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Ex-Palmeiras queria ser peão de rodeio, mas virou artilheiro e xodó de Marcos; hoje, mora no 'meio do mato'

Osmar ficou famoso na década passada por acertar chutes quase impossíveis do meio da rua e por fazer sua comemoração característica: o salto mortal de costas. Com passagens por clubes como Santo André, Palmeiras e Grêmio, ele resolveu pendurar as chuteiras de vez em 2019, aos 39 anos.

Com isso, voltou às raízes e foi morar "no meio do mato", como o ex-atacante gosta de dizer.

Natural do interior de São Paulo, Osmar começou em uma escolinha chamada Expressinho, em Marília-SP, mas abandonou o futebol aos 14 anos.

"Eu resolvi virar um peão de rodeio profissional e passei a treinar montando em bois e cavalos 'brabos' na fazenda. O problema é que um dia eu quebrei meu braço e meu pai falou: ‘Esse negócio de rodeio não é para você’. Assim que meu braço sarou eu mudei de área”, disse ao ESPN.com.br.

O jovem passou a trabalhar com seu pai, Adão, recolhendo a serragem da madeira em uma fábrica de caixões em Cabrália-SP. "Eles levavam as sobras para colocarmos nos currais das fazendas da região", contou.

O destino de Osmar mudou após uma ida à igreja para falar com um conhecido, que tinha um clube chamado Nikkey.

"Eu fui muito mal nos testes porque estava longe dos gramados há tempos. Eles me conheciam desde garoto e eu jogava bem. Mas naquela época estava totalmente fora de forma. Mesmo assim, fui chamado pelos técnicos para integrar o time e passei a receber ajuda de custo", recordou.

A partir disso, o atacante passou a melhorar e foi contratado como "contrapeso" pelo Rio Branco de Americana.

"No primeiro teste, eu já fiz sete gols e fui aprovado. Depois de dois meses, um diretor queria me mandar embora para trazer outro atacante vindo do Rio Grande do Sul. O presidente do clube queria nos ver em ação e pediu uma partida entre os times sub-17 e sub-20. Nós dois entramos no segundo tempo e eu marquei dois gols com dois passes dele. O presidente queria ficar com a gente, mas o diretor não. Ele foi inscrito no Paulista e eu não.”

Quando parecia que ficaria encostado, o técnico Marcão (ex-atacante do São Paulo) levou Osmar para um amistoso contra o sub-20 do Corinthians.

"Eu entrei aos 30 minutos do segundo tempo, quando o jogo estava 0 a 0. Na primeira bola que peguei, fiz um gol. No outro lance, marquei outro. Então, o Rio Branco resolveu ficar comigo de vez. Fiz uns 15 gols pelos juniores e subi aos profissionais", contou.

O atacante foi emprestado ao União Mogi, na Série A3 do Paulista, depois de uma troca de diretorias.

“Uma vez nós estávamos perdendo por 8 a 2 para o Noroeste, mas um olheiro do União São João me viu e pediu a minha contratação. Eu fui negociado em uma troca com outro jogador e a minha carreira deslanchou”, explicou Osmar.

Copa do Brasil pelo Santo André

Logo depois o Paulista de 2004, ele foi levado pelo ex-zagueiro Júlio César, que jogou a Copa do Mundo de 86, para um teste em um clube da Alemanha.

"Eu não estava bem naquela época porque meu pai havia falecido. Acabou não dando certo por lá e voltei ao Brasil". Poucos dias depois, Osmar acabou indicado pelo presidente do União São João ao Santo André.

Na equipe do ABC, ele venceu o maior título da carreira: a Copa do Brasil de 2004. Seus jogos mais marcantes foram contra o Palmeiras, seu clube de infância, pelas quartas de final da competição.

No jogo de ida, no Bruno Daniel, ele fez um golaço do meio da rua no empate em 3 a 3.

"Eu não vi o Marcos adiantado. Eu sabia que daquele lado do campo era mais escuro porque a iluminação era bem ruim e arrisquei. O vento estava a favor da gente no primeiro tempo. Não tive outra chance para chutar e queria acertar o gol, mas fui muito feliz. Na hora eu nem acreditei porque o Marcão era um puta goleiro! Ele não esperava o chute. Depois, fiquei vendo um monte vezes o replay pela televisão na minha casa", contou.

