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Copa América: Peru x Chile também é um 'Brasil x Argentina'

No dia seguinte à classificação do Brasil à final da Copa América, com vitória sobre a Argentina, haverá outro clássico por um lugar na decisão do torneio. Afinal, Peru e Chile possuem uma rivalidade, que nasceu historicamente e foi até as mesas de bar. Seja pelo assunto ou pela bebida.

Entre 1879 e 1883, as duas nações protagonizaram a Guerra do Pacífico, um conflito pautado por motivos geopolíticos e econômicos.

“O Peru e o Chile têm abundância de recursos minerais muito parecidos. O pivô da Guerra do Pacífico foram o guano e o salitre, que eram dois produtos muito abundantes na região do Deserto do Atacama, que era dividido entre Peru, Bolívia e Chile”, afirma Tomaz Paoliello, professor do departamento de relações internacionais da PUC-SP.

O interesse econômico sobre a área gerava atritos diplomáticos, que foram se estendendo a ponto de culminar na guerra. Em meio a isso, o Peru possuía um pacto secreto com a Bolívia e, dessa forma, viria a entrar na disputa.

Vale mencionar que, no período colonial, o Peru era mais interessante à Espanha do que o Chile, por conta da mineração da prata, segundo o professor. Apesar disso, o Chile já era mais consolidado como nação e forte, o que o fez vencer a guerra e herdar a província de Tarapacá do Peru, tirar a província de Antofagasta da Bolívia, e deixar o segundo sem saída para o mar. O conflito acabou em outubro de 1883, com a assinatura do Tratado de Ancón.

“Claro, os chilenos vão argumentar historicamente que, por uma série de tratados históricos e fronteiras mal demarcadas, eles tinham direito a aqueles territórios.”

As marcas nos mapas, no entanto, não foram as únicas deixadas pela Guerra do Pacífico.

“O nacionalismo chileno se construiu muito em oposição ao Peru e vice-versa. Neste sentido, não seria tão diferente de entender Brasil e Argentina. Tem uma rivalidade histórica, geopolítica e que acabou transbordando um pouco para outras áreas”, diz Paoliello.

Com o passar do tempo, o ódio foi se dissipando, mas os traços de rivalidade seguem presentes.

"Creio que chilenos e peruanos, não todos, o demonstram. Não necessariamente no dia a dia, mas, sim, quando há uma situação como esta, em que Peru e Chile estão envolvidos", diz o jornalista peruano Julio Vizcarra, do jornal El Comércio.

"Estive no Chile há um ano, e me trataram muito bem", declara, antes de fazer uma ponderação. "Quando sabem que competem um peruano e um chileno, aparece essa rivalidade".

E é exatamente o que irá ocorrer nesta quarta-feira, quando as duas seleções ficam frente a frente na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, às 21h30 (de Brasília).

A preparação para o tão aguardado confronto pode contar com a degustação de um saboroso Pisco – por parte de ambos. E aqui nasce nova discussão.

Além do futebol, a gastronomia também é um palco para as discussões entre os dois países, que juram ser os donos da popular bebida alcoólica feita à base de uva.

“O pisco é a bebida tradicional do Chile e do Peru. Se você disser isso para um e para outro, eles vão ficar bravos”, afirma o professor.

“É peruano, mas os chilenos dizem que é deles", é a versão de Vizcarra, corroborada por outros jornalistas consultados pela reportagem nesta terça, antes das entrevistas coletivas dos treinadores na Arena do Grêmio.

"O Chile, como país, até admite que o Peru tenha sido o primeiro a usar o nome 'pisco' para o destilado de uva. Oficialmente, o Chile defende a ideia de que a palavra pisco é genérica (como cachaça, tequila) e o Peru defende que o pisco só poderia ser produzido na região de Pisco - à semelhança do Champagne - em seu próprio país", afirmou Francisca Riquelme, do restaurante chileno El Guatón, que fica em São Paulo, em uma entrevista ao portal Terra.

Retrospecto recente

Além do pisco, o que esquenta ainda mais o jogo na capital gaúcha é o retrospecto recente entre as duas seleções. Os chilenos venceram os últimos três jogos competitivos, tendo eliminado o rival na semifinal da Copa América de 2015 – na qual se sagraria campeão de forma inédita – e ainda triunfou nos dois embates pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018.

Isso, porém, não impediu que os peruanos fossem ao Mundial após 36 anos de ausência e observassem os chilenos ficaram de fora após duas participações seguidas.

No último confronto entre ambos, os peruanos triunfaram por 3 a 0 em amistoso, o que certamente os deixa mais confiantes para alcançar a final da Copa América pela primeira vez desde 1975, quando foram campeões pela segunda vez na história.

"É um clássico que não é só do futebol. Temos muitas rivalidades com os chilenos, esse clássico é especial. Sabemos tudo o que significa para nós, assim como para eles. Trataremos de fazer o melhor e que seja uma festa, porque, no fim de tudo, é só futebol. Não tratemos de mesclar outras coisas com o futebol", declarou o lateral Miguel Trauco em entrevista coletiva na segunda-feira.

De qualquer forma, ao menos no sentido figurado, uma guerra histórica deve se repetir nesta quarta.