A segunda partida entre Boca Juniors e River Plate pela final da Copa Libertadores seria um dos eventos esportivos mais tensos e importantes já realizados. Os rivais sul-americanos nunca haviam se enfrentado valendo o título continental. Não pude acreditar na minha sorte em ter um ingresso para o jogo conforme estava seguindo ao estádio em um ônibus por uma das maiores avenidas da cidade. Graças à violência que atormenta o futebol argentino, nenhum torcedor do Boca poderia estar presente no Monumental de Nuñez. Passamos apenas por torcedores com camisas branca e vermelha, cantando músicas do River. As ruas estavam tomadas por policiais equipados para combater tumultos. Eu devia ter prestado mais atenção, dado o caos que dominaria a cidade pelos dois dias seguintes. Faltavam duas horas para o jogo e o ônibus do Boca Juniors tentava atravessar a loucura dos torcedores há poucos quarteirões de distância.
No primeiro confronto ocorrido na La Bambonera, famoso estádio do Boca, o resultado foi de 2x2, preparando para um jogo valendo o título que os torcedores do time vitorioso comentariam a respeito durante gerações. Os torcedores do River ainda cantam sobre 2015, quando um torcedor do Boca jogou spray de pimenta no time do River nos túneis do vestiário durante o intervalo. O River se recusou a continuar, o que fez o Boca ser excluído da competição. A letra da música chama os torcedores do Boca de "covardes" e "p--os". Quatro anos antes, o River tinha sido rebaixado à divisão B pela primeira vez em sua história de mais de 100 anos e ainda há desenhos de um fantasma usando a letra "B" em torno do bairro La Boca. Os fantasmas enfurecem os torcedores do River, que podem apenas encarar a provocação e saber que não há nada que possam fazer. O medo de perder o respeito levou à uma ansiedade absolutamente palpável pela cidade e em nosso ônibus.
Dois torcedores do River se sentaram perto de mim na última fila. Conversavam baixo, mas meu tradutor conseguiu ouvi-los.
"Isso pode mudar o meu dia", um deles disse.
Seu amigo olhou para ele.
"Não", respondeu. "Minha vida".
Ele parou.
"Fui ao psicólogo na sexta-feira e só falei sobre isso", ele disse.
Eu cheguei de avião no dia do jogo antes das 7:00h e peguei um táxi até La Boca, o bairro de trabalhadores perto do porto, que já foi o lar dos italianos que moldaram a cultura da cidade e a preencheram com gerações de imigrantes. É um local vibrante, porém duro, o qual foi fortemente afetado pela crise financeira que desvalorizou o valor do peso pela metade, destruindo economias da noite para o dia. A taxa de juros está em torno de 70%. Os últimos 18 meses foram brutais na Argentina, portanto, quando os dois maiores times chegaram à final da competição, o país comemorou esse fato pequeno, porém belo.
Em busca de minha própria coisa pequena, meu tradutor Tomas e eu procuramos uma lanchonete que servisse sanduíches de choripán: apenas uma das várias joias menores que Buenos Aires consegue criar em meio a incerteza estrutural. Encontramos uma parrilla em uma esquina com mesas de plástico na calçada, cobertas por toalhas azul e amarelo, as cores do Boca. Enquanto eu desembrulhava o pão e salsicha com chimichurri de um plástico, Tomas falou sobre o jogo.
"Lembro que eu cresci torcendo para esse jogo acontecer", ele disse.
O dia parecia brilhante e esperançoso enquanto estávamos sentados em uma das mesas.
Foi quando um Ford Falcon verde passou diante de nós.
Não sei explicar o mal-estar que o modelo e a cor causam nos portenhos, mas farei meu melhor. Nas décadas de 70 e 80, a Argentina foi controlada por uma ditadura militar. Sequestrava inimigos -- alguns culpados de terem os livros errados na prateleira --, os torturava e os matava. Em um campo de concentração controlado pela Marinha -- perto de onde a partida de hoje seria realizada -- os seguranças estupravam as pessoas com espetos de gado e levavam os prisoneiros de avião até o mar, onde os jogavam lá vivos. Os cadáveres ornamentavam a costa.
