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Messi 33 anos: do papel de Ronaldinho à era pós-Neymar, veja a evolução do craque do Barcelona

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Ronaldinho, Eto'o, Messi, Iniesta e mais: o Barcelona que enfiou 6x0 no Atlético de Madrid (0:54)

Em 2006, o time catalão não tomou conhecimento da equipe de Madri (0:54)

Por mais de 15 anos, Lionel Messi tem sido o principal jogador do Barcelona, marcando e dando assistências para centenas de gols e conquistando inúmeros troféus. Mas como o jogo mudou ao longo do tempo à medida em que o argentino - que nesta quarta-feira chega aos 33 anos - envelheceu e o elenco de apoio mudou?

Nota: Estatísticas e dados são medidos por 90 minutos via Opta e StatsBomb e com base nos jogos disputados por Messi antes da paralisação do futebol europeu em março.

Surgindo no Barcelona (2003-08)

Lionel Messi se destacou desde muito jovem. Embora os treinadores de base gostem de falar sobre o desenvolvimento e a criação de talentos, a realidade é que Messi tinha um conjunto de habilidades tão evidente e bem definido - muito acima dos companheiros de equipe e adversários - que garantir que ele tivesse a bola o máximo possível era o caminho mais rápido para o sucesso.

Ele era capaz de driblar, era rápido, tinha um ótimo timing e podia marcar gols. E porque ele podia fazer tudo isso em espaços apertados, a coisa mais fácil era colocá-lo no meio da ação. Ele jogou no topo do diamante na formação 3-4-3 que a maioria das equipes juvenis do Barcelona usava, com liberdade e licença para se tornar um segundo atacante.

Aos 17 anos, começou a jogar regularmente pelo Barcelona B - às vezes no meio-campo, às vezes aberto na esquerda. Na temporada seguinte, 2005-06, completou 18 anos e se tornou figurinha marcada no time do técnico Frank Rijkaard.

O holandês usava um sistema 4-3-3, então o papel de Messi "no buraco" não existia. Muito leve e inexperiente para jogar por conta própria, o único destino possível para ele estava nos flancos. E porque havia, compreensivelmente, uma hierarquia - o Barcelona havia conquistado o título espanhol na temporada anterior - ele dividiu o tempo na ponta direita Ludovic Giuly.

É bastante padrão, mesmo para os mais talentosos, que jogadores jovens sejam convocados para o time principal, desempenhando um papel que cria confiança. Muitos camisas 10 e centroavantes começam como pontas tradicionais, com a ideia de dar espaço a eles e minimizar a responsabilidade. Se são destros, por exemplo, jogam abertos pela direita e são instruídos a chegarem à linha de fundo para cruzar a bola.

Para o canhoto Messi, o natural era jogar à esquerda, exceto que essa posição no Barcelona era ocupada por um cara chamado Ronaldinho, que por acaso era o melhor jogador do mundo. Ele podia fazer o que quisesse no time, então se juntava a Deco, um passador talentoso, que fazia parte do meio-campo de Rijkaard e tendia a avançar no ataque.

Os primeiros números de Messi refletem isso. Ele driblou muito (9,77 tentativas em 2005-06, seguidas por 9,79 e 11,77 em 2006-07 e 2007-08, respectivamente) e o fez com sucesso (7,40, 7,08 e 8,64), o que não é surpreendente, pois muitas vezes recebeu a bola na direita em situações de um contra um, com adversários preocupados com Ronaldinho, que ficava do outro lado.

Não vimos muito Messi na grande área em comparação aos anos posteriores (ele teve médias de 6,26, 5,39 e 5,54 toques na área), e ele também não finalizou muito (3,60, 2,72, 2,79). Quando finalizava à distância, não era particularmente eficaz, marcando apenas uma vez em 62 tentativas de mais de 20 metros nas temporadas 2005-06, 2006-07 e 2007-08.

Ele se esforçou na defesa durante o mesmo período; de fato, seus desarmes e interceptações estavam acima de 3,0 pela única vez em sua carreira.

Além disso, seu desenvolvimento provavelmente foi dificultado por duas coisas. Uma série de lesões musculares o limitou a 23 partidas em LaLiga em 2006-07 e 2007-08, assim como o clube estava lhe dando mais responsabilidades. Além disso, ele ainda tinha 21 anos e, como Guillem Balague destaca em sua biografia da Argentina, Messi continuou a ter uma dieta de adolescente: refrigerantes, pizza e muita carne vermelha. Mas isso mudaria...

