Foi em um fim de noite turbulento, há exatos 35 anos, que a Democracia Corinthiana, movimento revolucionário na relação entre jogadores e dirigentes e que permitia a participação dos atletas em temas além do futebol, chegou ao fim.
O ponto crucial foi a derrota do sociólogo Adilson Monteiro Alves, então com 38 anos, para o empresário aposentado Roberto Pasqua, 64, na eleição presidencial do Corinthians, em 1º de abril de 1985.
Adilson concorreu pela chapa “Democracia Corinthiana”, que tinha como candidato a vice Sergio Scarpelli, responsável pelas finanças do clubs desde 1981. Já Pasqua formou a “Aliança Democrática Corinthiana”, com o advogado Rubens Approbato Machado como vice.
O pleito terminou com vitória tranquila de Pasqua: 162 x 130.
Mas a disputa no Parque São Jorge foi tensa, com acusações de traição, pressão de torcedores, tiros e a presença de um número elevado de policiais por ordem de Michel Temer, o mesmo que foi vice de Dilma Rousseff e presidente do Brasil de 2016 até 2018.
Na época, ele era secretário de segurança do governo de São Paulo e também muito próximo a Pasqua. Foi o corintiano quem solicitou ao amigo o envio de reforço policial, pois temia uma tragédia caso Adilson fosse derrotado.
Tragédia não houve. Mas foi o fim de uma era que deu ao clube dois títulos paulistas, o projetou além das fronteiras nacionais --sobretudo na Europa, onde a Democracia Corinthiana virou tema de estudo-- e fez diferente gerações de brasileiros sonharam.

O pai do movimento
Adilson foi um dos pais da Democracia Corinthiana ao lado de Sócrates e Wladimir tão logo foi nomeado como diretor de futebol do clube, em 1982, sob a benção do presidente Waldemar Pires. Ele trouxe mais conteúdo ao movimento.
Em 1983, já sob os louros do título Paulista de 1982, Adilson ajudou Pires a se reeleger. O bicampeonato e o envolvimento das lideranças do time na campanha pela volta do voto direito (“Diretas Já”) elevaram ainda mais a popularidade da Democracia Corinthiana.
Foi um período eternizado por gestos que extrapolavam as quatros linhas, com frases como “Dia 15 vote” nas camisas dos jogadores ou faixas em campo, como “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, carregada pelos atletas no dia da decisão do Paulistão de 1983.
Adilson virou candidato em meados de 1984. A campanha tentou mostrar força já no segundo semestre daquele ano, quando prometeu formar uma seleção alvinegra para compensar a venda de Sócrates para a Fiorentina, da Itália.
O primeiro reforço veio no segundo semestre daquele. Foi o jovem Dunga, revelação do Internacional.
No início de 1985, chegaram o atacante Serginho Chulapa e o zagueiro uruguaio Hugo de León, que custou ao clube Cr$ 1,7 bilhão, algo como R$ 6,6 milhões nos dias de hoje. Eles se juntaram a um elenco que já contava com Casagrande, João Paulo, Wladimir, Zenon, Biro-Biro...

Chapa quente
A candidatura de Adilson encontrou apoio na imprensa e entre a Gaviões da Fiel, a principal organizada do clube, e a Camisa 12.
Não foram poucos os eventos sociais e públicos feitos por ele para promover a chapa. Em um deles, reuniu 350 convidados, dos quais alguns poucos membros do conselheiros, na antiga boate Gallery. Lá estavam o publicitário Washington Olivetto e o compositor Tom Zé.
Adilson chegou a propor um debate público entre ele e Pasqua, que recusou. Em depoimento para a “Folha de S.Paulo”, o empresário ainda queixou-se sobre a conduta do rival, sentindo-se desrespeitado.
“Debate público não leva a nada. A campanha que fazemos em cima de quem vota”, disse.
A Pasqua adotou o caminho mais tradicional. Buscou atrair e manter-se afiado com os responsáveis pelos votos: os conselheiros. Semanas antes do pleito, ele reuniu mais de cem deles para um jantar no Terraço Itália, no centro de São Paulo.
