Há quinze anos, Falcão encarou os jogadores do São Paulo pela última vez durante uma tarde de treinos no centro da Barra Funda. Era o dia da despedida. O melhor jogador de futsal do mundo na temporada anterior havia acertado a rescisão contratual com o clube do Morumbi e o retorno para a modalidade que o promoveu, com um contrato com o Malwee/Jaraguá.
O adeus ocorreu numa terça-feira, dia 19 de abril, após apenas seis jogos, na campanha dos títulos do Campeonato Paulista e da Copa Libertadores. Falcão seria eleito outras três vezes o melhor do mundo no futsal e empilharia dezenas de taças.
Quase duas décadas depois, a passagem dele pelo São Paulo ainda é rememorada por muitos que fizeram parte do clube naquele momento. Todos gostariam de ter visto Falcão mais vezes em campo. Não foi possível por escolha do técnico Emerson Leão, que dirigia a equipe.
“Eu costumo dizer que ele deve ter ficado chateado por não ter sido um dos indicados para substituir o papa. Mas também Deus não pode ser papa”, disse Falcão em entrevista para a “Folha de S.Paulo”, naquele abril de 2005, relembrando a escolha do sucessor de João Paulo II, morto naquele ano, e revelando pela primeira vez o péssimo relacionamento com Leão.
“Cheguei a ficar deprimido, passei noites sem dormir. Chegava em casa, brigava com meu filho, não conversava direito com a minha mulher. Tudo isso por causa de uma pessoa. Isso não é vida. O futebol tem um glamour muito grande, mais do que o futsal, mas na vida você não leva nada disso. Vou voltar para o futsal, que é onde eu sou feliz e onde eu sou valorizado”, disse.
Falcão estava com 27 anos e foi contratado por ideia do presidente Marcelo Portugal Gouvêa e também do departamento de marketing do clube. Recebeu a camisa 12, a mesma que o consagrou nas quadras e um salário de R$ 60 mil mensais.
Muitos torcedores --até os que não eram são-paulinos-- ficaram curiosos para vê-lo jogar futebol de campo. O problema é que Leão deu poucas oportunidades para Falcão.
Dos 21 jogos do São Paulo até aquele 19 de abril de 2005, considerando o Paulistão e a Libertadores, Falcão participou de seis, sendo titular uma vez (diante do Mogi Mirim, na última rodada do Estadual). Nas outras cinco oportunidades, entrou nos minutos finais.
“Ele ficou angustiado porque queria jogar, queria realizar aquele sonho. E a torcida pedia pra vê-lo em campo. A imprensa também. Ele ficava no banco, e a torcida gritando o nome dele. No futsal, não preciso nem falar o que ele fazia, era um show com a bola no pé”, disse Milton Cruz, então coordenador técnico do São Paulo, por telefone para a reportagem.
“Ele foi contratado pelo presidente. Talvez não estivesse nos planos do Leão, mas não teve problema entre eles. É que o Leão sempre teve essa fama de rígido, durão. Ele era bem exigente mesmo, disciplinador, mas não tiveram problemas”, acrescentou.
Aquela foi a última vez que Falcão tentou carreira no futebol. Foi também o período mais longo que ficou vinculado a um clube. Tinha contrato até junho de 2005, com possibilidade renovar.
"Eu fui eleito o melhor jogador de futsal em 2004. Mas, com a situação do jeito que estava, a minha imagem estava sendo denegrida. Jogava dez ou 15 minutos e nunca recebi um elogio. O Leão é uma pessoa formadora de opinião e só abriu a boca para falar mal de mim", disse Falcão, na época. “O futsal me dá uma segurança muito grande. As coisas tendem a melhorar para mim”.
Corinthians, Casagrande e Copinha
As três palavras acimam poderiam muito bem ser sinônimas. O Corinthians é o maior vencedor da Copa São Paulo de futebol júnior, com dez títulos. E Casagrande, embora não tenha levantado a taça, jogou duas edições pelo time e foi artilheiro em 1981, com cinco gols.
Mas as três palavras têm tudo a ver com Falcão.
Ele chegou ao Corinthians para jogar futsal após três meses no Guapira, em 1992. Foram cinco anos de formação de um dos maiores da modalidade. Durante o período, também jogou no campo.
“O Corinthians me chamou para fazer dez dias de testes, e no primeiro treino fiz sete, oito gols, já assinei a ficha, me deram a camisa 10. Foi tudo muito rápido”, recordou Falcão, em entrevista ao canal no YouTube Bolívia Talk Show, sobre o início no futsal alvinegro.
“Eu estive no Corinthians por cinco anos e passei pelo futebol sete vezes. Não gostava. Eu ficava um mês e meio e não ia mais. Não era minha praia. O presidente do Corinthians fez um planejamento para que eu fosse profissional. Eu ficava dois, três meses e não ia mais. Eu era juvenil, podia jogar a Copa São Paulo”, disse Falcão para a rádio Jovem Pan, em 2017.
A disputa da Copinha não aconteceu pelo Corinthians, mas sim pelo Paulistano, time de São Roque, em 1998. E foi pelas mãos do são-paulino Milton Cruz.