Os carros usados pela polícia para sequestrar essas pessoas, frequentemente no último lugar onde eram vistas com vida, eram os Ford Falcons. Tanto é um símbolo de comoção que a peça principal do memorial e museu nacional é a desconstrução de um Falcon. É a personificação automotiva do momento mais vergonhoso do país e o lembrete de uma nação que entrou em colapso há não tanto tempo.
Quando o carro passou, nos encaramos.
"Era um Ford Falcon verde?", perguntei, chocado.
"Verde oliva?" Tomas disse, esperando absolver o motorista do mau gosto ou algo ainda pior.
É uma boa amostra de como o passado paira sobre a rotina diária das pessoas. Já trabalhei na Argentina muitas vezes e darei a visão simplificada, porém informada, de um turista: existem muitos segredos e histórias conflitantes em uma sociedade com pouca base para construir uma tribo. Você pode ler infinitos livros sobre como a Argentina passou de uma economia promissora -- a 10a mais rica do mundo em 1913 -- para a piada econômica na qual se transformou nos 105 anos subsequentes, se tornando inadimplente oito vezes por causa de dívidas e frequentemente sofrendo com uma inflação anual de dois dígitos.
Boa parte disso ocorre devido às políticas do país, as quais são tóxicas e muito baseadas em cultos de personalidades e mitologias de salvadores. Juan Perón, o pai do movimento Peronista que ainda possui influência na Argentina moderna, favorecia o poder sobre qualquer ideologia severa ou em códigos. Esquerda ou direita não importava; ele manteve boas relações com Fidel Castro e abrigou nazistas após a Segunda Guerra Mundial. Homens poderosos pareciam fazê-lo se sentir melhor consigo mesmo. Ele chegou ao poder após a Segunda Guerra Mundial, seguindo um período de instabilidade política e econômica que deixou as pessoas Sua política econômica foi a fagulha da chama que iniciou o incêndio, ou foi a gasolina que a fez perder o controle, dependendo do acadêmico que você ler. Mais do que qualquer coisa, ele nutriu e fortaleceu o cenário político pós-verdade, no qual não era possível ter nenhum governo, pois não havia fatos a serem debatidos.
Seus adversários também compartilham a culpa por lutar no campo de batalha que ele criou. A frase: "la grieta" vem sendo usada na Argentina, que significa "a rachadura", se referindo à divisão no diálogo nacional que ocorreu quando Perón chegou ao poder. Não havia nada a apoiar ou combater, pois os dois lados insistiam que seus adversários eram mentirosos e ladrões.
Até hoje, os extremistas definem a agenda. Alguns cidadãos de esquerda não acreditam que o país não pode pagar pelos programas sociais que contribuem com as inadimplências. A teologia deles culpa as corporações internacionais e a mão negra da conspiração. Enquanto isso, cidadãos de direita ainda não acreditam que os assassinatos da ditadura aconteceram ou afirmam que as supostas atrocidades foram exageradas ou até mesmo necessárias; os mortos eram terroristas, se é que houveram mortos. O cidadão médio está preso no meio. É uma política baseada em mentiras que não parece haver uma saída. As feridas da Argentina são auto-infligidas -- pelos políticos, mas também pelos votantes que acreditam que seu lado mantém o monopólio da verdade e que as pessoas são responsáveis pela miséria ao invés dos seus próprios valores deturpados sobre os supostos salvadores.
Não é uma coincidência que a Argentina tem a maior taxa de médicos de saúde mental per capita no mundo.
O atual presidente da Argentina, Mauricio Macri, eleito em 2015, vendeu a si mesmo como a solução para todos os anos de luta contra a história e a estagnação. Seu chavão durante a campanha foi a palavra "normal". Ele queria criar um país normal com políticas normais e políticas econômicas normais. Ao invés disso, ele precisou garantir outro resgate do IMF enquanto tentava cortar os programas sociais tão adorados quanto são usados como desvio de dinheiro.
Isso custou a ele. Há poucos quarteirões de onde eu e Tomas estamos, junto dos grafitis dos fantasmas com a letra "B" no peito, havia as letras: MMLPQTP. Significa: "Mauricio Macri é a prostituta que te pariu." Os votantes cantam isso durante eventos esportivos e cantaram no recente show de Roger Waters no país. Na mesma parede há as letras V e P pichadas, que significam: "Perón Retornou".