O empresário articulou ali a união de dois “inimigos mortais” no Corinthians: Wadih Helu, presidente de 1961 até 1971, e Vicente Matheus, seis vezes ocupante do cargo. Foi algo decisivo para dar força para sua chapa.
Matheus não foi ao jantar. Acabou representado pelo irmão Isidoro.
Confusão? Traição?
Dia antes do pleito, o presidente Waldermar Pires anunciou que os portões do Parque São Jorge ficariam abertos durante a votação.
O grupo de Pasqua se irritou. Acusou a situação de tentar jogar pressão sob os conselheiros, acreditando que os torcedores fariam pressão para que os votos fossem para Adilson. Sem conseguir alterar o rumo das coisas, Pasqua pediu ajuda para Temer.
A presença de mais policiais não evitou confusão.
Primeiro porque o grupo de Pasqua tentou bloquear o acesso dos torcedores á área da votação. A decisão foi seguida de forte discussão com Adilson Monteiro Alves e só foi encerrada quando Waldemar Pires encontrou uma solução pacífica para todos os lados.
Alguns poucos torcedores foram liberados para entrar no ginásio, onde ocorria a votação. A maioria ficou do lado de fora, na área do estacionamento, acompanhando à distância o que ocorria.
Depois, um conselheiro tentou expulsar o jornalista Fausto Sucena Rasga de dentro do ginásio acusando o profissional de ser favorável a Adilson. Nova confusão. Scarpelli, vice de Adilson, tentou apazigar e tomou um tapa. Mesmo contido, xingou os oposicionistas e tentou brigar.
Outro momento tenso foi causado por Vicente Matheus. Ao chegar ao clube, disse que não estava apoiando nenhum dos lados, embora seu irmão, Isidoro, tenha afirmado na mesma hora que torcia pela vitória de Pasqua.
Alguns chamaram Matheus de traidor. Outros o acusaram de pensar apenas nele e não no clube.
No ápice das discussões, Orlando Monteiro Alves pediu a Matheus que votasse em Adilson e que assim eles fariam de tudo para construir o estádio em Itaquera, velho sonho do cartola, segundo relato publicado em “O Estado de S. Paulo” da época.
O resultado saiu quase no fim da noite. Pasqua vencera.
Assim que o resultado foi anunciado, muitos torcedores se revoltaram. Tentaram invadir o ginásio e foram contidos pela polícia, que disparou tiros para o alto. Pasqua mal pode celebrar. Deixou o Parque São Jorge escoltado e deu a primeira entrevista como presidente no dia seguinte.
Promessas e velha política
Os candidatos tinham propostas simulares para o Corinthians.
Ambos falavam em construir um novo prédio administrativo; fortalecer os esportes amadores; repetir o Flamengo de 1981, isto é, vencer o Brasileiro, a Libertadores e o Mundial para fortalecer a “marca Corinthians”, criar escolinhas e melhorar formação dos atletas.
Discordavam nos métodos. Adilson entendia ser ele o caminho de uma evolução para que o clube cada vez mais ficasse fora das mãos dos grupos, enquanto Pasqua queria recuperar as tradições do clube e acusava a democracia de ser uma anarquia.
A gestão de Pasqua não foi boa. Não conseguiu cumprir as promessas nem ganhar títulos.
Foi um administração difícil e tumultuada. Logo no primeiro ano brigou com o diretor de futebol escolhido por ele, o empresário Antoine Gebran, então com 42 anos, e o dispensou. Colocou no lugar Alberto Dualib, homem que ficaria futuramente 13 anos na presidência do clube.
Também fracassou em administrar o elenco. No final de 1985 viu Dunga, De León e Serginho partirem. Seis meses depois foi a vez de Casagrande. Em 1987, foi Wladimir. O time ainda teve momentos em que fez a torcida lembrar o "Faz me Rir", ao ser lanterna da primeira fase do Paulista-87.
O Corinthians da era Pasqua fracassou em todos os torneios que disputou e o empresário se desgastou.
Assim, em março de 1987, abriu caminho para Vicente Matheus ser eleito como presidente. Dessa vez, o velho cartola não só derrotou Pasqua como ainda bateu a chapa da “Democracia Corinthiana”, dessa vez encabeçada por Orlando Monteiro Alves.
