Foi no Maracanã, há exatos 50 anos, que a torcida viu o primeiro esboço da seleção brasileira que encantaria o mundo e conquistaria a Copa do Mundo de 1970, sendo aclamada como uma das maiores equipes de todos os tempos. Mas, para chegar à formação quase ideal, muita coisa aconteceu nos bastidores, inclusive com participação dos jogadores.
A data de 29 de abril de 1970 marcou o último amistoso antes do embarque para o México, a um mês e cinco dias do Mundial. O time que derrotou a Áustria por 1 a 0, gol de Rivellino, no Maracanã, foi escalado assim por Zagallo:
Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Marco Antônio; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Rogério, Pelé e Tostão.
Apenas duas posições diferem da escalação clássica daquela equipe. O lateral esquerdo ainda era Marco Antônio, do Fluminense, enquanto no Mundial passaria a ser Everaldo, do Grêmio, e a ponta-direita tinha Rogério e não Jairzinho, ambos jogadores do Botafogo.
Para chegar à formação, no entanto, a seleção sofreu. Foi vaiada, desacreditada e deixou o país em um cenário de incerteza. E Zagallo não era visto como o homem certo para o cargo.
Desorganização
O começo de tudo ajuda a explicar o cenário instável. Zagallo foi contratado pela antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) para substituir João Saldanha a 77 dias do Mundial.
Saldanha tinha sido o idealizador do time de 70, batizando seus titulares como “Feras” e fazendo campanha perfeita na eliminatória. Seis jogos, seis vitória. A base da equipe era formada basicamente pelo Santos, com reforços do Botafogo e Cruzeiro.
O treinador era polêmico, tanto como comentarista esportivo quanto militante e membro do Partido Comunista. Até hoje carecem explicações sobre os reais motivos que o levaram a ser demitido. A CBD o desligou em 17 de março de 1970, após apenas 344 dias.
A versão sustentada ao longo das décadas culpa o embate ideológico, em plena Ditadura Militar, entre o técnico da seleção e o presidente da República Emílio Garrastazu Médici. A famosa frase de Saldanha (abaixo), ao rebater um pedido de convocação de Dadá Maravilha, artilheiro do Atlético-MG, teria sido a gota d’água.
“O senhor organiza seus ministérios, e eu organizo meu time”
"Apesar da boa campanha da seleção na eliminatória da Copa, o Brasil inicia 1970 com resultados e atuações abaixo da crítica. Havia uma pressão da classe dos treinadores para a saída do Saldanha, pois consideravam que ele não era técnico de verdade, embora já tivesse uma experiência anterior no comando do Botafogo”, explicou o antropólogo José Paulo Florenzano, professor da PUC-SP, à reportagem.
Zagallo vem aí
Um dia após a saída de Saldanha, a CBD anunciou Zagallo. Aos 38 anos, ele tinha um belo currículo. Foi bicampeão mundial pela seleção e multicampeão por Flamengo e Botafogo. Ao se aposentar em 1964, virou técnico do juvenil e depois do profissional (1967) do clube alvinegro.
Ele tinha respaldo pelas conquistas em pouco tempo de carreira na nova profissão. Com ele, o Botafogo conquistou a Taça Brasil de 1968, o bicampeonato do Campeonato Carioca (1967 e 1968) e também da Taça Guanabara (à época uma disputa independente ao estadual). A torcida alvinegra saudava aquele time de Jairzinho, Roberto e Caju como o “bi-bi”.
Ao chegar para dirigir o time nacional em 1970, o Velho Lobo (apelido que ganharia décadas depois) anunciou mudanças. Passaria a jogar como no Botafogo, isto é, no 4-3-3, extinguindo o 4-2-4 clássico. Voltaria a escalar Félix no gol. E daria chance para Roberto atuar com Pelé.
Piazza e principalmente Tostão, que estava sem jogar há mais de 150 dias por causa de uma cirurgia para tratamento de descolamento da retina do olho esquerdo, pareciam não fazer parte dos planos.
Bastou três dias de trabalho para a expectativa em torno do atacante cruzeirense se confirmar. O Velho Lobo não contava com ele. Em entrevista aos jornais da época, explicou os motivos.
“Nesse esquema que armei não posso escalar dois pontas de lança com as mesmas características. Tenho que ter pelo menos um jogador brigão dentro da área adversária, para finalizar as jogadas trabalhadas pelos outros. Por isso, não posso escalar Tostão e Pelé no mesmo time”, disse.
