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Tiago Real arriscou tudo ao trocar Série A pela C, mas conquistou Felipão e foi para o Palmeiras

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Palmeiras teria contratado mais do que o necessário? E a base, como fica? Veja análise (2:04)

Campeão brasileiro gastou mais de R$ 65 milhões para o time de 2019 (2:04)

Nos dias de hoje, é muito difícil imaginar que um jogador que milita na Série A do Campeonato Brasileiro aceite uma proposta para atuar por um clube da Série C, a 3ª divisão nacional. No entanto, às vezes um passo atrás acaba ajudando a dar vários à frente depois.

Foi justamente o que aconteceu com o meia Tiago Real, atualmente na Ponte Preta.

O atleta começou sua carreira no Coritiba, e fez parte de uma verdadeira "geração de ouro" no Couto Pereira.

"Meu pai me colocou numa escolinha e, depois de uns três meses, fizemos um amistoso contra o Coritiba. Fui muito bem nesse jogo e eles me levaram depois. Cheguei aos 11 anos e fiz toda a base no Coxa, subi todas as categorias até o profissional", lembrou, em entrevista à ESPN.

"Eu era da mesma geração do Keirrison, Henrique, Marlos e Pedro Ken. Eles eram um ano mais velhos do que eu, por isso subiram antes. Eu ainda tive uma lesão no ombro durante a transição e fiquei oito meses parado, aí minha subida acabou sendo adiada um pouco", contou.

Tiago Real chegou aos profissionais em 2010, sob o comando do técnico Ney Franco, que adorava trabalhar com as categorias de base. Depois que Ney saiu para a seleção brasileira sub-20 e Marcelo Oliveira assumiu o Coritiba, porém, as chances rarearam.

Foi aí que o meia tomou uma decisão que mudaria sua vida.

"Eu precisava jogar, porque tinha só mais um ano de contrato e tinha que aparecer para o mercado. Senão, meu contrato ia acabar e eu ia sair com uma mão na frente e outra atrás. Nisso, chegou uma proposta do Joinville e eu topei, fui jogar a Série C", relatou.

"Rolou uma indignação nessa época. Muita gente me falava: 'Pô, você está saindo da Série A para jogar Série C. Tá maluco?'. Eu nem liguei. Só estava pensando em jogar e foi a melhor escolha que fiz", exaltou.

Em Santa Catarina, Tiago foi campeão da 3ª divisão nacional em 2011 com grandes atuações, e manteve o nível na Série B do ano seguinte.

Ele estava jogando tão bem que logo depertou a atenção dos grandes clubes do país.

CHEGADA AO PALMEIRAS

Enquanto arrebentava na Série B pelo Joinville, Tiago Real passou a ser disputado nos bastidores por dois times da elite.

"Eu chamei a atenção do Palmeiras e do Atlético-MG. No entanto, o Atlético não fez proposta oficial, só o Palmeiras demonstrou interesse ao Coritiba, e eu de imediato aceitei. Era um salto para a minha carreira, o auge para mim. Foi a mudança de patamar para mim como atleta", contou.

"O César Sampaio e o Felipão me ligaram e disseram que estavam acompanhando meu futebol há bastante tempo. Eles tiraram mais algumas informações com o pessoal do Joinville e todos falaram bem de mim", completou.

De cara, ele viu que a mudança de patamar foi mesmo enorme.

"O começo foi mágico, uma troca de realidade. No Joinville a gente estava super bem, em 3º na Série B e na briga forte pelo acesso, com boas chances de subir. Já no Palmeiras, foi tudo muito turbulento, pois o time estava brigando contra o rebaixamento. Mas em nenhum momento em me arrependi da escolha", garantiu.

"Eu estava em um clube de massa, e sabia que a pressão e a cobrança seriam muito maiores. Na terça-feira, eu saí do Joinville dando entrevista para três jornalistas. Já na quarta, na minha apresentação do Palmeiras tinham mais de 50 (risos). Hoje já acostumei, mas na época foi muito marcante para mim", ressaltou.

No vestiário, Tiago viu que as coisas também era muito diferentes.

"Aprendi muito com o Felipão. E quando vi, eu estava dividindo o vestiário com Valdivia, Marcos Assunção, o Henrique, que tinha sido meu parceiro no Coritiba, além de outros caras de muita história no futebol. O Marcão goleiro também tinha se aposentado, mas ainda vivia o dia a dia com a gente", relembrou.

"Infelizmente não tive nem tempo de fazer uma adaptação. Cheguei com a necessidade imediata de jogar e ajudar o time a reagir, pois havia muitos atletas no departamento médico. Cheguei na quarta e no sábado eu já estava em campo contra o Grêmio. Foi uma loucura, um choque de realidade. Mas também um momento muito gostoso da minha vida", suspirou.

