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Apolinho acordou radialista e dormiu técnico do Flamengo: 'Futebol é um negócio que não tem explicação'

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Apolinho, durante jogo do Flamengo pelo Campeonato Brasileiro de 1995 (1:02)

Radialista comandou o clube rubro-negro no ano do centenário (1:02)

Apostar na contratação do português Jorge Jesus certamente foi um dos trunfos do Flamengo nesta temporada. Mas não é de hoje que o clube rubro-negro inova na hora de escolher seu comandante. No ano de seu centenário, porém, o Fla exagerou na novidade, surpreendendo até mesmo o escolhido.

Imagine o seu comentarista esportivo preferido. Mauro Cezar Pereira? Gian Oddi? Celso Unzelte? Jorge Nicola?

Agora, o imagine no banco de reservas do time para o qual você torce, como o técnico. Foi exatamente isso que o clube da Gávea fez em 1995, quando completou 100 anos.

Após passagens frustradas de Vanderlei Luxemburgo e Edinho, Kleber Leite, presidente do clube, escolheu o radialista Washington Rodrigues, conhecido como Apolinho, para comandar a equipe do "melhor ataque do mundo: Sávio, Romário e Edmundo".

A contratação aconteceu num jantar a que Apolinho, então com 61 anos, hoje com 83, foi chamado por Leite.

"Eu achei que o Kleber queria minha opinião sobre a indicação de um técnico. Minha sugestão era o Telê Santana, que conseguiria acalmar o racha interno, com disciplina, e fazer com que as cobranças externas diminuíssem. Mas ele me disse que o escolhido era eu", conta o radialista, atualmente na Super Rádio Tupi, do Rio.

Apolinho, um rubro-negro assumido, convicto e fanático, não pensou nem meia vez para aceitar. "Aquilo foi uma convocação. Eu tinha de ir", disse ele ao ESPN.com.br. "Eu saí da arquibancada para comandar a minha paixão", afirma.

Segundo Apolinho, Leite precisava de ajuda. O time do Flamengo tinha uma disputa entre os jogadores que estavam no clube desde o começo do ano, os que chegaram com Edinho, do Fluminense, e os garotos das categorias de base.

Além disso, Edmundo e Romário, as maiores estrelas da companhia, não se falavam mais. E Sávio e Romário tinham brigado em uma excursão do time à Ásia - captada pelas câmeras da Rede Globo.

O radialista tinha de fazer o grupo funcionar em harmonia, blindar o elenco e o clube da imprensa e, de quebra, tentar fazer com que o Fla não passasse o ano de seu centenário em branco, sem uma conquista. A opção possível era a Supercopa da Libertadores, que reunia os campeões do torneio continental.

"A primeira coisa que fiz foi levar todo o elenco para minha casa e mostrar a eles um filme com a história do Flamengo. Explicar para eles o que era jogar no clube, o que o time representava para a torcida", conta.

"Eu pedia a eles que, ao entrar em campo, olhassem para a arquibancada, por dez segundos que fosse. Para eles saberem que havia ali gente que não levava comida para casa para ver a gente jogar. O que eu mais queria deles era dedicação, era o que a torcida queria. E esse discurso funcionou", conta Apolinho.

Já Apolinho, quando no Maracanã, olhava para a TV. Desacostumado a ver o jogo do chão, ele pediu para que uma TV fosse instalado no banco de reservas.

O então treinador conhecia futebol pelo lado de fora. Mas não sabia como era uma rotina de treinos. Assim, levou consigo o técnico Artur Bernardes para ser seu auxiliar-técnico.

Bernardes ficava com a parte técnica. Apolinho, com o que ele considera a parte mais relevante do trabalho de um treinador: administrar as vaidades e conflitos do elenco. Foi pensando nisso que o técnico atacou, logo de cara, o problema entre Edmundo e Romário. Mais uma vez, a casa de Apolinho foi o o local escolhido para a reconciliação.

ASSISTA aos gols de Flamengo x Bahia

"Minha esposa preparou um lanche para a gente. No começo, eles sentaram quase de costas um para o outro. Aos poucos, fui explicando como eles eram importantes para mim e para o Flamengo. Depois, eles começara a se falar. No fim, eles estavam se abraçando", conta o radialista.