"No final da partida, eu pedi a camisa do Marcão. Ele me deu, mas eu não pude dar a minha porque teria que dar dinheiro ao Santo André. Se eu trocasse, depois teria que vender a do Marcos para pagá-la (risos). Guardo a camisa até hoje", contou.

Em entrevista à ESPN, em 2017, Marcos admitiu que Osmar marcou um dos gols mais lindos que levou.

"Ele pegou a bola quicando e sentou uma 'bambuzada' que mandou ela lá no trinco. Esse foi bem bonito. No dia lá eu saí meio p... e falei que nem se tivesse um foguete no rabo eu chegava naquela bola (risos). Mas é verdade, não dava pra pegar", disse o ex-goleiro.

O lance alavancou a carreira de Osmar, que fez outro gol no Verdão no duelo de volta, que terminou empatado em 4 a 4 e deu a vaga nas semifinais para o Ramalhão.

O atacante foi peça fundamental para o título quase improvável conquistado pelo Santo André contra o Flamengo no Maracanã.

"A gente parecia os guerreiros entrando no Coliseu de Roma no filme "Gladiador" (risos). Eu nunca tinha pisado naquele gramado na minha vida", recordou o jogador.

O camisa 7 deu uma assistência para o gol de Élvis, que decretou o 2 a 0 no placar. "Eu saí em velocidade, esperei-o entrar na área e cruzei rasteiro. Ele entrou e fez gol. Nós fomos campeões e a festa foi linda."

Ida ao Palmeiras

Pouco tempo depois, Osmar foi contratado pelo Palmeiras e virou amigo do eterno camisa 12.

"O primeiro cara que vi quando cheguei na academia foi o Marcos, que me disse: 'Contra mim era um leão, agora eu quero ver a favor!'", disse o ex-atacante.

"Eu estreei com vitória contra o Fluminense em casa e eu fiz dois gols. O Marcos falou: 'O cara quando chega sempre faz uns golzinhos, quero ver depois'. Na partida seguinte, marquei contra o Atlético-MG aos 45 do segundo tempo e nós ganhamos de 2 a 1. Marcão disse: 'Isso é normal, quero ver do terceiro jogo em diante'. Depois, pegamos o Inter e eu marquei de novo. Ele disse: 'Olha, não vou falar mais nada para você, Osmar!' Eu pensei: 'Acho que passei no teste' (risos)", recordou.

O atacante acabou virando um xodó de Marcos no Palestra Itália.

"Ele foi um dos melhores cobradores de pênalti que conheci na minha vida. Era muito difícil ele errar, fosse treino ou jogo. Parece o que o Henrique 'Ceifador' faz hoje em dia. Ele cobrava bem demais, além de ser muito gente boa", exaltou São Marcos.

Pelo Palmeiras, Osmar fez 30 gols em 67 jogos (28 vitórias, 18 empates e 21 derrotas), somando Libertadores, Brasileiros, Copas do Brasil e Paulistas. Ele balançou as redes em clássicos contra Corinthians, São Paulo e Santos, além de ter marcado contra Flamengo e Fluminense, entre outros, durante dois períodos: 2004 a 2005, e 2007 a 2008.

O ex-atacante ficou famoso por comemorar seus gols com um salto mortal de costas e ganhou o apelido de "Osmar Cambalhota".

"Eu era moleque e gostava muito de capoeira. Ia para uma escolinha e curtia virar uns 'mortais'. Quando virei jogador de futebol, eu pensei: 'Tenho que fazer algo para ficar marcado'. Daí, passei a fazer isso. É bacana porque o pessoal ficava esperando para eu comemorar. Eu não consigo mais dar esses saltos hoje em dia porque as pernas estão 'tudo' duras", contou.

O atacante teve a melhor sequência da carreira atrapalhada por lesões no joelho. Antes de se aposentar, ele ainda defendeu Morelia (México), Oita Trinita (Japão), Guaratinguetá, Grêmio, Fortaleza, Vitória, União São João, Marília, Inter de Limeira e Mogi Mirim, seu último clube, em 2018.

Atualmente, ele mora em um sítio em Marília, interior de São Paulo, com a mãe o padrasto, onde tem um campo de futebol, e ainda dá seus chutes.

"Hoje eu passo a semana toda quase no meio do mato. Eu adoro essa vida", finalizou.

*Colaborou Diego Iwata Lima