“O Casagrande conhecia o Falcão do futsal do Corinthians e me falou: ‘Você tem que ver, o moleque é bom de bola, joga futsal pra caramba’. E aí ele mandou pra mim. E realmente ele jogava muito, mas pra jogar campo ele precisava de uma adaptação. Ele não tinha costume de correr e no futebol você corre o campo todo. Quando ele entrava, ele dava uns passes e gente ganhava os jogos. Não tem o que falar. Mas depois ele disse que não ia continuar, que tinha participado para atender o gosto do pai dele e que seguiria o sonho de jogar futsal”, disse Milton Cruz.
O pai de Falcão --verdadeiro dono do apelido-- foi jogador de várzea e por isso desejava ver o filho jogando futebol, realizando uma carreira que ele mesmo não conseguiu. O Paulistano chegou até as oitavas de final da Copinha em 1998 e foi eliminado pelo Fluminense.
Mas o talentoso menino seguiu o caminho pelas quadras. No final dos anos 90, foi para o futsal do Atlético-MG. Passou também por Banespa e Jaraguá do Sul até ser contratado pelo São Paulo, em 2005. Mas, a verdade é que dois clubes também tentaram colocá-lo em campo antes.
Dez dias no Palmeiras
Ademir da Guia viu Falcão jogar e achou que poderia dar certo. Indicou ele ao Palmeiras, e o técnico Marco Aurélio Moreira aceitou recebê-lo, em fevereiro de 2001.
O time tinha um craque como Alex e bons jogadores, como Magrão e Basílio. Mas era a época famosa do “Bom e Barato” do presidente Mustafá Contursi.
“Era meu melhor momento para que as coisas acontecessem, além do jogo [um treino contra o Juventus] que foi 1 a 0 e eu fiz o gol, fizemos dois coletivos e eu também fiz gols nos dois coletivos. Os treinos e os jogos daqueles 10 dias no Palmeiras era pra eu gravar, editar e guardar para sempre, porque tudo dava certo”, disse Falcão no Resenha ESPN, em 2016.
Quem Lembra? Em 2001 Falcão teve um período de teste no Palmeiras após indicação de Ademir da Guia pic.twitter.com/kgk6j5EMn2
— Memórias Do Futebol (@MemoriasFutebol) July 30, 2018
“O Alex, o Marcos, o Arce, todos dando uma moral absurda pra mim e… Quem me levou ao Palmeiras foi o Ademir da Guia. Foi a única indicação dele para o Palmeiras e dizem que a diretoria na época não simpatizava [com o Ademir]”, relembrou.
Marco Aurélio era favorável a contratação, mas ele não resistiu a uma derrota para a Ponte Preta por 3 a 2, em Campinas, e foi mandado embora logo no início do Estadual. A diretoria alviverde, na época chefiada por Américo Faria, propôs que ele seguisse treinando, mas sem possibilidade imediata de assinar um contrato.
“Não teve acordo financeiro [para eu ficar] porque na época eu jogava no Banespa, tinha acabado de comprar meu primeiro apartamento, minha ex-mulher tava grávida e minha conta era justa. Naquele momento eu não poderia perder nada”, disse.
“[Como eram somente treinos] O Banespa não liberou mais, só que o que eu tinha feito naqueles dez dias, ali era o momento certo, com apoio de todo mundo, o time arrumadíssimo, o trabalho físico do Palmeiras era parecido com o futsal, não senti problema nenhum. Aí o Ademir da Guia disse que não houve acerto financeiro”, finalizou o craque das quadras.
Portuguesa e Justiça
Em maio de 2002, Falcão teve um outro convite. Dessa vez da Portuguesa. Aceitou e foi treinar no Canindé para formar dupla com um jovem Ricardo Oliveira no time de Edu Maragon.
“Também joguei futebol de salão até meus 16 anos, mas o Falcão já tem 24 anos e é uma grande diferença”, disse na época Maragon, já prevendo problemas. “Ficaremos dois meses sem jogar, só treinando, e isso será benéfico para ele. No começo vou deixá-lo um pouco solto para ver como ele se adapta ao time, mas depois vou apresentar algumas noções táticas”.
Foram apenas dois meses. No final de maio, ele começou a sentir dores no joelho esquerdo. O chefe do departamento médico lusitano, Emídio Valenti Tavares, disse que a ressonância apontou uma “Síndrome de Banda Iliotibial”, comum em atletas que mudam de modalidade esportiva.
Foi o início dos problemas. Falcão foi afastado para se recuperar, mas reclamou que não teve acesso ao laudo da ressonância. Também teve problemas com Maragon.
Acabou saindo do clube dois meses depois e ainda ingressou com uma ação na Justiça cobrando, na época, R$ 25 mil referentes a rescisão contratual. Voltou a jogar futsal pelo Jaraguá do Sul.
Depois veio a tentativa pelo São Paulo em 2005.
A última vez que se arriscou em um campo de futebol foi em dezembro do ano passado, quando ajudou um time de astros aposentados do clube tricolor, conquistar a Legends Cup, no Morumbi. Ele fez até um gol na vitória sobre os veteranos do Bayern de Munique por 2 a 0.