Assumindo o papel de Ronaldinho (2008-10)

O verão de 2008 viu uma passagem simbólica da tocha no Barcelona. Pep Guardiola substituiu Rijkaard como técnico da equipe, enquanto Deco e Ronaldinho foram vendidos, sinal de que ficara claro para o novo técnico que Messi não era apenas o futuro do clube, mas o futuro era agora.

Messi recebeu a camisa 10 e se tornou o jogador mais bem pago da equipe, mas era fundamental que ele continuasse em forma após oito lesões musculares nas duas temporadas anteriores. Sua dieta teve que mudar, então ele foi enviado para um nutricionista e, provavelmente não por coincidência, cresceu em força e durabilidade.

Guardiola moldou a equipe de uma maneira que inegavelmente se adequava a Messi, que começou a desfrutar de algumas das liberdades criativas em movimento que se tornariam sua marca registrada. Thierry Henry, que havia chegado um ano antes, floresceu jogando aberto com licença semelhante, mas ele era diferente, pois parecia correr atrás de defesas.

De maneira mais geral, o estilo inicial de Guardiola - muita posse e passes curtos - serviu para Messi. Ele estava à vontade em áreas congestionadas e cercado por jogadores como Xavi e André Iniesta no meio do campo até o recém-chegado Daniel Alves na lateral direita.

Messi teve uma temporada fenomenal em 2008-09, quando o Barcelona venceu LaLiga, Copa do Rei e Champions League. Ele criou bastante (suas assistências esperadas com bola rolando eram de 0,35), enquanto também driblou efetivamente (9,27 tentativas, 6,27 concluídas) e finalizou mais (3,65).

De maneira reveladora - e isso seria um item básico para ele durante a era Guardiola - Messi estava finalizando melhor. Seu condicionamento físico foi melhorado e a tomada de decisões foi melhor, enquanto o estilo de Guardiola, que favorecia um passe extra, se isso significasse obter uma chance melhor, também ajudou.

A temporada de 2009-10 provou ser um pouco estranha devido à chegada de Zlatan Ibrahimovic. Guardiola era o assunto do futebol, com uma equipe de sete jogadores da base La Masia e uma abordagem baseada posse de bola, mas o atacante Samuel Eto'o, que trabalhou incansavelmente pelos jogadores mais glamorosos por trás dele (primeiro Ronaldinho e agora Messi), estava envolvido em uma briga contratual com o time.

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Ronaldinho, Eto'o, Messi, Iniesta e mais: o Barcelona que enfiou 6x0 no Atlético de Madrid

Em 2006, o time catalão não tomou conhecimento da equipe de Madri

Havia também a sensação de que, apesar do sucesso, essa equipe do Barcelona era pequena, leve e unidimensional. Se você pudesse adicionar um jogador abençoado não apenas com força, tamanho e poder, mas também com um toque refinado, certamente a equipe seria ainda maior do que a soma de suas partes. E, assim, Ibrahimovic foi para o Camp Nou por dinheiro e Eto’o, que foi jogar na Itália.

Ibrahimovic não se encaixava no estilo do Barcelona e entrou em rota de colisão com Guardiola. E embora não houvesse nenhum problema pessoal entre os dois, o impacto no jogo de Messi era evidente: seus toques na área caíram de 8,79 para 7,92, e seus chutes de longe aumentaram bastante, de 36 para 63. Esse total foi o mais alto de sua carreira até 2016-17, quando ele tinha quase 30 anos e jogava novamente com um genuíno centroavante (Luis Suárez).

Simplificando, enquanto Eto'o trabalhava para dar espaço aos outros, Ibrahimovic era menos móvel e, talvez, mais determinado a ser o ponto ofensivo. Ibrahimovic entupiu o meio, e isso significava que Messi tinha que operar mais longe do gol.

O Barcelona venceu a Liga com um total de 99 pontos, mas não teve o mesmo sucesso na Champions League. A temporada de Messi foi produtiva, com 33 gols na liga com bola rolando, mas foi o tipo de desempenho que rapidamente convenceu Guardiola de que ele poderia ser ainda mais produtivo sem Ibrahimovic, que foi mandado para o Milan. Henry, cujos minutos e produção haviam caído, também foi despachado para a Major League Soccer.

Chegou David Villa, também um centroavante, mas mais móvel e versátil. Enquanto isso, Pedro, que veio da equipe B e começou a substituir Henry na temporada anterior, virou titular. Finalmente, Messi tinha três companheiros na frente feitos sob medida.

O topo da montanha (2010-14)

Com Pedro e Villa e o jogo curto de Guardiola em pleno andamento, Messi aproveitou algumas de suas melhores temporadas individuais. Ao mesmo tempo criador e finalizador, ele ainda estava começando pela ala direita, mas em uma frente tão fluida em três, Messi aparecia em todos os cantos do ataque, o que significava que ele passava bastante tempo no meio.

