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E o legado? Rio foi de 'bolha financeira' com eventos esportivos a desemprego, explosão da violência e obras atrasadas

Diferentemente de outras sedes desta Copa América, o Rio de Janeiro vem de uma sequência de eventos esportivos. Começou com o Pan-Americano de 2007. Depois vieram os Jogos Militares, em 2011, a Copa das Confederações, em 2013, e Copa do Mundo, em 2014 e a Olimpíada, em 2016. O atual torneio continental, que terá cinco jogos no estádio do Maracanã, entre os quais a grande final, praticamente fecha um ciclo que deveria ter mudado totalmente a cidade.

Tantos eventos acabaram por proporcionar altíssimo investimento privado e principalmente público nos últimos anos, mas após os Jogos Olímpicos revelaram-se uma verdadeira bolha financeira. Poucos dias após seu encerramento, o Governo do Rio de Janeiro decretou estado de calamidade pública.

Muitos investimentos foram imediatamente paralisados por falta de recursos. Escândalos de corrupção começaram a aparecer e resultaram na prisão dos ex-governadores Sergio Cabral e Luiz Fernando Pezão, por exemplo. O desemprego e a violência no estado explodiram.

Na cidade o caos também é grande. Dados do Ministério do Trabalho apontam que mais de 520 mil vagas formais de trabalho deixaram de existir entre 2014 e 2018. Em fevereiro, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro estimou cerca 15 mil pessoas vivendo em condição de rua no Rio.

O cenário descrito acima (e que nem retrata 100% dos problemas locais) já mostra como é difícil falar em legado após tantos eventos.

Mobilidade urbana

Os avanços foram pequenos perto do que se prometeu. O principal envolve novos transportes públicos, com a inauguração do VLT (Veículo Leve sobre os Trilhos), do BRT (Bus Rapid Transit an System) e de uma nova linha de Metrô (L4). A maioria promessa olímpica, mas nem tudo ficou pronto a tempo dos Jogos de 2016.

Por exemplo, a Linha 3 do VLT, que faz a ligação da Central do Brasil ao Aeroporto Santos Dummont (cerca de 4 km), ficou pronta no início do ano. As obras dessa linha começaram em 2018, mas no plano diretor da Olimpíada deveriam ter sido inauguradas antes do início dos Jogos.

A primeira linha do VLT (ligação da rodoviária ao centro) ficou pronta em junho de 2016 --a Olimpíada começou em agosto. A segunda ficou pronta apenas em 2017. A terceira não tem dada para começar a operar. Um impasse entre o repasse das verbas da prefeitura para a concessionária da linha causa o atraso.

Segundo a concessionária, a dívida é de R$ 110 milhões.

Vale lembrar que o projeto do VLT fazia parte do plano de vitalização da zona portuária da cidade, inclusive substituindo o Elevado da Perimetral.

A Linha 4 do Metrô carioca, que faz a ligação General Osório (Ipanema) até o Jardim Oceânico (Barra da Tijuca), ficou pronta em 30 de junho de 2016, às vésperas da Olimpíada. Mas até hoje ainda não foi inaugurada a estação da Gávea, prevista no plano inicial. O motivo é crise financeira do Governo Estadual.

As estações do BRT que faziam a ligação do Jardim Oceânico até o Parque Olímpico foram entregues perto da Olimpíada. Esse era o trecho principal. Mas há outras três linhas e todas sofreram atrasos.

Uma delas é TransBrasil, cujas obras começaram em 2015, pararam em 2016, voltaram em 2017, pararam outra vez em 2018. Foram retomadas em julho. O trecho ligará Deodoro (que teve eventos olímpicos) ao Caju. A linha deve ser entregue em outubro deste ano.

Não houve avanços em transportes fluviais, projeto mais antigo do que os eventos esportivos listados.

Mudanças urbanas

Principalmente a Olimpíada proporcionou ao Rio de Janeiro a revitalização de algumas áreas da cidade. O local mais visível é a zona portuária, perto da Praça Mauá.

Foram inaugurados o Museu do Amanhã e o AquaRio, visando o atendimento ao turista, além de restaurantes e bares. Já a área da praça é usada para eventos públicos. Receberá a Fan Fest da Copa América nos dias de jogos do Brasil, por exemplo. A Linha 1 do VLT atravessa toda a região e facilita o deslocamento.

O parque aquático de Deodoro, usado na Olimpíada, foi aberto ao público no final do ano passado para ser usado como "piscinão" (área de banho livre).

Mas qualquer carioca que for abordado pelo assunto dará de ombros. A violência aumentou muito, assim como a degradação da cidade e problemas sanitários.

Sem legado ambiental

A maior pendência no Rio de Janeiro refere-se ao legado ambiental. A Baía de Guanabara, que teve o primeiro projeto de despoluição anunciado em 2007, continua em situação preocupante. A meta era despoluir ao menos 80% da água até a Olimpíada de 2016.

A recuperação da lagoa da Barra da Tijuca, poluída com esgoto, e da lagoa de Jacarepaguá também não ocorreram.

"Após a Olimpíada, com o anúncio do Governo Estadual de falência e a descoberta que foi uma 'bolha financeira' o período pré-eventos, a situação piorou. O entorno da Baía de Guanabara virou um cemitério de obras inacabadas. Tudo está parado, o que acentuou a crise ambiental e sanitária da cidade", disse o ecologista Sérgio Ricardo, do Movimento Baía Viva, para a reportagem.

"O impacto da não despoluição da baía também afeta a economia. O Rio perde R$ 50 bilhões por ano. Se tivesse transporte fluvial, diminuiria 100 mil veículos por dia nas ruas. Os estaleiros não teriam sido fechados", disse Ricardo, dando alguns exemplos.

De acordo com ele, são despejados 18 mil litros de esgoto por segundo na Baía de Guanabara. E 15 estações de tratamento que estão prontas, mas sem tronco coletor, não podem operar e estão abandonadas. "É desperdício de dinheiro público também", disse.

Gastos públicos

Uma das marcas da realização desses eventos em fila foi a falta de transparência completa nas contas, sendo que mais da metade dos gastos foram dos cofres públicos.

A Olimpíada terminou sem apresentar uma versão oficial e final sobre os custos. O Plano de Políticas Públicas, onde seria possível consultar essas informações, deixou de ser atualizado após o evento no Rio de Janeiro.

A "Folha de S.Paulo" chegou a publicar que os gastos estimados ficaram na casa de R$ 42,8 bilhões, baseando-se na Matriz de Responsabilidades, que já não está disponível para acesso.

Os gastos da Copa e do Pan (vale lembrar que ambos usaram recursos públicos para reformar o Maracanã, por exemplo) somados a Olimpíada teriam gerado uma despesa total de quase R$ 70 milhões, metade disso dinheiro público. Números oficiais que não são oficiais por falta de transparência.