Nos anos 1980, o Clube Náutico Marcílio Dias era conhecido em todo o Brasil. Desfilava talento e competência no Campeonato Catarinense e na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Assim como as famosas modelos da época, como Xuxa Meneghel e Monique Evans, a equipe de Itajaí, litoral de Santa Catarina, também se apresentava para o país nos jogos da “Loteca” nos fins de semana.
Na mesma época, no finalzinho dos anos 70 e início dos anos 80, Luiza Brunet se tornou um fenômeno nacional, símbolo de beleza e sensualidade.
Mas nem sempre foi assim. De uma família pobre, a sul-mato-grossense Luiza desembarcou no Rio de Janeiro ao lado dos pais e de oito irmãos para tentar uma vida melhor na Cidade Maravilhosa.
Passaram muitas dificuldades. Luiza trabalhou como babá, diarista e balconista de uma loja de roupas até conhecer aos, 17 anos, o príncipe encantado que mudaria completamente sua vida.
Foi aí que a linda e humilde Luiza Botelho da Silva tornou-se para sempre Luiza Brunet.
Ficou casada com Gumercindo Brunet por apenas quatro anos. A alta sociedade a descobriu como modelo e símbolo sexual. Ele não suportou tamanha transformação, e o ciúme impediu que o casal continuasse junto.
Se, de um lado, Luiza fazia sucesso como modelo e símbolo sexual, do outro, o Marcílio Dias ganhava as páginas da mídia esportiva fazendo ótimas campanhas no Campeonato Catarinense, mesmo com orçamentos modestos.
Aí você pergunta: qual é a relação entre Luiza, Gumercindo e o Marcílio Dias?
Assim como a modelo mais cobiçada do país, a equipe mais famosa de Itajaí conseguiu frequentar o noticiário até o meio dos anos de 1990. De lá para cá, tanto Luiza quanto o Marcílio Dias foram meio que caindo no esquecimento do povo brasileiro.
No futebol, pelo menos, foram quatro quedas para a Segunda Divisão estadual e uma constante romaria em direção ao precipício.
Enquanto durante esses últimos anos Luiza trocou de marido (foi casada com Armando Fernandez e Lírio Parisotto), o Marcílio Dias foi se aventurando com as piores gestões à frente do clube.
Como muitos times que simplesmente minguaram, com suas ricas histórias jogadas no lixo, a velha política do esporte por pouco não pôs fim a uma linda e admirável trajetória.
Nestes 101 anos de histórias, o clube Marcílio Dias, assim como o marinheiro negro que foi morto na Guerra do Paraguai, virou herói e dá nome à agremiação, vem tentando defender e honrar sua bandeira, mas não tem sido fácil.
Para se ter uma ideia do drama que a equipe passou, desde 2015, quando o clube caiu pela última vez à Segunda Divisão estadual, um grupo de jovens, liderado pelo empresário do ramo do turismo, Lucas Brunet, conseguiu fazer um verdadeiro milagre para que a instituição literalmente não acabasse.
Brunet?
Assim, o sobrinho de Gumercindo, o primeiro marido de Luiza, entrou nessa história há quatro anos, quando ainda estava com apenas 29 anos.
Lucas é carioca, mas vive em Itajaí há 12 anos. Acabou se apaixonando pelo time da cidade, tornou-se marcilista de coração e alma. Inconformado de ver o clube definhando, ele reuniu uns amigos com a intenção de salvar a sua paixão.
Em 2016, esse grupo de jovens torcedores, encabeçado por Lucas, criou o movimento “Retomada Marcilista”, com o objetivo de acabar com a velha política esportiva da entidade.
Ao lado de amigos, empresários, advogados e torcedores do Marcílio Dias, Lucas criou uma chapa para disputar as eleições. A ambição era tomar a presidência do time, fazer uma limpeza e tentar salvar a saúde financeira da instituição que estava prestes a comemorar os 100 anos de vida.
“Foi uma luta muito grande. Nossa chapa reunia um pessoal que só queria ver o nosso time no lugar onde nunca deveria ter saído. Nós éramos impedidos de entrar no clube e de frequentar as instalações. A eleição, por exemplo, foi feita no estacionamento, num lugar ermo e escuro. Nenhum de nós éramos ligados a gestão do futebol. Depois que ganhamos a eleição, tivemos que esperar meses para poder assumir, pois a antiga gestão lutou na Justiça até a última instância”, disse Lucas, à ESPN.