Tiago fez boa jogou bem na reta final de 2012, mas não conseguiu evitar o rebaixamento alviverde para a Série B. Hoje, seis anos depois, ele dá suas impressões sobre a queda do time.

"Eu peguei os últimos três meses do Brasileirão e o time já estava na zona do rebaixamento. Ninguém esperava que a gente fosse cair, porque o Palmeiras havia acabado de ser campeão da Copa do Brasil e pela camisa pesada. No entanto, eu vi um time que ainda estava vivendo o título da Copa do Brasil e deixando de lado o Brasileiro. Quando a água bateu na bunda, não deu mais para reagir. Eu me assustei em um período e vi que seria difícil sair daquela situação", analisou.

"No meio de tudo isso, eu queria muito apresentar um bom rendimento, que pudesse justificar minha contratação. Até joguei bem, mas infelizmente não foi possível salvar a equipe. Cheguei faltando 12 jogos para o fim, e em muitas partidas era até difícil escalar 11, de tanta gente que estava no DM ou suspensa. Toda partida era uma escalação diferente, o que atrapalhou muito também", recordou.

"No meio de tudo isso, o Felipão ainda saiu e quebrou uma gestão de grupo. Chegou o Gilson Kleina, com uma filosofia totalmente diferente, e não deu tempo de ajustar. Hoje, pensando em tudo o que a gente passou, vejo que foi uma junção de fatores que fez o time cair. Mas a principal é que acho que muitos atletas viveram tempo demais aquele título conquistado", completou.

SAÍDA DO PALMEIRAS

Depois que o rebaixamento palestrino foi confirmado, no final de novembro, Tiago Real sofreu uma lesão no ombro e precisou passar por uma pequena cirurgia, voltando a jogar já em janeiro. O ano iniciou bem, mas depois as coisas não caminharam como o esperado para o meio-campista.

"Joguei Paulistão e Libertadores. Fomos até as quartas no Estadual e oitavas na Liberta, caindo para o Tijuana. Aí começou a Série B e eu estava muito bem, estava jogando como titular e era o artilheiro da equipe nos primeiros seis jogos", relatou.

"Só que aí teve a Copa das Confederações e o futebol no Brasil parou. Nessa pausa, o Palmeiras contratou o Felipe Menezes e o Mendieta, e o Valdivia voltou de lesão. No retorno, eu passei de titular para nem relacionado. Isso me chateou muito naquela época", reclamou.

Sem espaço no Palestra Itália, o atleta achou melhor procurar novos ares.

"Tive umas semanas muito ruins, e aí apareceu uma proposta incrível do Náutico. Eles estava passando um período ruim, mas o salário era muito bom. Como eu não estava jogando e fiquei chateado, fui pra lá. Acabei não recebendo nada (risos) e o time foi rebaixado", lamentou.

"Pensando hoje com calma, foi uma escolha muito ruim. Com certeza acabou prejudicando minha sequência depois no Palmeiras. Eu poderia ter esperado e tentado retomar meu espaço. Quando voltei, eu era o 'Tiago que estava emprestado', não mais o 'Tiago que era titular até a pausa da Copa das Confederações'", admitiu.

Em 2014, Real defendeu o Goiás por empréstimo, fazendo 37 jogos pelo clube. Voltou ao Palmeiras no ano seguinte com chance de ser utilizado, mas deu azar.

"O Oswaldo de Oliveira, que era o técnico na época, gostava de mim e queria contar comigo. Joguei até o primeiro amistoso do ano, contra o Shandong Luneng, que era comandado pelo Cuca, no Allianz Parque. Entrei na partida e achei que teria sequência e espaço no Palmeiras. Só que bem nesse ano mudaram as regras de inscrição, e só 28 poderiam ser colocados no Paulista. O Oswaldo me chamou e disse que eu não seria inscrito, e aí complicou de vez", contou.

"Nisso, chegou uma oferta do Bahia e fui para lá. Joguei muito bem, fiz 60 partidas no ano e marquei seis gols. Depois, joguei por empréstimo no Vitória, em 2016. No ano seguinte, acabou meu contrato com o Palmeiras e eu tive minha segunda passagem pelo Coritiba. Já em 2018, acertei com a Ponte Preta até o final de 2019", observou.

Neste ano, o atleta fez 37 partidas pela "Macaca" e por pouco não colocou o time de Campinas na elite do Brasileirão. A equipe acabou em 5º lugar na tabela, empatada em pontos com o Goiás, mas não subiu por conta dos critérios de desempate.