Quando a final entre Boca e River foi definida, Macri tuitou que queria que a final fosse um evento esportivo "normal" com torcedores visitantes, como acontece nos Estados Unidos ou na Europa. No mesmo dia deste tuíte, os oficiais de segurança do governo responderam os jornalistas com suspiros, sabendo que isso seria impossível. O sonho dele não sobreviveu nem um dia. Macri não apenas foi incapaz de consertar a economia e política do país, ele também não pôde tornar um estádio em um ambiente que permita dois grupos distintos de pessoas comemorarem.
Percorremos nosso caminho até o estádio, parando em uma cafeteria no rico bairro Belgrano para nos encontrarmos com um jornalista político local. Demian Bio está concentrado na cúpula G-20, a qual começaria dali a três dias.
Até pouco tempo atrás, ele era um torcedor e sócio do River.
"Estou desiludido com o futebol argentino", Damian disse, "especialmente pela forma como ele está interligado com a política."
Macri começou sua carreira como presidente popular e bem-sucedido do Boca.
O atual presidente do Boca é um lobista poderoso.
O pai e o filho que controlam o Independiente também controlam o sindicato dos caminhoneiros.
"Cedo ou tarde, todos se envolvem na política", disse Demian. "O presidente do River certamente fará isso. "É impossível separá-los".
Ele não acredita que a cidade esteja preparada para todos esses líderes mundiais. O que parecia a volta da vitória para Macri dois anos atrás é agora a metáfora do seu fracasso. "Ele deveria marcar a volta da Argentina ao cenário mundial após 12 anos de isolamento", diz Demian.
Ele resumiu a verdade de toda a tensão em torno do futebol.
"As pessoas têm mais medo de perder do que ficam ansiosos em ganhar", disse ele.
NOSSO ÔNIBUS ESTACIONOU em um estacionamento em frente ao estádio. Paguei US$2.000 para um ingresso com o nome e RG de outra pessoa. Os passes não puderam ser transferidos, portanto guias nos levaram por três ou quatro fileiras de policiais e seguranças sem que ninguém pedisse nossas identificações. Um dos seguranças me parou e olhou o meu ingresso, que pertencia a um homem chamado Rafael, começou a me fazer perguntas e um dos seguranças pegou o ingresso de volta me entregou e disse, com urgência: "Vamos!"
Não há nada que te faça se sentir em uma cidade antes de um grande jogo. Durante os últimos dias, alguns dos principais nomes da redação futebolística do mundo têm documentado a energia em torno do jogo. Eu pessoalmente adorei a introdução de Rory Smith no New York Times, pois ele entrevistou o radialista que teve a tarefa de fazer "transmissões zen" para limitar os riscos de ataques cardíacos que o Superclássico proporciona. Ele falou com um tom paciente e, ao invés de cantoria, tocou músicas calmas.
Os jornais locais publicaram diversas histórias que demonstraram e potencializaram a importância do jogo: um assassinato ligado ao jogo: uma discussão entre dois amigos que terminou com um deles queimando a casa do outro. Estes exemplos são tão extremos que camuflam a profundidade que a rivalidade é sentida entre as pessoas na Argentina. É difícil compreender a verdade e ainda mais difícil descrevê-la, pois está vinculada a todas as esperanças e inseguranças. Os times são frequentemente descritos como ricos e pobres -- a torcida do River é apelidada de "milionários", enquanto a torcida do Boca é vista como uma classe menor -- mas essa é apenas uma janela para a necessidade tribal de se auto-identificar. Os verdadeiros ricos da Argentina preferem pólo. Os dois grupos de torcedores são compostos pelos mesmos tipos de pessoas, motivo pelo qual ambos se detestam. É auto-aversão disfarçada como torcida.
O poder do Superclássico é mais notável nos menores momentos. Fizemos uma fila, uma rua inteira repleta de pessoas, cercados por policiais.
A primeira onda de torcedores trouxe um certo poder junto deles.
