Bruno Felipe trabalhava na Petrobras e estava na várzea até os 19; hoje, joga a Champions League

Em poucos dias, Bruno Felipe Souza da Silva vai estrear na Uefa Champions League pelo Olympiakos. Há pouco mais de cinco anos, o meia-atacante conciliava a pesada rotina diária de gari – das 5h às 13h – no terminal terrestre da Petrobras, na cidade de Barueri, com os treinos no futebol amador e o supletivo para terminar o ensino médio.

“Foram três meses assim porque eu era terceirizado. Limpava banheiro, varria os corredores que eram bem grandes e as folhas que caíam nas árvores do pátio. Mas eu tinha o sonho de ser registrado como jogador profissional e esperava uma oportunidade aparecer”, disse ao ESPN.com.br.

Até então, nada indicava que jovem de 19 anos iria conseguir seu objetivo. Ele havia sido reprovado em uma peneira no São Paulo e passado pelo União Mogi, clube da quarta divisão.

"Era bem complicado porque gastava 3h30 para chegar lá de trem. Uma vez não tinha dinheiro e peguei o ônibus. Pedi para descer na frente sem pagar e quando fui ao trem na estação Osasco teve uma briga feia. Eu pedi para entrar porque tinha que trabalhar e o segurança não me deixava. Eu falei: ‘Se estivesse no seu lugar, te deixaria passar. A hora que eu virei, ele me falou: ‘Pode passar’”, contou.

Após ser campeão e artilheiro da Copa TV Esporte Mais, Bruno foi chamado por Mário Teixeira, dono do Grêmio Osasco, para treinar na equipe paulista.

“Fiquei durante um mês lá e não me deram oportunidades. Um dia, estava em casa depois do trabalho e o meu amigo Camarão me chamou para disputar um amistoso no Taboão da Serra. Lá conheci o Caio, que havia jogado na Áustria e na Suíça e estava no Sul naquela época. Ele jogou de lateral e eu botei uma fumaça danada para cima dele porque sou muito rápido (risos)”, contou.

O que Bruno mal poderia imaginar é que uma despretensiosa partida iria mudar o destina de sua vida. Ele deixaria pra trás os dias nos quais descarregava caminhões nas Lojas Americanas e transportava móveis de madeira em galpões.

“O Caio achou que eu poderia dar certo na Áustria e falou com um amigo dele que conhecia o presidente de um clube. Eu nem sabia disso, até que um cara do Austria Lustenau entrou contato comigo e perguntou se eu tinha algum DVD ou vídeo com meus lances. Eu respondi que só tinha uma foto da Copa TV (risos)”, recordou.

Ida para Áustria

O meia-atacante recebeu a ligação na sexta-feira e na semana seguinte precisaria embarcar para a Europa.

“Falava para as minhas tias só que estava indo embora, mas não contava para onde (risos). Fui pagar o passaporte, mas faltou três reais porque ele custava à época uns R$ 253. Daí, o cara falou: ‘Pode pagar aí que eu passo’. Foi coisa de Deus”, agradeceu.

Bruno surpreendeu toda sua família ao contar que seu destino seria para jogar futebol na Europa.

“Quando eu cheguei na Áustria era um frio danado. Eu fui na cara e na coragem, não sabia se ia dar certo. Eu treinava com o profissional e jogava no time b deles, que estava na quarta divisão”.

“Apesar disso, estava muito feliz. Ganhava uns 500 euros e dava 300 euros pra um cara que eu morava na casa da família dele, que me ajudou muito. Foram seis meses vivendo com 200 euros”.

Após quase seis meses de aperto no país, Bruno estava com a passagem de volta ao Brasil marcada para o dia 1º de junho. Parecia o fim do sonho para o jogador...

“Eu tomei uma pancada no joelho e achei até que tinha rompido o ligamento, mas não era isso. Ainda bem. Fazia exercícios todo dia para me recuperar. Restavam dois jogos antes de ir embora e eu precisava fazer algo. Eu pensava ninguém pode me tirar daqui e precisava fazer um contrato profissional”, recordou.

“O cara que eu morava me falava que se não desse certo tentaria me ajudar na quinta divisão. Mas eu não queria isso porque ela era bem amadora. Só tinham jogadores ruins... Na quarta divisão, o pessoal trabalha, mas treina de noite todos os dias. Na quinta divisão, nem isso”, afirmou.

“Na penúltima partida nós pegamos o líder do campeonato e eu fiz quatro gols e dei uma assistência. Na rodada final eu marquei mais dois gols, terminei a temporada com 11. Saí até no jornal local, e uma semana depois, o presidente do Austria Lustenau me ligou dizendo que eu iria assinar um contrato profissional”, recordou.

Realizando um sonho

Bruno Felipe ficou duas temporadas na equipe principal antes de ir para o LASK Linz, da Áustria. Após meia temporada, ele foi para o Atromitos, da Grécia, no começo de 2018.

Na última temporada, ele ajudou a equipe a chegar na quarta posição da Liga Grega e foi contratado pelo Olympiacos, que jogará os playoffs da Uefa Champions League. O time de Pireu enfrentará o Viktoria Plzen, da República Tcheca, que começará no dia 26 de julho.

“O coração está a mil, quero entrar logo em campo para contar minha história, quero dar o melhor. Futebol é muito rápido. Há cinco anos estava no Brasil e nem era profissional. A expectativa é muito grande e o sonho está quase se tornando realidade. Vamos em busca de dar o melhor para entrarmos na fase de grupos”.

Admirador de jogadores habilidosos como Ronaldinho, Robinho e Willian, Bruno também é fã dos astros do passado.

“Eu gosto muito do Garrincha, vejo vídeos dele direto na internet. Ele dizia nas entrevistas que quando o marcador estava parado nunca conseguia pegá-lo. Eu tento fazer a mesma coisa às vezes (risos). Já fiz alguns lances bonitos de chegar na direita, ir até o fundo e cruzar para a área”, garantiu.

Prestes a realizar seu sonho dentro dos gramados, o meia-atacante de 25 anos espera ajudar seus familiares no Brasil.

“Meu objetivo é finalizar a casa dos meus pais no Jardim Mutinga, em Barueri, até o final do ano! Será mais uma grande conquista na minha vida”, finalizou.