”, disse.

“Isso tem certamente a ver com a competição regional, porque os clubes passam a ter um pouco mais de dinheiro. Mas, claro, tem a ver também com a gestão. Os clubes nordestinos têm boas gestões, e o povo é muito apaixonado por futebol. Quando o time vai bem, tem público, e a Copa ajuda a dar mais força”, afirma.

Juntamente com Guilherme Bellintani, do Bahia, e Robinson de Castro, do Ceará, Paz forma uma tríade de jovens gestores que vem se destacando na região e no país.

“A gente se fala bastante. Quando vamos tratar de pautas nacionais e da região, a gente troca ideia. É uma relação profissional e gentil. O Guilherme e o Robinson tem relação muito boa comigo, assim como o presidente do Santa Cruz, Constantino Júnior, e o Paulo Carneiro, do Vitória, que é de uma outra geração, mas que também dialoga com a gente”, diz.

Paz assumiu o clube na Série C. Conquistou o Brasileiro da Série B, Campeonato Cearense e a Copa do Nordeste de 2019, ano em que registrou o maior superávit de sua história: R$ 3,4 milhões.

Na Série A da última temporada, o clube teve a segunda maior média de público, atrás apenas do campeão Flamengo e à frente de times como Palmeiras, Corinthians e São Paulo. Com isso, o clube faturou R$ 11 milhões com bilheteria no ano

Veja abaixo outros pontos principais da entrevista concedida pelo presidente Marcelo Paz:

ESPN - Hoje é possível afirmar que a Copa do Nordeste é mais importante que os estaduais para os clubes da região?

Marcelo Paz - Eu concordo. A Copa do Nordeste tem nível técnico bem maior que os estaduais, desperta mais atenção do público e historicamente tem melhores médias de presença nos jogos, além das premiações por fase disputada. No nosso estadual, esse valor é zero. No Cearense, não há qualquer premiação.

ESPN - Nem mesmo para o campeão?

Paz - Sim, e eu falei justamente porque pouca gente sabe disso. As premiações da Copa do Nordeste ajudam a diminuir um pouco a distância orçamentária para os clubes de São Paulo e do Rio. E o campeão da Copa do Nordeste entra nas oitavas da Copa do Brasil, como nós, neste ano, o que diminui a pressão de calendário. E é por tudo isso que entendo ser uma competição mais interessante.

ESPN - Hoje, é difícil falar do Fortaleza sem falar do Rogério Ceni. Mas, para começar a falar do técnico, o senhor viu que ele foi flagrado pelos microfones de uma transmissão falando um termo chulo nesse fim de semana?

Paz - Vi sim e dei muita risada!

ESPN - Rogério e Fortaleza se encaixaram, não é?

Paz - Sim. E é por isso que ele só sai do Fortaleza quando ele quiser. Ele tem uma formação pessoal e profissional acima da média, o que faz muito bem para o clube. Mas o Fortaleza, me parece, também faz muito bem a ele. Não somos um clube de grande orçamento, mas a gente gosta muito trabalho dele e trabalha sério para dar as melhores condições possíveis para ele fazer um bom trabalho. Enquanto eu estiver aqui, como presidente, ele vai ser o técnico do clube.

ESPN - O que o Rogério trouxe de tão especial para o Fortaleza?

Paz - É o conjunto. O profissionalismo é uma marca dele. Mas seu cuidado com o Fortaleza vai além de treinar o time, ele se preocupa com o bem estar do clube. Quando vai discutir uma contratação, se interessa pela questão econômica, não quer simplesmente que contratem. Quer entender como vai ser o contrato, a forma de pagamento, o impacto no caixa. É um cara que conhece muito de futebol, não só de escalação e montagem, mas sabe tudo de logística, fisioterapia, qualidade do gramado, nutrição, tudo ele conhece e com tudo ele se preocupa. Ele é diferenciado, sem dúvida alguma, e acredito que ele também goste muito do clube.

ESPN - Como foi a conversa quando ele pediu para se desligar do Fortaleza e assumir o Cruzeiro em 2019?

Paz - Foi muito franca e não foi fácil. Era uma decisão muito complicada pra ele. Tentei persuadi-lo a não ir, mas ele tinha dado a palavra. Ele foi muito transparente. Foi uma conversa longa e sem mágoa ou chateação. Ficou aquele sentimento de que infelizmente ele escolheu ir, mas havia uma multa, que foi paga e ele saiu pela porta da frente.

ESPN - E para retornar? Imagino que tenha sido uma conversa ainda mais franca.

Paz - A conversa com ele é sempre muito franca, ele é muito honesto, e a gente já se conhece. Não foi fácil também. Quando eu disse a ele “Rogério vamos voltar?”, ele pensou um pouco antes de aceitar. Assim que desligamos o Zé Ricardo, fiz contato com ele e corri o risco de ele não aceitar. Minha primeira opção era o Rogério. Houve algumas conversas longas até ele aceitar, pois ele tinha receio, já que tinha saído em alta daqui. Mas ele voltou com a mesma condição de antes. A dúvida era mais questão de foco mesmo, se era o melhor momento para voltar ou se era momento de segurar e pegar outro clube no ano seguinte.

ESPN - Como está a ansiedade de retomar a participação em uma competição de porte maior que o Estadual, com a questão da pandemia?

Paz - Para ser sincero, fazer jogo é mais simples do que treino, porque tem suporte da federação. No treino, é só o clube. Vai ser um laboratório. A CBF fez contato com o nosso supervisor de operação de jogo, ele que teve mais contato. Eu acredito no rigor das outras equipes. Da nossa, a gente controla. Jogamos três vezes pelo estadual e tivemos zero problema, com jogadores todos testados, foi uma experiência positiva. Não vejo os jogadores com medo, sempre que tem um álcool-gel, as pessoas usam, haverá medição de temperatura ao entrar no estádio, todo o controle.

ESPN - O Fortaleza esteve em Brasília com o presidente Jair Bolsonaro, para falar da MP 984 e das questões dos direitos de TV. O clube integra aquele grupo dos oito times em litígio com o a Turner…

Paz - A questão da TV no futebol mundial é de extrema importância. Pode ver que em todas as grandes ligas, A TV é a fonte de receita principal e não pode ser ser desprezada nunca, é sempre fundamental para o planejamento econômico dos clubes, e tudo nos clubes parte do planejamento econômico. Se não há um cumprimento do que está estipulado nos contratos, há muito prejuízo. Especificamente sobre a Turner, porque a questão ainda está em discussão, eu prefiro não falar, mas tenho a esperança de que tudo será resolvido da melhor forma.

ESPN - O Fortaleza recebeu a aproximação de um investidor estrangeiro (o bilionário russo Ivan Savvidis, proprietário do PAOK, da Grécia). Em que pé está essa questão?

Paz - Houve contato em 25 de fevereiro, pré-pandemia. A gente estava pronto para ouvir, porque uma questão como essa, uma possibilidade de um aporte grande, sempre interessa. Mas, não houve mais contato desde então.

ESPN - Como imagina que vai ser o restante da temporada, com times tendo cronogramas de treinos bem diferentes uns dos outros?

Paz - O Brasileiro é o principal campeonato do ano, e como a gente já começou a jogar, vamos chegar no campeonato com lastro maior de jogos e minutagem. Será um calendário bastante apertado, não vamos chegar preparados, mas com um condicionamento melhor. Por outro lado, a “perna pode pesar” mais à frente, com muitos jogos quarta e domingo, com viagens.