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Goleiro campeão brasileiro pelo Corinthians parou aos 31 e hoje fatura com centro de eventos no Paraná

Há 20 anos, o Corinthians venceu o Cruzeiro por 2 a 0 e faturou pela segunda vez em sua história o título do Campeonato Brasileiro. O esquadrão comandado por Vanderlei Luxemburgo tinha jogadores consagrados como Gamarra, Sylvinho, Vampeta, Rincón, Marcelinho, Ricardinho e Edílson.

No gol, estava um nome bem menos badalado, mas que foi muito importante para aquela conquista: o goleiro Nei. Ele assumu a vaga do ídolo Ronaldo Giovanelli, que ficou dez anos como titular e havia saído do Parque São Jorge em 1998 depois de ter problemas para renovar seu contrato.

"Esse time foi montado com jogadores de muita qualidade. O Ronaldo era um lenda e acabei tendo essa chance de ficar no lugar dele. De uma hora para outra me vi jogando ao lado de caras consagrados. Foi muito importante essa experiência e ter essa reponsabilidade", contou Nei, ao ESPN.com.br.

Em 98, o Brasileiro era disputado em mata-matas em melhor de três partidas. Após ter liderado a primeira fase, o Corinthians passou pelo Grêmio nas quartas de final e pelo Santos na semifinal.

"O melhor jogos que eu fiz foi na vitória por 1 a 0 contra o Grêmio no estádio Olímpico. E o duelo mais difícil foi contra o Santos, conseguimos uma classificação muito apertada. Em alguns momentos do jogo eu achei que não íamos passar. Mas tudo acontecia na hora certa, era mágico. O Marcelinho, o Edílson e o Dinei estavam iluminados", recordou.

Na defesa também Nei contava com a categoria e a segurança de Carlos Gamarra. "Ele era fantástico e diferenciado de todos os que eu joguei. Atuei com excelentes zagueiros, mas ele era excepcional. Além disso, era um ótimo amigo e gente boa. Um defensor completo", elogiou.

Na decisão, Corinthians e Cruzeiro empataram em 2 a 2 no Mineirão e em 1 a 1 no Morumbi. O campeão sairia no terceiro duelo, com os paulistas jogando pelo empate.

"No primeiro jogo eu quase tomei um gol estranho. A bola escapou da minha mão e eu consegui salvar em cima da linha. Seria uma falha muito marcante. A gente estava em muitos campeonatos e não tinha revezamento entre os jogadores como é feito hoje em dia. Eu tinha que atuar em todos os jogos e estávsmos cansados. Mas a euforia de poder ser campeão e a ansiedade supre tudo. Eu nunca tinha vencido um Brasileiro, por isso era muito especial".

Na última partida, com gols de Edílson e Marcelinho, a equipe alvinegra terminou campeã. "Depois do jogo fomos com as famílias para uma casa noturna e extravasamos tudo. Foi legal demais", afirmou Nei.

Briga pode ter custado seleção

Natural de Maringá-PR, Nei se profissionalizou no Coritiba e defendeu o Fluminense, pelo qual venceu o Carioca de 1995 sobre o Flamengo com o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho antes de ir ao Corinthains, em 1996.

Ele permaneceu por dois anos na reserva de Ronaldo até ser promovido pelo técnico Vanderlei Luxemburgo.

"Foi o melhor que trabalhei na minha vida em todos os aspectos, seja dentro de campo como fora. Aquele time tem muita participação dele porque se fosse outro treinador não sei se teríamos sido campeões. Ele é um cara que sabia controlar bem o grupo que era cheio de estrelas e com opiniões fortes. Para mim foi importante porque ele confiou em mim. Minha vida mudou dentro do futebol depois disso e sou muito grato à ele", reconheceu.

Apesar disso, uma briga entre Marcelinho Carioca e o treinador complicou um pouco a vida de Nei.

"Vínhamos bem e depois perdemos uns jogos seguidos. Aquilo foi um baque muito grande. Eu sou muito amigo do Marcelo até hoje. Acho que esse episódio até custou uma convocação minha para a seleção brasileira. O Vanderlei queria que o grupo todo conversasse com o Marcelo dizendo que ele não ia voltar mais. Eu não quis fazer isso, não aceitei. Eu tinha feito tudo certo e achava que cada um deveria resolver seu problema, mas o Vanderlei não gostou muito disso", recordou.