Um policial colocou o capacete.
A rua estava bloqueada por grades de metal, cada uma delas com uma abertura mais apertada do que a rua, organizadas por policiais e seguranças particulares. Em cada lado da rua, os policiais reuniram a multidão, criando o caos e fisicamente empurrando as pessoas no aperto. Não havia comunicação, portanto um ponto se abria atrás de nós antes de se abrir na frente, levando a uma parede de torcedores forçando-se contra as pessoas já apertadas. Um pai perto de mim se agachou ao lado do seu assustado filho de 9 anos e cochichou em seu ouvido: "Tranquillo. Tranquillo".
O spray de pimenta da polícia em consequência a um tumulto por perto impregnou no ar.
Colocamos nossas camisas no rosto para tamparmos o nariz.
Em algumas ocasiões, torcedores sem ingressos tentaram ultrapassar os pontos, sendo perseguidos pela polícia e resultando em um caos ainda maior.
Conseguimos entrar uma hora mais tarde.
A multidão cantou uma música sobre o River. Um pai e o filho estavam atrás de mim. O filho cantou o mais alto que pôde, talvez o mais alto que tenha cantado em sua vida. O pai ficou calado, as lágrimas caindo dos olhos. O garoto compreendeu e colocou o braço sobre os ombros do pai, e cantou pelos dois.
O ar cheirava a café, loção pós-barba e maconha.
O início estava marcado às 17h00, mas os jogadores não subiram para o aquecimento. Após uma música do AC/DC, a música de batida parou. Nenhum cerimonial pré-jogou começou e todos se sentaram e conversaram baixo, com a tensão beirando o insuportável. O sinal dos celulares estava instável. Não sabia o que estava acontecendo.
Em torno das 16h45, uma voz ecoando através das minúsculas caixas de som disse que a partida começaria às 18h00. As pessoas vibraram. A torcida cantou uma música atrás da outra e até o pai atrás de mim se juntou ao coro.
Os preparadores do Boca prepararam os cones para o aquecimento.
Os árbitros subiram ao campo.
Depois, um oficial disse que a partida começaria às 19h30.
As pessoas vaiaram, mas continuaram esperançosas de que o jogo aconteceria naquele dia.
Tinham esperado a vida inteira para o jogo e conquistaram um empate por 2x2 na primeira partida, elevando os níveis de tensão e o significado do evento, e, embora eu não saiba falar espanhol e as pessoas ao meu redor não soubessem inglês, a preocupação estava estampada nos rostos delas. As pessoas deram de ombros e fizeram caras e bocas, sabendo que, em algum lugar distante, políticos decidiam o que seria feito em campo. Até o final, eu acreditei que os times sairiam do túnel, o apito seria dado e um deles seria o campeão. Alguns torcedores também acreditavam.
Arremessaram sinalizadores na pista de atletismo em torno do campo e fumaça tomou conta do gramado.
O som tocava ""You Shook Me All Night Long" e "Eye of the Tiger". Às 18h50, um avião pronto para pousar no aeroporto nacional próximo dali voou sobre o estádio e inclinou suas asas em uma saudação. Um garoto perto de mim, cansado após tanta espera, dormiu nos braços do pai, com a cabeça em seu ombro.
Às 19h20, para receber vaias e evidenciar o choque nos torcedores, a partida foi suspensa até às 17h00 do dia seguinte. Nenhuma explicação foi dada no estádio, mas as notícias estavam se espalhando. O ano terrível ficou ainda pior, mesmo contra as probabilidades. O ônibus do Boca Juniors foi atacado por pedras e spray de pimenta foi acidentalmente disparado para dentro pelos policias que os protegiam.
Aqueles saindo do estádio não sabiam o que tinha acontecido do lado de fora e abaixo do estádio. O carpete de vidros quebrados e cartuchos de tiros passavam uma ideia. Quem assistia à televisão sabia muito mais do que aqueles próximos do estádio. Horas atrás, quando eu estava na fila, o ônibus do Boca atravessou a cidade até o Monumental. A polícia não bloqueou as ruas e levou o ônibus de moto até a Rua Monroe, onde até mesmo os torcedores menos assíduos sabem que fica repleta de torcedores fanáticos do River em dias de jogo. "Quando passamos pela rotatória, parecia quem um exército estava nos esperando", disse o motorista do ônibus em entrevista cedida aos jornalistas locais. "Para mim, foi uma emboscada. Estávamos indo a um jogo de futebol, não a uma guerra".
