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Champions League: Fernando Andrade superou dispensas e o desemprego antes de virar herói do Porto

Herói improvável do Porto na classificação às quartas de final da Champions League, Fernando Andrade estava há três meses no Santa Clara-POR, vice-campeão da segunda divisão portuguesa da temporada passada e atualmente nono lugar da elite de Portugal.

Após estrear na Liga dos Campeões na derrota por 2 a 1 nas oitavas para a Roma no duelo de ida na Itália, o brasileiro entrou na etapa final na partida de volta, em Portugal. No segundo tempo da prorrogação, ele sofreu o pênalti - convertido por Alex Telles - que decretou a vitória por 3 a 1 da equipe portuguesa.

"Meu sonho era estrear. Quando fui chamado para entrar no jogo, na minha cabeça só pensava: ‘Tenho que dar o meu melhor e temos que passar’. Felizmente surgiu um lance comigo no fim do segundo tempo da prorrogação. Sendo sincero, poderia ter feito o gol, mas como fui puxado não sei se chegaria na bola. O lance foi muito rápido", disse, ao ESPN.com.br.

O atacante começou no futsal e foi dispensado após realizar testes no futebol de campo em clubes como Santo André, Juventus-SP, São Caetano e Corinthians. A carreira do jogador nos gramados só começou aos 17 anos, quando foi aprovado em sua segunda tentativa no "Azulão".

Após se destacar na Copa São Paulo de futebol júnior de 2012, ele passou seis meses no time profissional do Vissel Kobe-JAP.

"Voltei do Japão achando que seria utilizado pelo São Caetano, mas não fui. Por isso, chegamos a um acordo e rescindi meu contrato. Depois, fiquei sete meses em casa desempregado, foi difícil, mas acho que é o normal. Foi bom ter aprendido no Japão o que era o futebol profissional. Quando fiquei parado, peguei dois amigos meus e treinávamos todos os dias", contou.

"Foi fundamental não ficar parado porque se largasse de vez e ficasse esperando no sofá quando a chance viesse eu ia bater e voltar... Quando surgiu o Guarani, consegui voltar ao cenário do futebol", relatou.

Fernando Andrade ainda defendeu o Rio Branco-SP antes de ir para o Oriental-POR, que jogava a 2ª Divisão de Portugal, em 2015. Com o rebaixamento da equipe para a 3ª Divisão, ele foi na temporada seguinte para o Penafiel.

Em 2017, o atacante de 26 anos transferiu-se para o Santa Clara-POR, no qual conseguiu o acesso para a elite portuguesa. Em janeiro deste ano, ele foi contratado pelo Porto.

"Desde que cheguei em Portugal tinha o sonho de jogar no Porto e quando surgiu a possibilidade não pensei duas vezes. Essa chance do Porto me pegou totalmente de surpresa. Nunca imaginava chegar. Eu sempre trabalhei muito para isso, mas se você perguntar se chegar, é sonho, mas às vezes isso passa em branco. O bom é chegar estar aqui vivenciando isso, treinando todos os dias com grandes nomes e em clube top como é o Porto".

Fernando Andrade deverá começar no banco de reservas do time português, que enfrentará o Liverpool em Anfield, nesta terça-feira, na primeira partida das quartas de final da Liga dos Campeões.

Veja a entrevista de Fernando Andrade na íntegra:

Como você começou no futebol? Onde fez testes até entrar na base?
Comecei desde pequeno, com oito anos no clube Fundação, em São Caetano. Fui dispensado em muitos clubes, não sei se vou lembrar... Fiquei duas semanas no Santo André e fui mandado embora, aos 14 anos. Também tentei em Juventus-SP, São Caetano, Corinthians, no qual fui dispensado no campo. Tenho uns cinco times nos quais fui dispensado (risos). Joguei futsal teoricamente até tarde para quem deseja ir ao campo, até uns 17 anos antes de ser aprovado no São Caetano na minha segunda tentativa. É tudo totalmente diferente, o piso, o tipo de jogo... Não tive base antes.

Suas características como jogador são herdadas do futsal?
Acredito que sim. Eu trouxe algumas coisas do futsal, mas perdi muita coisa também, tenho consciência disso. Tinha colegas de time que estavam no campo desde os oito anos. No começo foi bem difícil, talvez por isso tenha sido reprovado. Eu tentava, não dava certo e voltava ao futsal, uma modalidade que gostava e gosto até hoje.

Como foi na base do São Caetano?
Depois de dois anos na base, quando estava para fazer 20 anos, eu disputei a Copa São Paulo e fiz seis gols em quatro jogos. Nisso, surgiu a chance de ir ao Japão para fazer um teste no Vissel Kobe. Fiquei 30 dias e deu tudo certo, fui contratado. Fiquei meia temporada emprestado.

