<
>

Série e documentário da ESPN mostram como o desastre de Hillsborough transformou o futebol inglês

Há quase 31 anos, em 15 de abril de 1989, o futebol inglês vivia sua maior tragédia. Na semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, disputada no estádio de Hillsborough, em Sheffield, 96 pessoas morreram e cerca de 800 ficaram feridas.

Uma tragédia causada em um local que não estava preparado para receber um jogo de grande porte - apesar da fama de campo seguro - e pelo planejamento ineficaz do comando da força policial.

Com cobertura sensacionalista de órgãos da imprensa e acobertamento da atuação das forças de segurança no desastre, o caso comove famílias e torcedores até hoje.

As razões do desastre e como o futebol inglês reagiu e se reinventou a partir da tragédia são os assuntos de duas produções da ESPN.

O documentário "Hillsborough", parte da série de produções "30 for 30" e disponível no WatchESPN, investiga minuciosamente o desastre. Com imagens da época e entrevistas com torcedores, familiares de vítimas e policiais, é feito um retrato do antes, do durante e do depois da catástrofe.

Já na série "Hillsborough, 30 anos: a tragédia que mudou o futebol inglês", Natalie Gedra, correspondente da ESPN na Inglaterra, relembra o desastre e conta como futebol local reagiu e se transformou. Os cinco episódios também estão disponíveis no WatchESPN.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

O PRÉ-DESASTRE

As semifinais da Copa da Inglaterra eram disputadas em campo neutro. E não eram um jogo qualquer. Com a primeira divisão inglesa com outro tipo de organização, a copa nacional tinha muita relevância na época.

A final do torneio era o jogo mais importante da temporada. As semifinais, no gosto de parte dos torcedores, vinham na sequência nesta hierarquia.

Para uma partida decisiva, o palco precisava ser à altura. E o estádio Hillsborough, em Sheffield, era um deles. Com capacidade para 54 mil pessoas, levava crédito por ter sido uma das sedes da Copa do Mundo de 1966.

Mas os riscos existiam, eram claros e, somado a uma troca no comando de segurança ocorrida semanas antes de Liverpool e Nottingham Forest, foram fatais.

Em 1981, oito anos antes da tragédia, Hillsborough recebera um outro jogo pela semi do torneio: Tottenham x Wolverhampton. Um jogo atrativo e um público massivo. Mais torcedores do que ingressos no estádio. Empurra de lá, empurra de cá, um aperto aqui e ali no setor da Leppings Lane, que ficava atrás de um dos gols

Naquele ano, a solução do policiamento foi, durante a partida, permitir que torcedores saíssem da arquibancada e se sentassem na pista de atletismo que circundava o campo.

Em 1989, a superlotação aconteceria novamente. O agravante? O comando de segurança era tocado por um recém-chegado. David Duckenfield assumiu a área de Hillsborough cerca de três semanas antes do jogo.

Seu antecessor, Brian Mole, foi transferido para Barnsley. Um trote violento de membros da força policial em um novato foi o estopim para um crise na polícia local. Oficiais foram expulsos, suspensos ou rebaixados na corporação. Mole, que não tinha envolvimento do caso, acabou enviado para outra cidade.


AS PORTAS DO DESASTRE

As diferenças entre Mole e Duckenfield eram claras: o primeiro tinha experiência, conhecia muito bem a área e gostava de futebol. O segundo, não.

Liverpool x Nottingham era um jogo de risco. A operação era grande. Folgas e férias foram suspensas ou adiadas. E um terço da força policial da cidade foi exclusivamente designada para trabalhar na partida.

Quarenta e cinco minutos antes do apito inicial, a Leppings Lane estava lotada - tanto o setor, quanto a rua para entrar nele. O local era conhecido por sempre ter uma aglomeração antes dos jogos: eram poucas catracas para dar conta do fluxo.

O tráfego de pessoas era imenso. Muita gente com ingresso. E muita gente sem entradas. Era o local da torcida do Liverpool.

Vinte e seis minutos antes da partida começar, a rua estava mais abarrotada ainda. Estava apertado. Policiais começavam a ficar nervosos. Veio, então, um pedido desesperado no rádio.

"Pelo amor de Deus, abram os portões, abram os portões!".


O DESASTRE

A oito minutos do início da partida, o comando do estádio - localizado ao lado do setor de Leppings Lane e com uma visão privilegiada do campo - autorizou a medida.

Então, aconteceu.

Com ou sem ingresso, milhares de pessoas correram para a área que normalmente era designada como saída da arquibancada para a rua. Muitos entraram em um túnel que levava para a parte inferior do setor.

Já não tinha espaço antes. E ficou com menos espaço ainda depois. A geografia da arquibancada inferior não ajudava: o setor era dividido em compartimentos e separado por grades altas. Se você precisava de espaço, era só ir mais para o lado. Mas com a grade, se movimentar ficava impossível.

Aos seis minutos do primeiro tempo, o jogo foi interrompido: torcedores estavam pulando para o campo. Sem espaço para se movimentar e com mais gente entrando sem parar no setor, as pessoas começaram a ser prensadas contra a grade e uma contra as outras.

Policiais abriram portões da arquibancada para o campo. Outros torcedores começaram a se ajudar para pular as grades ou a subirem para o setor superior.

Os atendimentos começaram no campo. Minutos depois, quase 100 pessoas estavam mortas e centenas, feridas.


O PÓS-DESASTRE

Na imprensa, o tabloide The Sun estampou uma capa culpando os torcedores do Liverpool pela tragédia. Eles tinham "urinado em policiais e roubado pertences de vítimas". Uma manchete que ainda ressoa na cidade dos Reds. A compra da publicação é desencorajada até hoje por lá. Um jornal praticamente proibido de circular.

Mas como a torcida poderia ser culpada? Explica-se pelo contexto da época: a relação de clubes com seus fãs era outra, assim como das autoridades com quem assistia aos jogos no estádio. O hooliganismo estava em alta e era conhecida como a "doença inglesa". Some-se a isso o acobertamento da polícia sobre o acontecimento, culpando "torcedores bêbados e agressivos".

No primeiro processo sobre o caso, o veredito original considerou as mortes como "acidentais". Vinte e um anos depois, baseado em um inquérito independente e por pressão das famílias das vítimas, a justiça anulou o julgamento e reabriu o processo. Em 2019, Duckenfield foi considerado inocente pelo júri após um julgamento de seis semanas.


A REVOLUÇÃO

No jogo, uma dos principais efeitos de Hillsborough apareceu nos estádios. O Relatório Taylor - documento que investigou as razões do desastre - recomendou que os estádios passassem a ter assentos em todos os setores, além de outros procedimentos de segurança.

Arquibancadas em pé passaram a ser proibidos na primeira e na segunda divisão inglesas. Estádios se modernizaram: capacidades foram reduzidas, entradas foram reformadas e outra organização foi adotada nos acessos.

O começo da Premier League, as transmissões em canais fechados e a venda dos direitos de TV para o mundo inteiro também impulsionaram a mudança. Mais dinheiro na mesa possibilitou a chegada de estrelas estrangeiras. Ano após ano, o interesse internacional aumentou.

A competição passou a somar a qualidade técnica de jogadores de várias partes do mundo com o ritmo frenético exigido pelas torcidas. Do esporte, criou-se também um grande entretenimento.

Nos estádios, mais turistas passaram a frequentar os jogos e consumir produtos dos clubes. Equipes trocaram velhas casas por arenas modernas. Com mais segurança, interesse e entradas mais caras, veio também a outra consequência para o jogo: o ambiente dos estádios ficou mais frio.

E esse é um outro desafio para o berço do esporte.