"Todo mundo estava me esperando ser chamado para a seleção, tinham vários repórteres, incluindo o Mauro Naves, na minha casa com a minha esposa grávida para fazer a matéria. Mas ele acabou não me convocando, foi uma época meio turbulenta", lamentou.

Perda da posição

Em 1999, Nei não conseguiu manter o mesmo nível do ano anterior e acredita que o grande culpado por isso foi o pouco tempo de preparação.

"Tivemos muitas dificuldades no ano seguinte, eu mesmo passei por isso. Tivemos muito pouco tempo de férias e as pessoas não levam isso muito em conta. Saímos de férias dia 24 de dezembro e no começo de janeiro já tínhamos nos apresentado para o torneio Rio-São Paulo. Eu disse bem claramente que tinha descansado e não estava preparado ainda para voltar a jogar. Eu precisava de pelo menos de um mês para recuperar a forma, mas não teve jeito".

"Acabei não fazendo boas exibições e tive problemas no começo. Começou ali essa falta de estrutura que eu tive para voltar. Não consegui entrar em forma, tanto física quanto mental. Não estava ainda pronto para voltar. Foi um ano difícil com muita responsabilidade. Ali eu não consegui ter uma boa preparação para o ano e depois veio o Paulista.

Nos duelos contra o Palmeiras, válidos pelas quartas de final da Copa Libertadors, o goleiro acabou perdendo a posição para Mauricio. O Corinthians foi eliminado nos pênaltis. "Eu já não estava bem fisicamente, tecnicamente nem psicologicamente. Ai acabou dando os problemas, mas futebol é isso mesmo. Faz parte ter os altos e baixos", reconheceu.

Dono de centro de eventos

Em 1999, depois de 108 jogos pelo Corinthians, o goleiro transferiu-se para o Santos, no qual ficou um ano e meio, e quase foi atuar no continente europeu.

"Meu sonho era jogar no futebol inglês e tive uma proposta para jogar lá, mas a diretoria não me contou. Só fiquei sabendo depois e eu rescindi meu contrato para tentar ir para lá. Nisso, tinha uma oferta da Espanha e rejeitei porque achei que estava certo na Inglaterra, mas acabou não dando certo nenhuma delas. O time da Inglaterra já tinha contratado outro goleiro", lamentou.

Ele ainda passou por Coritiba e Sport, no qual pendurou as luvas, em 2002. Desde então, ele é empresário e dono do centro de eventos Giovaninni, em Maringá, sua cidade natal.

"A gente promove casamentos, formaturas e aniversários para até 500 convidados. Também tenho outros negócios por aqui. Além de alugar o salão, temos buffet, iluminação e uma equipe que cuida disso", relatou.

"Eu penso em morar no Canadá ou Estados Unidos, onde meus filhos estão. Eles tentaram a carreira profissional no tênis, mas desistiram e hoje estão estudando no Canadá. Ainda tenho vontade de voltar ao futebol e me deu uma animada para fazer o curso as CBF e talvez ser treinador, mas ainda está em projeto".

Mesmo após 20 anos de sua maior conquista, Nei não foi esquecido pelos corintianos. "Em Maringá tem muitos torcedores dos clubes de São Paulo e por isso eles lembram bastante de mim. Pessoal não esquece, um título brasileiro marca muito", finalizou.

FICHA TÉCNICA
Corinthians 2 x 0 Cruzeiro
Local: estádio do Morumbi, em São Paulo

Público: 57.230
Árbitro: Rio Grande do Sul Carlos Eugênio Simon (RS)

GOLS: Edílson (25 do 2º tempo) e Marcelinho Carioca (35 do 2º tempo)

Corinthians: Nei; Índio, Batata (Cris), Gamarra e Sylvinho; Vampeta, Rincón Ricardinho (Amaral) e Marcelinho Carioca; Mirandinha (Dinei) e Edílson.
Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Cruzeiro: Dida; Gustavo (Alex Alves), Marcelo Djian, João Carlos e Gilberto; Valdir (Marcelo Ramos), Djair, Ricardinho e Valdo; Müller e Fábio Júnior.
Técnico: Levir Culpi.