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Três presos, agressões e intervenção de embaixador: jogo mais violento da história, Estudiantes x Milan completa 50 anos

22 de outubro de 1969. La Bombonera seria o palco onde se conheceria o campeão intercontinental daquele ano.

O grande duelo entre Estudiantes e Milan, no entanto, viu ser marcado não pela técnica e sim por cenas lamentáveis, a ponto de três jogadores da equipe argentina receberem ordem de prisão.

Depois de ter vencido na Itália por 3 a 0, o Milan foi a Buenos Aires com uma grande vantagem, mas para segurá-la foi difícil. E não só no aspecto futebolístico.

Os italianos inauguraram o placar com Gianni Rivera aos 30min do primeiro tempo, mas os donos da casa viraram antes do intervalo com Marcos Conigliaro, aos 43min, e Ramón Alberto Aguirre Suárez, aos 44min. O placar se manteria na segunda etapa, e o time italiano garantiu o título.

Mas a pancadaria foi mesmo o que marcou o jogo a ponto de o presidente ditador da Argentina Juan Carlos Onganía determinar a prisão por 29 dias dos jogadores Alberto José Poletti, Eduardo Luján Manera Manera e Aguirre Suárez – os dois últimos, inclusive, receberam cartão vermelho durante a partida.

“Espetáculo lamentável que violou a ética esportiva mais básica”, afirmou Onganía sobre o confronto que foi transmitido ao mundo.

Boa parte das agressões ao time rival foram destinadas a Nestor Combin – e por um motivo em específico. Nascido na Argentina, ele rumou para a Europa e se naturalizou francês.

Depois da partida, o atleta foi levado pela polícia sendo preso como insubmisso, por não ter cumprido o serviço militar obrigatório em seu país natal. O atacante só seria liberado no dia seguinte, com a intervenção do embaixador francês, que precisou levar um comprovante que ele tinha prestado o serviço militar na França.

Na partida, Combin foi diversas vezes agredido e, por conta disso, sua cara ficou deformada. Tal imagem ganhou espaço na imprensa mundial e virou o principal retrato da barbárie ocorrida na partida na Bombonera.

"Sabia que todo mundo ia ficar bravo comigo, mas não imaginava que teriam chegado a tudo isso. Me agrediram desde o começo. Mal entramos no campo e o Aguirre Suárez começou a me xingar. Poletti gritava: 'Porco traidro, vamos quebrar suas pernas'. No primeiro tempo, só conseguiram me dar dois chutes e um golpe nas costas. No segundo tempo, com a bola longe, Aguirre me xingou. Eu me virei, e ele me empurrou e me fez perder o equilíbrio. Enquanto eu estava caindo, ele me deu uma joelhada. Quase desmaiei. Continuava a sangrar. Falava com os outros sem entender o que estavam falando", contou o próprio Combín em entrevista à época à revista Domenica del Corriere.

"Para mim, não tenho medo de dizer, os jogadores do Estudiantes estavam drogados. A questão deles não era futebol, nem violência, era delinquência."

"Éramos uma equipe guerreira. Além disso, recordo que, antes da partida de volta com o Milan, foi ao vestiário um padre das Forças Armadas da Argentina e nos disse: 'ganhar ou morrer'. Nós éramos jovens, eu tinha 23 anos", disse Poletti, goleiro do Estudiantes, em entrevista ao jornal As em 2005.

O ex-goleiro falou na entrevista que não se arrependeu do que fez.

"Não, eu paguei pelo que fiz. Trinta dias atrás das grades e sete meses sem jogar. Me suspenderam pela vida, mas, quando caíram os militares, me indultaram. O monsenhor do 'ganhar ou morrer' não apareceu para dar a cara. Queriam que ganhássemos porque no país havia revoltas de trabalhadores, greves... e queriam encobrir."