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Ex-Flamengo foi capitão de Jorge Jesus em Portugal e agora quer ser treinador

Quando foi contratado pelo Braga-POR no meio de 2008, Moisés Moura ficou no meio de um impasse: o técnico Jorge Jesus queria promovê-lo a um dos capitães da equipe e romper com uma forte tradição do clube português.

Era comum que os atletas com mais tempo de casa utilizassem a faixa. Mas o treinador, atualmente no Flamengo, nunca gostou do "comum".

"Ele chega mudando as coisas que acha que não irão funcionar no contexto dele. Ele coloca as ideias dele não somente na parte tática, mas também na parte comportamental no ambiente de trabalho com o grupo. Quem não segue terá problemas", contou o ex-defensor, ao ESPN.com.br.

"O clube já tinha os capitães. Isso pra eles foi um impacto e tiveram algumas reuniões porque alguns jogadores não concordavam com essa escolha. Existiu um processo de desgaste natural".

O brasileiro chegou a afirmar para o "mister" que não precisava usar a faixa porque seu comportamento seria o mesmo.

"Eu disse que ele poderia dar a faixa para outros, mas ele manteve o que o acreditava. Isso foi uma forma de mostrar logo no início que confiava muito em mim. Tanto é que tomou uma aposta que não é normal", afirmou.

Os jornais de Portugal brincavam que o time estaria bem protegido. Isso pelo fato de o presidente chamar-se (Antônio) Salvador, o técnico (Jorge) Jesus e o zagueiro Moisés. A base montada pelo técnico que era repleta de jogadores brasileiros mudou a história recente do clube.

"Ele me fez crescer muito como atleta, e nós conversávamos muito. Na reta final da temporada, eu precisava operar de pubalgia e hérnia inguinal. Eu quase não treinava, só conseguia jogar. Toda vez que eu falava que ia parar, ele me pedia para esperar mais um jogo. Segurei até o último jogo porque confiava muito nele. Só consegui fazer a temporada porque ele fazia a minha cabeça para jogar. Se não fosse de outra forma, eu não jogaria".

Logo após duelar contra o Sporting, no José Alvalade, em Lisboa, Moisés foi operar e não foi mais comandado por Jesus, que foi contratado pelo Benfica.

Com a base cheia de brasileiros montada pelo comandante, o Braga chegou a jogar a Champions League, foi finalista da Europa League e vice da Liga Portuguesa (2010), perdendo justamente para o Benfica treinado pelo "mister".

Moisés saiu do time Português em 2011, quando foi ao Al-Rayyan, do Catar.

Passagem no Fla

Revelado pelo Vitória, Moisés foi em 2002 para o Spartak de Moscou-RUS. Depois de enfrentar problemas no Krylya Sovetov-RUS, ele jogou pelo Cruzeiro antes de ir à Portugal.

"Eu tinha um problema com a Fifa porque tinha recebido uma suspensão quando fui ao Cruzeiro. Eu tinha rompido com o clube russo por causa de salários atrasados. Essa situação se arrastou por um ano e meio e quando fui ao Sporting de Lisboa, estava para estrear quando recebi uma punição de seis meses"

O zagueiro rescindiu seu contrato com time de Lisboa e foi ao Flamengo, no começo de 2007.

"Eu estava com a cabeça boa e comecei muito bem. Após passarmos pelo Vasco na semifinal da Taça Guanabara, eu fui com o Michel Assef, advogado do Flamengo para a Suíça".

Na audiência, o zagueiro pegou mais quatro meses de suspensão, que precisariam ser cumpridas.

"Eu lembro que voltei na sexta-feira antes da final. O [técnico] Ney Franco perguntou se eu estava bem. Eu queria muito jogar, mas estava coma cabeça perturbada. Fui para o jogo contra o Madureira e acabei expulso", contou.

A situação não o deixava ter o melhor desempenho.

"O futebol não rendia porque eu estava com a cabeça ruim e não conseguia treinar bem. Tive algumas lesões que também me atrapalharam. Conversei com a diretoria e disse que não tinha condições psicológicas de jogar sem resolver meu problema de cumprir a suspensão", recordou.

Moisés acertou com o Boavista, de Portugal, e cumprir a punição na Europa. Ele voltou aos campos nos quatro meses finais da temporada 2007/2008 e se destacou. Logo em seguida, foi contratado pelo Braga.

"A gente cresce nos momentos difíceis. Eu sempre tive uma mentalidade boa e sei de como é a pressão no futebol. Eu convivo bem com isso", afirmou.

Desejo de ser técnico

Depois que saiu do Braga, ele passou pelo Al-Rayyan, do Catar antes de chegar ao Shanghai Shenhu, da China, no qual foi colega de Anelka e Drogba. Em 2013, ele acertou com a Portuguesa e virou capitão na Série A do Brasileiro.

"Faltando poucas rodadas para o fim do ano, eu sofri uma compressão medular em um jogo contra o Coritiba. Precisei fazer uma cirurgia e colocar uma placa de titânio. Imagina um zagueiro que não poderia cabecear a bola? Não teve jeito, tive que parar".

Moisés pendurou as chuteiras no começo de 2014 e decidiu se dedicar à nova profissão.

"Comecei a fazer cursos da CBF para ser treinador e me preparei bem. Estou pronto para começar porque estou tirando a licença A. No fim do mês eu vou para Portugal porque meu objetivo é começar a carreira por lá. Antes disso, preciso tirar a licença da Uefa", explicou.

Aos 40 anos, o antigo defensor acredita que terá sucesso fora das quatro linhas.

"Conversei com meus ex-treinadores que me deram um retorno muito legal. Tentei pegar o melhor de cada um deles. Eu tenho muita confiança nesse novo processo. Não é fácil, mas estou bem motivado. O treinador hoje em dia é um gestor e precisa saber lidar com jogadores, imprensa e diretoria. Eu tenho as minhas ideias muito claras e não vou imitar ninguém", finalizou.