Fale sobre a passagem no Japão...
Foi uma experiência muito positiva, as pessoas são fantásticas. Eu tive muita ajuda dos tradutores. Foi uma realidade totalmente diferente, saí de uma Copa São Paulo para um grande clube no qual todos os jogos tinham de 25 a 30 mil pessoas. Não consegui ficar lá, o São Caetano não facilitou e pediu minha volta para me integrar ao time de cima.

Como foi a volta ao Brasil? Chegou a ficar desempregado?
Voltei do Japão achando que seria utilizado pelo São Caetano, mas não fui. Por isso, chegamos a um acordo e rescindi meu contrato. Depois, fiquei sete meses em casa desempregado, foi difícil, mas acho que é o normal. Foi bom ter aprendido no Japão o que era o futebol profissional. Quando fiquei parado, peguei dois amigos meus e treinávamos todos os dias. Foi fundamental não ficar parado porque se largasse de vez e ficasse esperando no sofá quando a chance viesse eu ia bater e voltar.. Quando surgiu o Guarani, consegui voltar ao cenário do futebol. Fui jogar a Série A2 do Paulista pelo Guarani e Rio Branco.

O que você aprendeu com essa experiências?
Aprendi muito! Desde os 18 anos, eu moro sozinho. Claro, é normal para um jogador que sonha chegar a um clube top, que te exige ao máximo, desde cedo saí de casa. aprendi a conviver e aproveitar as pequenas oportunidades que tinha. Agarrava com unhas e dentes.

Você precisou ter muita força mental para não desistir com tudo isso?
Com certeza. A minha vida inteira escutei que o difícil não é chegar, mas se manter. Eu cheguei, agora procuro trabalhar todos os dias para ficar.

Como surgiu Portugal na sua vida?
Meu empresário Bruno Seraphim me disse que eu tinha oportunidade de ficar na Série A2 do Paulista ou ir para Segunda Divisão de Portugal em um clube que disputava a parte de baixo da tabela, o Oriental. Estava há três anos na A2, queria mudar e vir mesmo a Europa pra tentar abrir mercado. Felizmente, ocorreu tudo bem. Foi ruim para o Oriental, que caiu de divisão, mas fiz 12 gols. Foi bom para quem tinha acabado de chegar. Na temporada seguinte, fiz 12 gol no Penafiel, no qual não joguei tanto, mas já estava mais solto. Já estava ambientado com Portugal, o país te abraça. Depois, teve a chance depois de ir par o Santa Clara, onde mudou tudo.

Como é morar em Portugal?
É um país fácil de se adaptar por causa da língua e da cultura e da comida. E um pais bem tranquilo, ao contrário do Brasil. Não tem como não gostar.

Quais as situações mais diferentes que viveu nessas equipes?
A questão financeira. É muito diferente. Eu cheguei aqui e ganhava muito pouco, não dava para fazer quase nada. Tinha que paga a casa e ir para o treino. O primeiro ano foi difícil, o segundo foi um pouco melhor e no terceiro ano que comecei a sorrir, para falar a verdade.

Como surgiu o Porto, ficou surpreso?
Surgiu depois de um Santa Clara x Porto lá nos Açores. Queria chegar a um clube top do país. Desde que cheguei em Portugal tinha o sonho de jogar no Porto e quando surgiu a possibilidade não pensei duas vezes. Essa chance do Porto me pegou totalmente de surpresa. Nuca imaginava chegar. Eu sempre trabalhei muito para isso, mas se você perguntar se chegar, é sonho, mas às vezes isso passa em branco. O bom é chegar estar aqui vivenciando isso, treinando todos os dias com grandes nomes e em clube top como é o Porto.

Fale sobre a experiência de jogar no Porto?
Muito boa, tive chance de estrear na Champions. Foi um sonho de criança que foi realizado. Estamos na reta final do campeonato e espero conseguir um título nesta temporada. Temos trabalhado muito forte, muitos sacríficos e foco. Estou muito feliz por tudo que tenho passado

Você foi decisivo no último jogo da Champions contra a Roma. Imaginou um dia ser herói na Liga dos Campeões?
Nunca imaginei. Meu sonho era estrear. Quando fui chamado para entrar no jogo contra a Roma no Dragão, na minha cabeça só pensava: ‘Tenho que dar o meu melhor e temos que passar’. Felizmente surgiu um lance comigo no fim do segundo tempo da prorrogação. Sendo sincero, poderia ter feito o gol, mas como fui puxado não sei se chegaria na bola. O lance foi muito rápido. Fiquei feliz por ter surgido o pênalti e, claro, que o Telles bateu o pênalti. É muito mais responsabilidade dele porque é muito mais difícil bater um pênalti do que sofrer um. Fiquei muito feliz por termos passar por essa fase porque foi muito difícil.

Até onde o Porto pode chegar na Champions?
A gente está entre os oito. Não tem mais onde falar até onde pode chegar. Não tem adversário fácil. Qualquer adversário é 50 a 50. Estamos fortes e esperamos poder passar por mais essa fase e chegar à final.