O Barcelona venceu LaLiga e a Champions League em 2010-11. E enquanto seus gols sem contar pênaltis caíam para 27, Messi ainda era intocável no que se refere ao drible (10,75 tentativas, 7,47 bem-sucedidas) e entregou 0,34 assistências esperadas com bola rolando por partida.

O ano seguinte seria o último de Guardiola no Barcelona e o viu experimentar formações mais exóticas, incluindo jogar com três atrás e mexer no meio. Cesc Fàbregas, nascido e criado em Barcelona, voltou ao clube depois de um longo período no Arsenal para renovar a parceria Xavi-Iniesta, mas teve pouco impacto. Alexis Sánchez, que também chegou no verão, também não cumpriu as expectativas, e Villa perdeu seis meses de 2011-12 por lesão.

A turbulência fez com que o Barcelona terminasse a temporada de mãos vazias em termos de troféus, mas isso não impediu Messi de assumir mais responsabilidades. Ele terminou com 73 gols em todas as competições - um número absurdo, de qualquer forma -, mas foram seus 40 gols sem contar pênaltis na liga que realmente se destacaram.

O assistente de longa data de Guardiola, Tito Vilanova, assumiu o cargo, mas foi diagnosticado com câncer em dezembro de 2012 e passou grande parte do restante da campanha em tratamento. Villa voltou, mas ele ainda estava machucado e não era o mesmo jogador, enquanto Sanchez continuava a ter dificuldades.

Nesta fase, Messi era praticamente o ataque todo do Barça, e ele estava pegando fogo. Ele venceu seu terceiro Ballón d'Or e marcou 42 gols sem contar pênaltis. Seus toques na área caíram um pouco, para 8,8, o que talvez fosse um sinal de que ele havia se tornado principalmente um finalizador. Sua posição média deixou poucas dúvidas: Messi estava efetivamente jogando no meio.

Era evidente que o Barcelona girava em torno de Messi nesta fase e ele estava carregando o ataque por conta própria. No verão de 2013, o clube conseguiu ajuda com Neymar, enquanto Tata Martino substituiu Vilanova, que infelizmente faleceu em abril de 2014. Martino veio da cidade natal de Messi, Rosário, e era visto como o homem certo para se conectar com Messi em um nível pessoal, bem como em um nível esportivo.

Apesar de tudo isso, a forte dependência de Messi continuou. Neymar, de apenas 21 anos, levou tempo para se adaptar e ficou limitado a 19 partidas em LaLiga. Fora do campo, o presidente da equipe Sandro Rosell foi forçado a renunciar após alegações de improbidade relacionadas à transferência de Neymar, e o Barcelona foi considerado culpado de violar regras relacionadas à contratação de jovens estrangeiros, o que levou à proibição de transferências por parte do clube.

Messi os levou o mais longe que pôde em 2013-14 e deu mais chutes do que nunca (5,34), mas ele foi simplesmente menos eficaz, terminando com 22 sem contar pênaltis. Lesões musculares, que ele havia se livrado por várias temporadas, voltaram a aparecer quando o Barça terminou a temporada sem troféus e Martino foi demitido.

O nascimento do trio MSN (2014-17)

No verão europeu de 2014, com o Atlético de Madrid campeão da Espanha e o Real Madrid campeão da Europa, era óbvio que o Barcelona tinha problemas. O falso nove deu a Messi um fardo ainda maior.

Para resolver isso, Luis Enrique substituiu Martino como treinador, e o Barça contratou Luis Suárez do Liverpool. Com Sánchez seguindo em frente, a estrada foi pavimentada para o chamado "MSN" - Messi-Suárez-Neymar - e o Barcelona ganhou tudo.

Não que a mudança tenha sido imediata. Suárez chegou com uma punição de quatro meses depois de morder o italiano Giorgio Chiellini na Copa do Mundo. Neymar já estava adaptado, mas ainda não desempenhava no nível que alcançaria mais tarde. De fato, não conseguimos ver o MSN junto em campo até janeiro de 2015. Mas, talvez o mais importante, Messi permaneceu em forma e apareceu em todos os jogos de Champions, Copa do Rei e LaLiga.

Seus chutes caíram (de 5,34 para 4,62), assim como os dribles (ambos tentados, 9,67 para 8,52 e bem-sucedidos, 6,78 para 5,75), mas sua atuação ofensiva melhorou muito. Ele marcou 38 gols sem contar pênaltis – terceira melhor marca de sua carreira.

