LaLiga: atacante brasileiro do Eibar questiona concentração obrigatória na Espanha

Já faz dois meses da última partida de LaLiga. Em 10 de março, em um jogo adiado da 24ª rodada, o Eibar recebeu a Real Sociedad em um estádio vazio. Os portões fechados do Municipal de Ipurua naquela terça-feira eram a primeira medida emergencial do futebol espanhol no combate ao coronavírus. No fim de semana anterior, a jornada 27 tinha acontecido normalmente, com arquibancadas lotadas.

“A gente já nem deveria ter disputado esse jogo. Nunca havia jogado sem torcida”, conta o brasileiro Charles Dias. O atacante marcou para o Eibar nos acréscimos, mas não evitou a derrota por 2 a 1 para a Real Sociedad, rival do País Basco. “Ainda não havia essa sensação de medo. A gente só ficou com essa sensação depois que não jogamos contra o Real Madrid.”, relembra sobre o jogo que estava marcado para dali três dias para abrir a 28ª rodada no Santiago Bernabéu.

LaLiga foi suspensa antes e, na semana seguinte, a Espanha entrou em estado de emergência, com isolamento obrigatório. Oito semanas depois, o país vive a transição do desconfinamento. Todos elencos passaram por testes de Covid-19 e retornam aos treinos com trabalhos individuais.

“Tudo diferente, né? Já mandaram a gente estacionar em outro lugar. Quando saí do carro, já deram luvas. A máscara eu já levei. No campo, cada um com suas coisas, com sua bola. É uma sensação estranha”, relata Charles sobre o primeiro treino no último sábado.

“Todos estão com medo”

Os treinos individuais são a primeira de 4 fases de retomada do futebol na Espanha. No entanto, nem todos estão de acordo com algumas medidas propostas para as próximas etapas.

Na semana passada, jogadores e comissão técnica do Eibar (sem a participação de dirigentes) divulgaram um comunicado em que diziam ter “medo de iniciar uma atividade em que não se pode cumprir a primeira recomendação de todos os especialistas: o distanciamento físico”. Foi o único elenco da primeira divisão espanhola a se posicionar de forma conjunta.

“Todos estão com medo. A gente não está dizendo que não que jogar. Estamos dizendo que precisamos das condições básicas para entrar em campo e treinar. Ainda são 160 pessoas morrendo por dia aqui”, explica o brasileiro. No último domingo, 10 de maio, a Espanha registrou 143 mortes nas 24 horas anteriores, a menor quantidade desde 18 de março. Apesar da queda nos números, 26.744 pessoas faleceram no país por causa da Covid-19.

Desde 2004 no futebol espanhol, Charles também se preocupa com sua família no Brasil neste momento de pandemia. “Já morreu um tio meu, irmão do meu pai, em Belém (Pará). A vida segue, mas digo para minha família para saírem para trabalhar protegidos. Esse vírus é complicado e sempre falo para se cuidarem”.

Concentração obrigatória

Outra questão sobre o protocolo de LaLiga é a previsão de que, mais adiante, as concentrações dos elenco sejam obrigatórias, sem quem os jogadores retornem para casa após treinos e jogos. “As fases 3 e 4 eu acho inviáveis. Não vou deixar minha família sozinha aqui por quase dois meses. Quero treinar e jogar, mas não nessas condições. Se acontece algo com minha esposa ou filhos e não me deixam sair? Vou ter que fugir da concentração”, diz o atacante.

No domingo à noite, o presidente de LaLiga, Javier Tebas, disse que o início das concentrações foi adiado diante do resultado dos testes de coronavírus nos clubes das primeiras duas divisões da Espanha: 8 positivos, sendo 5 jogadores, entre 2500 exames realizados.

“A concentração que tínhamos prevista para o dia 18 não vai ser obrigatória. Vamos adiar em uma semana. Não consideramos necessário que já nos concentremos tão rapidamente”, afirmou em entrevista ao canal espanhol “#Vamos”.