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Ex-Flamengo que trabalhou com Jorge Jesus em Portugal garante: 'Ele ainda não está 100% satisfeito'

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O sucesso de Jorge Jesus no Flamengo não é uma surpresa o ex-zagueiro Moisés Moura, que teve passagem pelo time da Gávea e chegou a ser um dos capitães do treinador português no Braga, de Portugal, na temporada 2008/2009.

Naqueles tempos, Jesus trabalhou com mais de uma dezena de brasileiros em seu elenco e montou a base que chegou a disputar, anos depois, a Champions League, além do vice do Campeonato Português e da Europa League.

Moisés explicou em entrevista exclusiva à ESPN algumas das principais ideias do "mister".

O Flamengo, líder do Campeonato Brasileiro, jogará fora de casa contra o Fortaleza, nesta quarta-feira, às 20h (de Brasília).

Amor pelo Brasil

"Jesus acompanha os jogos do Brasileiro há muito tempo e conhece alguns jogadores que muitas vezes nós não conhecemos. Eu vi alguns programas de televisão dizendo que ele não conhecia o futebol brasileiro. De repente, ele conhecia mais os jogadores brasileiros do que muitos que estão por aqui. O sucesso dele não me surpreende. Eu estava curioso para ver como seria a adaptação dele à cultura do futebol brasileiro e ao nosso calendário cheio de jogos."

"Quando ele chegou ao Braga foram contratados uns dez brasileiros. Naquele momento, o time subiu um degrau em termos de respeito dos adversários. A espinha dorsal ficou muito tempo, e depois chegou à Champions League e brigou pelo título português e da Liga Europa. Eu me dei superbem com Jesus. Ele fica nervoso no banco de reservas, mas é um cara sensacional fora de campo."

Treinos

"Os treinos eram intensos e na parte da manhã. Não existe essa de 'colocar o pé mais ou menos'. Se fizer isso, capaz de sofrer uma lesão ou um trauma porque ele te puxa ao máximo. Ele exigia chegar antes bem antes dos trabalhos e se preparar porque explicava como seria a atividade do dia. Antigamente no Brasil o pessoal tinha o costuma de chegar cerca de 10 minutos antes. Ele é muito detalhista, estuda os adversários e vê muitos jogos. O Jesus conversa muito com os atletas durante os treinos e te dá tudo bem mastigado do que deseja que você faça."

Convencimento

"Ele não te fala: 'Faça isso ou não faça aquilo'. Ele te mostra no dia a dia e trabalha a equipe como um todo e vai te mostrando o caminho. Você acredita muito porque ele te mostra dados. Jesus conversa com a equipe toda, que vai entendendo o processo. Os jogadores olham para um treinador e sabem se aquele cara entende do que está falando e se vão comprar as ideias dele."

"Ele não trata ninguém com diferença e não dá privilégios. Ele trabalha os titulares e os reservas da mesma forma. Algumas vezes dá até mais atenção aos que não estão jogando. Quando o reserva entra em campo, ele não corre em posição errada ou destoa do resto do time."

"O jogador não tem tempo de pensar em horário livre. Ele consegue colocar na sua cabeça que é preciso estar bem no outro dia para treinar ou para jogar. Descanso também é treino. Se perder uma noite vai influenciar porque a parte física é importante. Essa cultura não tínhamos no Brasil anos atrás, mas isso está mudando."

Ele muda o que não funciona

"Ele chega mudando as coisas que acha que não irão funcionar no contexto dele. Ele coloca as ideias dele não somente na parte tática, mas também na parte comportamental no ambiente de trabalho com o grupo. Quem não segue terá problemas. Ele está atento a tudo, vê todos os detalhes do ambiente que o cerca e faz questão de entender tudo. Ele sabe até quais são os repórteres que fazem tal pergunta..."

Me fez entender o jogo

"Taticamente, o Jorge Jesus é o cara que mais me fez entender o jogo. Para trabalhar com ele você precisa ser psicologicamente muito forte. Ele te exige ao máximo porque é muito bom nisso. A visão que ele tem do jogo é diferente. O Jesus não trabalha a equipe em cima de um craque, o mais importante para ele é o todo. Os jogadores deles precisam entender sobre preencher os espaços, aonde está a bola e seu companheiro para se posicionar melhor. Se fizer isso, você vai correr menos e a qualidade com a bola vai aparecer."

Preencher espaços

"No Brasil, estamos acostumados a ver o primeiro volante a ser muito marcador. O principal ponto com Jesus não é ser muito bom no 'um contra um', é entender o espaço que irá jogar e saber preenchê-lo. Ele te dá essas situações para você não ser surpreendido."

"Por exemplo, o Arão é hoje o primeiro volante, mas nem por isso deixou de ter qualidade na saída de bola e fazer gols. Ele sobe menos em função da posição, mas quando sai, outro já preenche o espaço. Você não verá um centroavante fixo ou o Éverton Ribeiro começar o jogo na esquerda e terminar no mesmo lugar. O jogador precisa saber a ideia da equipe para não deixar buracos."

Como joga um zagueiro

"Ele não quer um zagueiro muito rápido que saia toda hora na 'caça' para ficar no 'um contra um'. Para ele, o mais importante é a leitura de jogo e fazer com que a bola não chegue ao atacante para não dar oportunidade. Existe uma faixa do campo aonde sai a maioria dos gols, como a frente da grande área e dentro da área. Ela precisa estar coberta o tempo todo. Você não vê os zagueiros do Flamengo saindo da área para cobrir laterais ou passarem dos volantes para irem atrás de atacantes."

Ainda não está 100% satisfeito

"O sistema defensivo já começa desde os atacantes. Se o adversário não tem tempo para pensar, a jogada não irá sair com qualidade. No Brasil, a gente costuma recuar todo mundo e dá tempo de o adversário armar uma jogada. Quando você perder a bola, já precisa pressionar. Se a bola está coberta ou não, ou seja, se está com adversário perto ou não. E ele sobe a defesa dele ou não. Essa é a grande chave do trabalho, é algo que faz muito bem."

"Acho que ele ainda não colocou do jeito que ele gosta algumas movimentações do sistema defensivo. Ele está ajustando isso porque é o mais difícil de fazer no meio de uma competição. Acho que que ele ainda não está 100% satisfeito."