"O Romário chegou para mim depois e disse: 'você não sabe o problema que arrumou. A gente, amigo, vai sair à noite todo dia'", conta Apolinho. "Eu não tava nem aí, contanto que eles se acertassem e jogassem", diz ele.

"EU NÃO RECOMENDO"

Apesar de ter gostado muito da experiência, Apolinho não recomenda a nenhum clube a contratação de um outsider para o cargo de treinador.

"Técnico tem que ser quem estudou, se capacitou para isso. Cada um no seu cada qual", afirma. "Ali, o Kleber precisava de ajuda e me chamou".

Mas, e se chamado hoje, para comandar o esquadrão de Jorge Jesus, Apolinho conseguiria o mesmo sucesso?

"Talvez sim. Futebol é um negócio que não tem explicação", diz ele, que toma o próprio Jorge Jesus como exemplo.

"Quando ele chegou, eu pensei: isso tem tudo para dar errado", conta. "Um técnico com desempenho médio na carreira, que não conhecia o Flamengo, que não conhecia os adversários, e que trouxe uma comissão de sete pessoas que sabiam ainda menos do que ele".

Mas Apolinho, como bom flamenguista, se rendeu ao Mister.

"Ele é um fenômeno. Até cartilha de comportamento ele implantou no clube, algo que nunca funcionou no Flamengo, e deu certo", analisa

MELHOR ATAQUE DO MUNDO

Embora tivesse um tridente de fazer inveja a qualquer clube no planeta, Apolinho poucas vezes conseguiu escalar Sávio, Romário e Edmundo juntos.

"O Romário não vivia um bom momento fora de campo, tinha problemas pessoais e, em campo, dificilmente conseguia ficar 100%, como conseguiu anos mais tarde", relembra-se ele. "Houve um treino em que ele caiu duro no campo, tivemos de levá-lo para o hospital".

"O Edmundo quebrou o pé e, quando tirou o gesso, se envolveu em um acidente de trânsito e não jogou mais", diz.

"No fim, aquele ataque ficou mais no nome, no papel".

Para suprir as necessidades da equipe, Apolinho apostou na base. Na frente, lançou o garoto Aloísio, que já era chamado de Chulapa na época. Na lateral direita, pediu a promoção do lateral Dida, 17.

"O problema é que aí eu tinha jogadores que ganhavam R$ 650 cruzando bola para os que ganhavam R$ 300 mil. E, na hora da cerveja, os que ganhavam muito queriam que a molecada dividisse a conta. Até isso, você tem que administrar, para que grupos paralelos não se formem dentro do grupo", explica.

DESEMPENHO

Segundo o Almanaque do Flamengo, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, Washington Rodrigues comandou o Flamengo em 26 jogos com 11 vitórias, oito empates e sete derrotas.

No fim do ano, entregou o cargo, sendo substituído por Joel Santana.

Apolinho não conseguiu um título para o clube. Ganhou do Independiente na final da Supercopa, num Maracanã lotado, por 1 a 0. Mas, como perdera na Argentina por 2 a 0, ficou com o vice.

No Brasileiro, o Rubro-negro teve uma campanha pífia. Com 24 pontos em 23 jogos, foi o 21º de 24 clubes que disputaram o campeonato - seis pontos acima do primeiro rebaixado, o Payssandu.

O campeão brasileiro foi o rival Botafogo, que bateu o Santos na final.

O radialista ainda voltaria ao Flamengo em 1998 como diretor de futebol. Nessa passagem, acabou levando um calote do clube,

"Mas não processei nem nunca processaria o Flamengo", afirma. "O que o clube me proporcionou, servir meu clube, servir minha paixão, isso foi o meu pagamento", diz o apaixonado rubro-negro. "Trabalhar no clube foi uma medalha".

"Eu sempre entrava em campo com os jogadores, ia até o centro do campo. Eu até brincava com o Romário, dizendo que a torcida gritava mais o meu nome do que o dele. O Flamengo me deu uma projeção que eu não tinha. Eu era conhecido no Rio e em um pouco do Brasil. A marca do Flamengo colou em mim".

"Eles não sabem, mas me pagam com gols", decreta.