Desgaste
Zagallo comandou o Brasil seis vezes até 29 de abril, com quatro vitórias e dois empates, sem ter colocado Pelé e Tostão nenhuma vez juntos. As partidas mais complicadas foram no Morumbi.
A seleção foi vaiada mesmo goleando o Chile por 5 a 0, em 22 de março, na estreia do treinador. A imprensa da época apontou dois motivos. A fragilidade dos chilenos, que tiveram um jogador expulso no primeiro tempo, e o fato de Edu, do Santos, estar no banco de reservas.
A outra partida teve um resultado péssimo. Foi um empate sem gols contra um time misto da Bulgária. Zagallo colocou pela primeira vez Tostão como titular e deu a camisa 10 para o craque mineiro. Mas deixou Pelé no banco, com a 13. E o Rei entrou depois na vaga de Tostão.
A teimosia em escalar Tostão e deixar o Rei Branco (como era chamado o mineiro na época), além da aparente má vontade com Piazza e Dirceu Lopes, também do Cruzeiro, fizeram Zagallo ser chamado de bairrista pela imprensa fora do eixo Rio-São Paulo.
A mudança
Dois dias depois das vaias e às vésperas de enfrentar a Áustria no Maracanã, no último compromisso em solo nacional antes do embarque para o México, os jogadores decidiram agir. Um encontro secreto no quarto de Pelé no Hotel das Paineiras, no Parque da Tijuca, mudou o rumo.
A revelação foi feita pela revista “Placar”, com uma reportagem em que dizia que Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino e Clodoaldo discutiram mudanças que deveriam ser feitas na seleção. Embora Zagallo sinalizasse que escalaria Pelé e Tostão juntos pela primeira, ele não havia treinado.
Durante o encontro, a reportagem diz que eles definiram que o tridente ofensivo teria Pelé pelo meio e Tostão pela ponta-esquerda, mas jamais fixos. O cruzeirense poderia jogar centralizado ou recuado para alternar com Pelé. O meio de campo teria Clodoaldo, Gérson e Rivellino, com o santista responsável pelo combate e são-paulino pela organização tática, preenchendo os espaços. Já o corintiano deveria atacar pela ponta-esquerda, mas livre para se deslocar para a meia-direita.
Outra mudança impactante foi a transformação do volante Piazza em quarto zagueiro. Ele passaria a atuar ao lado de Brito. Foi a primeira vez que Zagallo o escalou como titular.
Para que essa formação funcionasse Joel Camargo, Roberto e Caju viraram reservas.
A equipe derrotou a Áustria por 1 a 0, gol de Rivellino, numa escapada pela meia/ponta-direita, como fora acertado na reunião. O público reconheceu a nova atuação da seleção e aplaudiu. Os elogios vieram da imprensa, especialmente por ver em ação Tostão e Pelé.
O curioso dessa história é que jamais os jogadores confirmaram o encontro. Tostão escreveu em colunas antigas na “Folha de S.Paulo” que ele, Gérson e Rivellino conversavam muito sobre o time, fizeram algumas reuniões, mas tudo passava pelo crivo de Zagallo.
Clodoaldo afirmou à reportagem que jamais participou de um encontro para pensar no time, embora fosse livre para opinar sobre o posicionamento dos jogadores em campo.
A evolução
O jogo contra a Áustria marcou o esboço da equipe que encantou o mundo. Durante a preparação no México, Zagallo teve de colocar Jairzinho no time titular porque Rogério se machucou e foi cortado. E, na estreia da Copa, optou por Everaldo no lugar de Marco Antônio porque o jogador do Grêmio era melhor defensivamente. E a defesa era o ponto crítico daquela seleção.
Foi na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 1970, numa goleada de virada sobre a Tchecoslováquia por 4 a 1, que o mundo conheceu a “família real” da bola. O time foi escalado por Zagalloassim:
Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Pelé e Tostão
O curioso é que aquela equipe, que encantou o mundo, jogou poucas vezes junta. Além da estreia no Mundial, atuaram na semifinal (3 a 1 no Uruguai), na final (4 a 1 na Itália) e no primeiro amistoso após a competição, numa vitória sobre o México por 2 a 1, no Maracanã. E nunca mais.
Ao menos se despediram com quatro vitórias em quatro jogos e imortalizados na história.