“Para ter uma ideia, quando definitivamente tivemos o aval da Justiça para assumir o clube, tivemos que literalmente abrir as portas com pés-de-cabra, ou seja, arrombar os cadeados, pois os que se achavam donos do Marcílio Dias não queriam de jeito algum abandonar o clube que eles mesmos deixaram à beira da morte”, recordou o atual presidente.
Hoje, aos 34 anos, o jovem dirigente se diz feliz com as conquistas, dentro e fora de campo, que vem dando sobrevida ao time de tantas tradições.
“Quando a gente assumiu o clube, nem sabíamos por onde começar. Chegamos lá com tudo abandonado. Os antigos dirigentes deram no pé e deixaram funcionários e jogadores à deriva. Havia um grupo de atletas, o que sobrou, que estava em greve; outros haviam abandonado o barco, pois estavam na Segunda Divisão há 3 meses sem salários. Foi uma missão tentar manter o que havia restado e convencê-los a ficar com a gente durante os cinco jogos que restavam para a gente não cair para a Terceira Divisão. Para piorar a situação descobrimos que havia uma série de dívidas trabalhistas que totalizavam R$ 9 milhões. Eram 70 ações movidas na Justiça contra o clube”, afirmou Lucas.
O certo é que, de 2016 para cá, muita coisa tem mudado no Marcílio Dias, que voltou à Primeira Divisão do Catarinense e que, em 2020 está de volta ao Brasileirão, na disputa da Série D.
Orgulhoso do verdadeiro trabalho de resgate feito do clube, Lucas diz não ter sido fácil devolver a credibilidade à entidade que ele herdou com apenas 18 sócios-torcedores e que hoje, quatro anos depois, formam um grupo de 2.500.
Ele sabe que, se comparado aos grandes times do país, o número de sócios-torcedores ainda é pequeno, mas o suficiente para manter o time com a folha salarial em dia.
“Nossa folha salarial é de R$ 150 mil mensais. É pouco, mas neste Catarinense, por exemplo, na primeira fase, conseguimos vencer a Chapecoense, um gigante perto de nós, uma equipe da elite que tem uma folha de R$ 1,5 milhão, ou seja, dez vezes mais que o nosso orçamento”, disse Lucas.
“Em relação às dívidas, conseguimos acertar. Dos 70 processos trabalhistas, restam sete que estamos negociando. Desde que assumimos, nunca mais houve um processo trabalhista contra o Marcílio Dias. Desde que entramos no clube, muitos patrocinadores voltaram a acreditar no clube, na marca. Já conquistamos reformas nos assentos do estádio Hercílio Luz, acredito que, mesmo com a crise causada pela pandemia, a credibilidade está de volta à nossa equipe. Agora é dar os passos certos, sem loucura, para colocarmos o Marcílio Dias de volta aos holofotes”, concluiu o presidente Brunet.
O retorno do Marcílio Dias ao Campeonato Catarinense já tem data e adversários definidos: a primeira partida acontecerá no dia 8 de julho, quarta-feira, às 19h, contra o Criciúma, na casa do adversário, no estádio Heriberto Hulse, pelo jogo de ida das quartas de final. A volta está marcada para o dia 11, no mesmo horário, em Itajaí. No modesto elenco, o Marcílio Dias conta com a experiência do volante Diego Silva, ex-Flamengo, e com uma comissão técnica cascuda, liderada pelo coordenador Gélson Silva, ex-atleta formado no clube na década de 1980 e campeão com o Felipão na Copa do Brasil de 1991 com o Criciúma e da Libertadores pelo Grêmio em 1995. Além do preparador de goleiros, Renato Barros, ex-coordenador das categorias de base do Corinthians.
Nessa nova caminhada, o centenário Marcílio Dias sabe que será difícil brilhar como os antigos esquadrões da década de 1980. Sabe também que não é impossível tornar-se modelo, não como a “tia” do presidente, mas sim como gestão, uma administração nova e revolucionária que colocou, definitivamente a equipe de Itajaí pode voltar às passarelas e aos holofotes do futebol nacional.
