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Símbolo da luta contra o racismo, Adauto fala sobre agressões a Taison e Dentinho: 'Não acredito que esta geração vai trazer solução'

A lista é extensa. Roberto Carlos, Marcelo, Daniel Alves, Neymar, Hulk, Malcom... Agora, Taison e Dentinho. Todos são brasileiros. Todos foram vítimas de insultos racistas na Europa.

Adauto é mais um nome nessa lista. O atacante veloz e fazedor de gols começou a carreira no Santo André e se tornou a maior negociação da história do clube, ao ser vendido para o Athletico-PR, onde foi campeão brasileiro em 2001. Em seguida, chegou ao Slavia Praga.

Foi o primeiro brasileiro a atuar em um clube tcheco. Foi o primeiro brasileiro negro no futebol do país também. Em todos os estádios, era hostilizado. No começo, não entendia, por causa da dificuldade com o idioma. Mas logo percebeu os gritos e gestos. “Macaco”, diziam.

O fundo do poço foi em abril de 2003, no clássico contra o Sparta Praga. “A cada momento que eu pegava na bola, eles faziam ruídos de macaco”, disse Adauto, em entrevista à ESPN em 2015. Mas gritavam com tanto ódio que a partida foi paralisada pelo árbitro. Foi o primeiro jogo na Europa paralisado por manifestações racistas. A polícia foi chamada. A raiva aumentou. Bananas foram atiradas no gramado.

A repercussão foi imediata. Dirigentes, federações, jogadores, todos se uniram, e Adauto virou a cara da campanha contra o racismo no futebol. “Fui o primeiro atleta em atividade a fazer essa campanha contra o racismo”, disse. Em 2009, ele seria mais uma vez vítima de atos racistas, dessa vez no MSK Zilina, da Eslováquia.

Mais de 15 anos depois do primeiro episódio, mais de 15 anos depois da campanha na Europa, Adauto se depara com novas manifestações racistas, agora contra Taison e Dentinho, do Shakhtar Donetsk.

Em depoimento ao ESPN.com.br, ele fala sobre o que viveu e sobre o que estão vivendo seus compatriotas na Ucrânia. E não acredita que, em um futuro próximo, essa crueldade terá solução:

"Algumas pessoas acreditam que esse preconceito está presente na sociedade e, principalmente, no esporte. Outras pessoas defendem a sua inexistência...

O fato é que, sim, ele existe e se mostra cada vez mais presente em nossa maior paixão, que é o futebol. Infelizmente, quando se fala de clássico na Europa, toda injúria racial contra atletas de pele negra sempre vai estar presente.

A Uefa se manifestou por algum momento e as punições ocorreram, porém, o maior problema está no ser humano. A pergunta é: "Quem de nós sofre de racismo?”. O preconceito está na própria cabeça de quem comete a injúria racial. Todos nós somos vítimas.

Infelizmente, os atos de injúria no futebol têm sido reincidentes. Aconteceu na Bulgária, há alguns dias aconteceu um ato de injúria, onde os torcedores búlgaros insultaram os jogadores da seleção inglesa. 30 dias depois, o episódio se repetiu na Itália, já com o atleta Balotelli.

Hoje, para nós, brasileiros, foi mais decepcionante o que ocorreu na Ucrânia. Não consigo entender essas atitudes do povo europeu em pleno século 21. Já passamos mais de 30 anos da queda do Muro de Berlim, e ainda existe uma minoria cometendo atos de injúrias no futebol europeu.

Estou muito decepcionado com mais este ato.

Sinceramente, não acredito que esta geração vai trazer solução. Daqui três gerações acredito que o mundo pode melhorar."