<
>

De Pablo a Andrés Escobar: documentário da ESPN investiga a influência do crime organizado na seleção e no futebol da Colômbia

Poucos momentos no esporte foram tão decisivos para o futuro de uma vida como o gol contra de Andrés Escobar na Copa do Mundo de 1994. A derrota da Colômbia para os Estados Unidos eliminou a seleção sul-americana da competição e acabou selando o futuro do zagueiro para sempre.

Dez dias após a partida, o ex-zagueiro foi morto a tiros na frente de uma boate em Medellín, em uma das piores páginas da história do futebol mundial.

Após uma campanha impecável nas eliminatórias sul-americana em 1993, terminando a disputa invicta e com direito a goleada na Argentina por 5 a 0 em pleno Monumental de Nuñez, a Colômbia era vista como uma grande força e tratada como uma das favoritas ao principal torneio de futebol de seleções do planeta.

A equipe contava com grandes astros no elenco como Rincón, Asprilla, Valderrama, Higuita – que não disputou a Copa do Mundo por problemas com a polícia – e o próprio Escobar, que era para muitos o melhor zagueiro do país e estava negociando com Milan antes do início da competição.

O documentário “The Two Escobars”, que está disponível no ESPN App, relembra toda essa ascensão da seleção e também como o dinheiro dos narcotraficantes, principalmente de Pablo Escobar, ajudou a elevar o futebol colombiano. A produção também explica toda a influência de Pablo no time nacional e como a morte dele pode ter influenciado também no assassinato de Andrés.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no ESPN App.

ASCENSÃO DO FUTEBOL COLOMBIANO

Até meados dos anos 80, o futebol colombiano era pouco conhecido mundialmente e até na América do Sul. Os times nacionais não eram tão fortes para disputar os títulos continentais. Até 1984, apenas um time – o Deportivo Cali em 1978 – tinha disputado a final da Libertadores.

Porém, tudo mudou - e não foi porque o país se organizou. Na verdade, quem colaborou para melhorar alguns times do país foram os famosos narcotraficantes, que ostentavam grandes fortunas e viram que o futebol era um caminho fácil para tornar o dinheiro limpo.

Pablo Escobar apoiava os times de Medellín, o Atlético Nacional e o Independiente Medellín, enquanto Miguel Rodríguez apoiava o América de Cali. Assim, o “narco-futebol” foi se solidificando no país. De 1985 até 1996, seis finais da Libertadores, em 12 possíveis, tiveram um time colombiano na decisão. O único que se sagrou campeão foi o Atlético Nacional, em 1989, que tinha no elenco algumas das estrelas nacionais que brilhariam na seleção nos anos seguintes como Higuita, Luis Perea, Leonel Álvarez e Andrés Escobar, além do técnico Francisco Maturana.

Com toda essa ascensão do futebol nacional, a seleção brilhou nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1993. Em um grupo com Argentina, Paraguai e Peru, os colombianos não deram chances aos rivais. Em seis jogos, foram quatro vitórias e dois empates, além de partidas marcantes. No último jogo, o que deu a classificação, os Cafeteros golearam os argentinos no Monumental de Nuñez por 5 a 0.

Em 26 partidas disputadas antes da Copa do Mundo de 1994, a Colômbia perdeu apenas uma, tendo vencido fortes equipes como Brasil, Suécia e a Argentina. Todos esses resultados e um estilo de futebol irreverente deram ao time um lugar entre os favoritos para o Mundial.


O FIASCO NA COPA DO MUNDO

Com toda a expectativa criada pelos bons resultados anteriores, a Colômbia foi para os Estados Unidos sem um de seus líderes e goleiro titular. Higuita teve problemas com a polícia no ano anterior e acabou ficando fora da seleção.

Em um grupo com Romênia, Suíça e os donos da casa Estados Unidos, os colombianos eram vistos como favoritos para avançar de fase. A equipe sul-americana contava com estrelas como Valderrama, Asprilla, Rincón, Valencia e Andrés Escobar, que chegava ao Mundial já em negociação com o Milan para ser o reserva de Baresi.

Porém, a euforia da torcida logo foi embora. Logo na estreia contra a Romênia, os Cafeteros viram Hagi e Raduciou comandarem a vitória da equipe europeia por 3 a 1. O resultado acabou colocando uma enorme pressão nos comandados de Francisco Maturana.

Antes do jogo contra os Estados Unidos, que virou uma grande decisão, tanto os jogadores como o técnico receberam ameaças de morte. Diversos traficantes colombianos teriam apostado muito dinheiro na seleção nacional e agora estavam com medo da eliminação precoce. Deste modo, ameaçado, Maturana foi obrigado a barrar Gabriel Gómez da equipe titular.

Abalados emocionalmente, os jogadores da Colômbia acabaram sucumbindo diante dos anfitriões. Logo no primeiro tempo, após uma bola cruzada rasteira na área, Andrés Escobar marcou contra. Stewart ampliou na etapa complementar e Valencia foi descontar já nos minutos finais. Com a derrota por 2 a 1, a equipe do capitão Valderrama estava eliminada da Copa do Mundo no dia 22 de junho.

A melancólica despedida foi contra a Suíça. Já fora da competição, os colombianos venceram por 2 a 0 e disseram adeus ao campeonato.


TRAGÉDIA

Andrés Escobar acabou virando o maior vilão da Colômbia com seu gol contra. Porém, o zagueiro não queria se abalar com o ocorrido e chegou a dizer para um jornal local a seguinte frase: “Isso não termina aqui. A vida continua”. Ele voltou ao país e tentou viver sua vida normalmente, mesmo com seus familiares e amigos com receio de que algo ruim poderia acontecer.

Nos anos 90, a Colômbia tinha um dos maiores índices de violência do mundo e muito disso se dava aos grandes traficantes do país. Pablo Escobar tinha sido morto no final de 1993, o que acabou gerando uma rebeldia ainda maior em Medellín, deixando diversos grupos de criminosos sem um líder.

A tragédia aconteceu na madrugada do dia 2 de julho, dez dias após a derrota para os Estados Unidos. Andrés estava saindo de uma boate e, após uma discussão já do lado de fora – onde homens protestavam contra o gol e o jogador pedia respeito-, acabou baleado dentro do seu carro. Humberto Muñoz Castro acabou assumindo a autoria do crime posteriormente e foi condenado a 43 anos de prisão, sendo liberado após 11 anos por bom comportamento.

Contudo, os familiares de Andrés acreditavam que o caso não era tão simples. Muñoz Castro era guarda-costas e motorista dos irmãos Pedro e Juan Santiago Gallón. Os dois eram traficantes de drogas e teriam “encomendado” a morte do zagueiro ao seu funcionário, por terem perdido uma grande quantia de dinheiro em apostas no título da Colômbia. Porém, a teoria nunca foi confirmada.

Com a morte de Andrés Escobar, o futebol colombiano foi murchando. Muitos companheiros deles ou preferiram se aposentar ou jogar em outros países, onde era mais seguro em um momento como esse. A seleção foi de 4ª para 34ª no ranking de 1994 a 1998.

A melhor campanha viria 20 anos após a morte de Andrés: na Copa de 2014, a Colômbia foi até as quartas de final do torneio.