Os torcedores atiraram pedras e garrafas contra o ônibus, quebrando as janelas e mandando cacos de vidro para dentro, atingindo o capitão Pablo Perez no olho. O spray de pimenta da polícia piorou a situação. O motorista do ônibus desmaiou e o vice-presidente do time assumiu a direção. O time eventualmente chegou em lugar seguro e os jogadores desceram com dificuldades, tossindo e com os rostos vermelhos. Perez foi ao hospital e retornou com um curativo no olho.
Do lado de fora, torcedores com ingressos não conseguiam chegar a um lugar seguro. Outros correram até as grades, muitos jovens as chutando até que se abriram e uma multidão correu até o estádio. Nos arredores, um grupo arremessou pedras na polícia, que revidou com cassetetes e gás. Em meio ao caos, um policial chamado Julio Apriles fez algo corajoso, idiota e certamente importante.
Ele andou sozinho em meio à terra de ninguém entre os torcedores arremessando pedras e a polícia. Ele não usava um capacete e nem estava armado; vestia apenas uma camisa vermelha. Não portava nenhuma arma. O choque em vê-lo fez com que as pedras parassem de ser arremessadas.
Ele conversou com os torcedores e amenizou a raiva.
"As crianças de hoje...", foi o que ele literalmente disse depois.
Sua filha estava assistindo televisão e pouco depois seu celular vibrou.
Era sua esposa.
A mensagem começava com três emojis de rostos chorando e implorava para que ele ficasse seguro.
"Martu está chorando", sua esposa escreveu. "Mande um áudio a ela dizendo que você está bem".
A manchete de Miguel Delaney no "The Independent" chamou os políticos que passaram duas horas nos banheiros de "lamentáveis". Seu relatório documentou as negociações abaixo dos pés daqueles que foram assistir a um dos mais importantes jogos de futebol da história.
Segundo ele, a Fox Sports, a emissora responsável pela transmissão, pressionou o Boca a jogar, junto com as outras autoridades envolvidas: Conmebol, Fifa e o governo argentino. Um médico da Conmebol disse que não havia justificativas médicas para adiar a partida, fazendo com que o Boca divulgasse fotos do seu capitão com o curativo no olho. Carlos Tevez, o coração e a alma do time, foi até a televisão falar que ele e seus irmãos estavam sendo obrigados a jogar. Eventualmente, os dois clubes concordaram que era inviável haver uma partida, momento em que o anúncio foi realizado e fomos embora do estádio.
Parei na rua e peguei um dos cartuchos .12/70 usados para disparar balas de borracha na multidão. Esses projéteis removem a pele em círculos perfeitos. Outros policiais dispararam tiros de paintball e spray de pimenta, enquanto outros dispararam o que pode ser descrito como granada de luz. O vidro quebrava sob meus pés e o tronco de uma árvore estava caído no meio de uma rua. Um homem andou pela multidão procurando alguém -- uma mulher, uma criança ou um cachorro -- gritando: "Princesa? Princesa?".
Tomas e eu nos distanciamos da multidão e encontramos um táxi em Palermo, o bairro onde ele mora. Encontramos um bar e pedimos duas bebidas geladas. O som tocava aquela música chata do Justin Timberlake lançada há um ou dois anos, que me fez pensar em tudo como se fosse um filme do Tarantino: a música animada e os cartuchos vazios no meu bolso, com Tomas e eu procurando fotos na câmera dele dos policiais e os torcedores do River Plate em um duelo do velho-oeste no meio da rua. Bebi minha cerveja rapidamente e pedi outra. A televisão na parede transmitia notícias ao vivo sobre o time do Boca, que não podia sair do estádio. Já era 20h45.
Vimos Tevez conversar com um jornalista, lento as frases na legenda.
Ele culpou o River Plate e as conexões políticas do time pelo desastre.