A presença de Suárez foi fundamental para permitir que Messi retornasse à direita de maneira mais permanente, embora sempre com licença para ir para o meio e criar. Suárez foi talvez a síntese perfeita de Ibrahimovic e Eto'o; ele tinha a capacidade técnica de Ibrahimovic e a movimentação de Eto’o.

Além disso, Suarez rapidamente desenvolveu uma parceria com Messi, abrindo o caminho com corridas oportunas que tiravam os defensores da posição. E a presença de Neymar na esquerda ajudou tremendamente, pois significava que as equipes adversárias não poderiam simplesmente sobrecarregar o lado de Messi.

A temporada 2015-16 viu as coisas continuarem da mesma maneira, apesar de ter Suárez por toda a campanha, em vez de apenas cinco meses, significava que Messi poderia deixar parte do fardo ofensivo. Operando mais longe do gol, vimos diferentes aspectos de seu jogo. Seus chutes à distância, por exemplo, chegaram a 62, e ele melhorou seu aproveitamento, fazendo seis gols.

Este era um Messi muito mais orientado para a equipe e disposto a melhorar os jogadores ao seu redor, embora isso seja mais fácil com Neymar e Suárez. Daniel Alves, o lateral-direito com habilidades de ponta que permitiram a Messi passar grande parte das temporadas anteriores como um ponta apenas no papel, saiu do Barcelona em 2016, e Messi passou períodos cada vez maiores longe da grande área.

Ao fazer isso, Messi se tornou ainda mais letal à distância, convertendo oito de 66 chutes de mais de 20 metros jardas. Ele terminou a temporada com 31 gols na liga sem contar pênaltis e 51 em todas as competições.

A era pós-Neymar (2017-presente)

O verão de 2017 contou com um par de saídas importantes do Camp Nou. Enrique foi substituído por Ernesto Valverde, enquanto Neymar foi para o Paris Saint-Germain por incríveis R$ 821 milhões.

Isso pegou o Barcelona despreparado e o produto da venda foi gasto em jogadores com habilidades diferentes. Ousmane Dembélé, de 20 anos, era mais um jogador de extrema velocidade, mas acabou sofrendo com lesões e não teve impacto. Enquanto isso, Philippe Coutinho, que chegou em janeiro de 2018, era mais um criador, e ele também teve dificuldades no sistema de Valverde. Suárez também começou a mostrar sinais de desgaste quando completou 31 anos.

Messi precisou se ajustar. Seus toques na área aumentaram (10,99 em 2017-18 e 10,26 em 2018-19) quando ele se viu mais à frente, mais perto de Suárez, mas também disparou mais à distância quando o caminho estava bloqueado. Novamente, Messi foi muito bem, marcando 16 gols em 171 tentativas de mais de 20 metros nas duas temporadas. Parte do sucesso se deve às cobranças de falta, uma qualidade de seu jogo que parecia melhorar com a idade: ele marcou 12 ao longo de dois anos, tendo anteriormente 21 em toda a sua carreira.

Ele ainda era, no papel, um ponta direita, ainda tinha um drible muito eficaz e era regularmente classificado entre os líderes da liga. Mas muitas vezes era mais um caso de usar o drible para conseguir um chute ou um passe, em vez de decolar nas corridas emocionantes que vimos quando ele era mais jovem. Enquanto isso, sua produção defensiva continuou a diminuir, e ele raramente voltava para marcar, provavelmente em função da idade. De fato, não era incomum ver ele e Suárez trotando para a defesa enquanto o resto do time tentava recuperar a bola.

Os números de Messi para 2019-20 são os que você esperaria de um candidato a melhor jogador de todos os tempos de 32 anos que às vezes tentava liderar a equipe como antes. Antes da paralisação de LaLiga, ele tinha 16 gols sem contar pênaltis. Normalmente, seu chute de longo alcance estava fazendo a diferença: sete de seus 16 gols vieram de mais de 20 metros, de longe a maior proporção de sua carreira. Quatro deles foram de cobranças de falta, mais uma prova de que a capacidade de chutar uma bola é a última coisa a se levar em consideração com a idade.

O antigo termo "Messidependência" voltou à moda, já que as equipes de Valverde, apesar de ganharem dois títulos de LaLiga, falharam em impressionar e se apoiaram fortemente em Messi. De certa forma, tirando os anos de Guardiola e do MSN, essa foi a história da carreira de Messi. A diferença, talvez, é que hoje em dia Messi aparece ocasionalmente em vez de ir para cima dos adversários a todo tempo.

Ainda assim, como acontece com as carreiras dos grandes jogadores, esse é do tipo que a maioria dos mortais sonha em ter.