Denúncias sobre falsificação de documento particular, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Para apurar tais irregularidades, a Polícia Civil de Minas Gerais instaurou um inquérito e ouviu 15 pessoas relacionadas ao Cruzeiro, que é investigado. As informações abaixo foram divulgadas em reportagem da Rede Globo. A administração do clube presidido por Wagner Pires de Sá é suspeita de graves irregularidades.
O inquérito se sustenta em pagamentos feitos pelo clube durante o ano de 2018. Com contratos e planilhas de controle interno, são apontadas provas de que o Cruzeiro quebrou regras da Fifa, da CBF e do governo federal, por meio do Profut - o programa de renegociação de dívidas fiscais com clubes.
O principal caso é o de Cristiano Richard dos Santos Machado, empresário e sócio de firmas de locação de veículos e equipamentos para proteção individual. Em 1° de março de 2018, ele teria assinado um contrato no qual formalizava o empréstimo de R$ 2 milhões para o Cruzeiro. O valor seria pago em duas parcelas mensais, mas o clube não conseguiu. Alegando não ter condições financeiras para tal, a divida teria sido quitada com a cessão de direitos desportivos.
Assim, o Cruzeiro teria entregado a Cristiano Richard partes dos direitos econômicos de dez jogadores, entre elenco profissional e categorias de base. Esses direitos correspondem à multa rescisória de contratos entre clubes e atletas. Quando um deles fosse vendido, sua respectiva porcentagem seria repassado ao empresário. Entretanto, tal prática foi proibida pela Fifa em 2015, que garante que apenas clubes e atletas tenham direitos sobre o "passe".
O caso se torna mais grave quando se descobre quem é Estevão William - o "Messinho" - um dos garotos que teriam parte de seus direitos (em seu caso, 20%) entregues ao empresário. Garoto de apenas 12 anos, o menino é tratado como grande promessa no clube. Além da pratica ser proibida pela Fifa, jogadores só podem assinar seus primeiros contratos profissionais a partir dos 16 anos; antes disso, apenas contratos de formação. O pai do garoto não sabia disso.
Caso seja confirmada a infração de tais regras da Fifa, o Cruzeiro pode ser proibido de transferir jogadores e ainda de registrar novos atletas.
O clube afirma que nunca firmou contrato para intermediação desportiva com o senhor Cristiano Richard. Entretanto, os contratos que a reportagem obteve foram assinados pelo presidente Wagner Pires de Sá, pelo vice de futebol Itair Machado de Souza e pelo diretor-geral Sérgio Nonato dos Reis, com os últimos dois tendo firma reconhecida em cartório.
Além dessa irregularidade, a investigação analisa diversas outras suspeitas.
Uma delas é a relação do Cruzeiro com a AV & S Consultoria Desportiva Ltda, empresa que teria o nome no balancete contábil analítico do clube, indicando que houve pagamento de até R$ 369 mil durante 2018.
Outra fala sobre o pagamento de R$ 88 mil durante 2018 a Daniel Gomes Sales, ou Quick, diretor da Máfia Azul, torcida organizada do Cruzeiro. Tal transação aparece na contabilidade do clube, com contrato válido até o final de 2020, no valor de R$ 8 mil por mês. Daniel possui condenação por porte ilegal de armas e cumpriu prisão em regime semiaberto. Desde que está livre, se dedica à TV Máfia Azul, acompanhando a delegação em viagens e tendo acesso a bastidores do clube.
A organizada China Azul também possui contrato válido, diz a reportagem - no caso, até dezembro de 2020. O repasse é de R$ 6 mil mensais. O Cruzeiro alegou que não remunera torcidas organizadas ou membros, mas admitiu que faz anúncios em canais pertencentes a essas associações.
É investigada também a questão do salário de dirigentes do clube. Apesar do Cruzeiro ter mais de meio bilhão em dívidas não quitadas, seriam altos os salários de Wagner Pires de Sá, Itair Machado de Souza e Sérgio Nonato dos Reis.
