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O estádio que salva vidas e agora tem operários como 'herói': Pacaembu chega aos 80 mais importante do que nunca

"Me sinto como se fosse um herói, um vencedor."

Flávio Alves da Silva, 46, tentou ser jogador profissional e até hoje é chamado de Viola pelos amigos, mas foi como operário que o palmeirense teve seu dia de glória em um dos palcos mais nobres do futebol brasileiro. Ele foi uma das 250 pessoas que ergueram, em 11 dias, um hospital com capacidade para receber 200 pacientes no gramado do Pacaembu para o tratamento da COVID-19.

O estádio, que completará 80 anos neste 27 de abril (dia da abertura com desfile; as primeiras partidas foram no dia seguinte), fica na cidade mais rica e populosa do Brasil, e também a que tem mais de infectados pelo novo coronavírus (13.979). Até o último último (dia 26), das 4.271 mortes que aconteceram no país, 1.133 foram na capital paulista.

Temendo o colapso dos hospitais tradicionais, as autoridades buscaram locais para atendimentos de emergência. Situado em uma região central, o Pacaembu foi uma escolha fácil.

No gramado em que foram disputados seis jogos da Copa do Mundo de 1950 e Pelé marcou 127 gols, entre jogos pelo Santos, seleção brasileira e outras formações, existe desde o último dia 6 um complexo de 6.300 metros quadrados, com dez enfermarias (cada uma delas com 20 camas), uma farmácia central, refeitório, aparelhos para exames de imagem e laboratório de análises completo.

“A vantagem de usar um estádio é o espaço amplo e a infraestrutura existente. É muito mais fácil receber um hospital de campanha porque são poucas adaptações”, explicou o médico Luiz Carlos Zamarco, 63, coordenador de assistência hospitalar de São Paulo.

Nascido na cidade, o médico se emocionou ao falar sobre o Pacaembu, que agora tenta salvar vidas em vez de receber jogos de futebol.

“Senti uma mistura de emoção com aflição. É um espaço tradicionalmente alegre, festivo. De repente, vemos o que está acontecendo na Europa, na Ásia, e imaginamos se pode acontecer aqui”, disse Zamarco.

Há um “exército” de profissionais de saúde trabalhando no Pacaembu. São 520 funcionários, entre médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais. Ainda há equipes de limpeza e manutenção.

Todos foram contratos pela Organização Social (OS) da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein, responsável pelo hospital de campanha no Pacaembu. E receberam treinamento em apenas cinco dias, entre o fim das obras e o início do funcionamento.

Com o pico da epidemia ainda por chegar ao país, o hospital no gramado registrava na noite do último domingo 132 pessoas internadas. Mesmo projetado para receber pacientes ainda longe do estado mais grave da doença, já teve a morte de um homem de 36 anos.

"Quando vi a imagem do gramado coberto pelas tendas brancas foi difícil. O estádio é local de festa, diversão. De repente, passa a ser um lugar de dor, com uma morte", disse Edson Tadeu da Silva, o "Sorriso", que é o locutor da Pacaembu há dez anos.

"Mas o estádio está acostumado a fazer história, e agora ele vai fazer salvando vidas", acrescentou "Sorriso", com a mesma esperança de Flávio, que queria ir ao gramado do Pacaembu como jogador, mas foi para erguer o hospital depois de anos trabalhando na montagem de estruturas para eventos festivos. "Agora trabalhamos para salvar e recuperar vidas".

De pai para filho(s)

A obra no Pacaembu mexeu bastante com o sentimento de todos que estiveram envolvidos de alguma forma no dia a dia. Foi uma dose de saudosismo e protagonismo, acompanhada pelo sentimento familiar.

Flávio contou com quatro dos sete filhos na equipe que coordenou na montagem da estrutura de alumínio para as tendas. Estavam com ele Michael, 27, David, 24, Franklin, 21, e Jhoey, 19.

“Eu sou palmeirense e gente sempre vai aos jogos juntos. Quis o destino que a gente fosse reunido dessa vez para vir ao Pacaembu e trabalhar numa obra dentro do gramado, que é um local sagrado", disse o montador.

Não foi a emoção de estar com os filhos que Flávio sentiu. Vieram à mente memórias de infância e do pai.

“Quando entrei ali pela primeira vez, pisei naquela grama limpinha, aí parei e olhei em volta... Você fica bobo, sem reação. Fui criado na arquibancada e de repente tô no campo. Meu pai se esforçou muito para eu jogar bola. Me levou pra várias peneiras. Fui no Nacional, na Portuguesa, no Vigor. Até no Guarani. Mas não deu certo. E eu pisei no gramado pra ajudar a construir um hospital…”, acrescentou Flávio.

“Tantos ídolos pisaram nesse gramado. Ronaldo, Romário, Pelé... A gente acha que é impossível pisar em campo. Ainda mais quem vem de classe humilde. Nessa profissão a gente é meio invisível, sabe? Ninguém presta muito atenção na gente. Só querem ver o trabalho pronto e acabou. [Estar no gramado foi ser protagonista?] Sem dúvida, para uma boa ação”, completou o montador.

A emoção não foi diferente para quem está em outra ponta na cadeia de trabalho. É o caso do empresário Robert Mendes de Araújo, 40, um dos donos da empresa All In Eventos, que coordenou a equipe responsável pela instação do piso.

Paulistano como Flávio, ele esteve todos os dias no Pacaembu. Também ficou sem palavras ao entrar no estádio à trabalho.

“A primeira coisa que pensei quando pisei foi estar com meu filho ali. Tirei muitas fotos, fiquei imaginando lances que via das arquibancadas. É uma sensação estranha. Você sente um conflito. O espaço que traz alegria, agora vai abrigar pessoas que estão sofrendo”, disse.

“O mais difícil foi explicar ao meu filho de oito anos que ele não poderia me acompanhar dessa vez. Ele sempre vai comigo nos jogos do São Paulo e queria ter o gostinho de pisar no gramado. Mas não o levei. Não podia. O curioso é que ele me perguntava se estávamos tomando cuidado com o campo, se a obra não estragaria o gramado, impediria a bola de rolar. Engraçado essa ser a preocupação dele”, acrescentou.

Um pedaço do coração

A transformação do estádio municipal Paulo Machado de Carvalho em um hospital de campanha também mexeu com os sentimentos de Alzira Gonçalves Miranda Paz, 93. Ela já pisou no gramado do Pacaembu. Foi uma das primeiras, mas há 80 anos.

Ela fez parte do grupo de garotas que desfilou pelo campo no dia da inauguração. O presidente Getulio Vargas estava presente.

“Eu tinha 13 anos e estava no colégio. Nós eramos convidadas com muita frequência para participar de eventos na cidade. Foi assim que surgiu o convite para estar no Pacaembu, participando do desfile. Foi lindo”, lembrou.

Hoje, a simpática torcedora do Corinthians diz que o estádio carrega um pedaço do coração dela. Já esteve no lugar muitas vezes desde os anos 40. A última foi em janeiro deste ano, quando acompanhou o lançamento da biografia do goleiro Cássio.

“Eu admiro muito ver que um lugar tão bonito como o Pacaembu esteja fazendo uma ação tão nobre, tão humana e tão necessária. Tenho certeza que a atmosfera que o Pacaembu vai ajudar muitas pessoas a se recuperarem rapidamente. Ver no que ele se transformou me enche de orgulho. É um lugar santificado. Vai fazer diferença”, completou esperançosa como todos dona Alzira.