Veja os valores divulgados pela reportagem:
Itair, o vice-presidente de futebol, assinou contrato em 2 de janeiro de 2018 até dezembro de 2020, totalizando três anos. Sua remuneração mensal é de R$ 180 mil, com um 13° de R$ 360 mil em dezembro.
Em fevereiro de 2018, o clube ainda se comprometeu a pagar a Itair R$ 540 mil à vista pela prestação de serviços no último trimestre de 2017.
Além de tais cifras, o dirigente assinou aditivos que não permitem desconto em seu salário e que acrescentam à sua remuneração o recebimento de "bichos" dobrados. A Copa do Brasil de 2018 lhe rendeu R$ 600 mil e o Campeonato Mineiro de 2019, mais R$ 200 mil.
Já Sérgio teria tido um grande aumento de salário após duas semanas de contrato. De R$ 60 mil para R$ 75 mil, além de "luvas" de R$ 300 mil em seu primeiro aditivo contratual. Oito meses após o aumento, o salário do diretor-geral foi para R$ 125 mil mensais.
Por fim, a fiscalização do clube aparenta estar comprometida. O Conselho Fiscal e Deliberativo teria sua capacidade de fiscalização comprometida pelo presidente Wagner Pires de Sá.
O clube, antes mesmo da exibição da reportagem, soltou uma nota oficial:
"Nação Azul,
Me dirijo a vocês para me manifestar em nome do Cruzeiro Esporte Clube, de forma antecipada e imediata, a respeito de uma matéria realizada pelo Grupo Globo, que será exibida na noite deste domingo, 26 de maio de 2019, no programa Fantástico, conforme chamada realizada pela emissora durante a exibição da partida Flamengo x Athletico.
Primeiramente, lamento que a última eleição presidencial ainda não tenha acabado para alguns indivíduos. Adversários derrotados no pleito têm insistido, nos bastidores, em tentar tumultuar o ambiente do Cruzeiro, com o auxílio de um pequeno grupo, plantando notícias junto a alguns profissionais da mídia nacional, que infelizmente têm acreditado em tais conteúdos.
Nossa gestão assumiu o Clube de forma oficial no início do ano de 2018 com a maior e mais absurda e delicada dívida de sua história. No entanto, a nossa diretoria não tem medido esforços e já vem exercendo uma política de contenção de gastos, e tem trabalhado em um grande projeto de planejamento para tentar equacionar as dívidas do Cruzeiro.
Todas as perguntas enviadas pela reportagem do Grupo Globo, nesta semana, foram prontamente respondidas aos jornalistas, dentro do prazo pedido pelos mesmos, atendendo ao deadline da matéria.
Atualmente, o Cruzeiro possui 14 conselheiros que formam uma oposição. Nós apuramos que um deles teve acesso a documentos sigilosos e os divulgou de maneira proibida para o público externo, mesmo em se tratando de registros de cunho interno, de uma entidade privada.
O intuito deste comunicado não é, em momento algum, o de atrapalhar a veiculação da reportagem prometida pela emissora para a noite deste domingo. Mas, sim, o de tranquilizar a Nação Azul, aos verdadeiros cruzeirenses, reforçando nosso compromisso de tratar as coisas do Clube com a maior transparência e responsabilidade possível, dentro e fora das quatro linhas, pois, reforço, assumimos a instituição sabendo da constrangedora situação financeira do Clube.
Reitero minha lamentação em relação ao comportamento ressentido destes alguns indivíduos que se dizem cruzeirenses, mas que, na verdade, pensam apenas em seus benefícios próprios, colocando os aspectos político e pessoal acima de qualquer sentimento em relação ao Clube.
A atual diretoria quer apenas fazer o nosso trabalho em paz e recolocar o Cruzeiro nos trilhos, consertando diversos erros, alguns que ultrapassam os limites da absurdez, cometidos pela gestão passada.
Em nome da transparência e da lisura que o Cruzeiro merece ser tratado e nossa torcida merece ser informada, decidimos nos manifestar de forma imediata.
Atenciosamente,
Wagner Pires de Sá Presidente do Cruzeiro Esporte Clube"