"O River sempre fez o que quis e como quis", disse ele. "Se tivesse acontecido com o Boca, a Libertadores já seria do River".
Na manhã seguinte, Tomas e eu fomos até o hotel onde o Boca estava hospedado para observar o momento em que os jogadores saem dos seus quartos e vão tranquilamente até o ônibus luxuoso, rumo ao caos. São raras as vezes que um time esportivo recebe tal presente: se perderem, eles têm uma justificativa, mas e se ganharem? Se tornariam guerreiros eternos na cidade, daqueles que os homens pichariam nas paredes anos após encerrarem as carreiras. A polícia vigiou as grades de ferro que cercavam a entrada do hotel Torcedores se reuniram em ambas entradas, duas dúzias no lado esquerdo, e no mínimo dez vezes mais no lado direito (direção sendo gravada pelas câmeras de televisão). Quando um fotógrafo se aproximou deles, o barulho ficou mais alto. Vendedores ambulantes passaram no meio deles e uma mulheres vendia garrafas de Fernet-Branca e Coca-Cola. Os torcedores levaram cartazes pedindo a renúncia do presidente do Boca -- estavam furiosos por ele ter aceitado a realização da partida por algum motivo -- e gritaram o seu nome e "a prostituta que te pariu".
No lado de dentro, Tomas e eu tomávamos café em uma mesa que encontramos. Conseguíamos ouvir as músicas e as batidas feitas nas grades de metal. As televisões no bar mostravam as cenas fora do hotel e no estádio, onde os torcedores esperavam para entrar, e também mostravam a polícia com escudos. Tomas me mostrou um homem que tinha fotografado no dia anterior, que tinha cedido uma entrevista que viralizou durante a noite. "A única coisa que quero dizer é 'Vai, River'", disse o homem. "Mas peço desculpas à torcida do Boca pelo que aconteceu. Eu, assim como qualquer torcedor do River, tem um torcedor do Boca como irmão e eu amo meu irmão. Vamos aprender um pouco sobre civilidade a partir disso. Política e religião não importam. Nada mais importa contanto que sejamos civilizados".
Isso foi antes do meio-dia.
Os preparadores do time nos disseram que o ônibus partiria ao estádio às 14h40, com o início programado para as 17h00.
Tudo parecia normal.
Homens com trajes do time desceram para até uma área reservada para o café da manhã. Seguranças vagavam pelo lobby e prepararam cordas levando do elevador até uma entrada/saída lateral.
Percebi algo errado pela primeira vez quando um dos assessores de imprensa do Boca conversou com jornalistas nas escadas do hotel e disse que o time não queria jogar. Queriam receber o título.
Os torcedores acenderam sinalizadores azuis e os jogaram atrás das grades.
Do outro lado da cidade, os oficiais do River Plate abriram os portões e os torcedores começaram a entrar no estádio. Estavam controlados e ansiosos. Não cantaram nada. A escolta motorizada chegou ao hotel do Boca, com os policiais usando equipamentos e aquecendo os motores. Não demorou para o ônibus estacionar e o motorista sair vestindo um terno preto e um sorriso torto.
Em seguida, os os assessores de imprensa do Boca convocaram uma coletiva urgente e os jornalistas correram até o hotel, com os cabos das câmeras enviando tudo ao satélite para ser transmitido a um país inteiro diante da televisão.
Foi quando eu soube.
Talvez os veteranos do futebol argentino soubessem horas antes, mas eu era um turista e imaginei que apenas um tolo não iria querer jogar essa partida. Usem helicópteros militares. Façam o que for necessário. Apareçam. Foi como se nenhum dos líderes do Boca pudesse superar o vitimismo depressa para analisar o momento com clareza. Estavam tão ocupados lamentando as injustiças que não calcularam a oportunidade de se tornarem imortais no esporte. Foi tudo um desperdício.
Os oficiais anunciaram que a partida havia sido adiada e os advogados entraram em cena, onde afirmaram que batalhariam por isso nas próximas semanas antes de Madrid ser definida como local da final após outros lugares terem sido discutidos, como Paraguai ou Miami.
Os torcedores do River foram embora do estádio.
Exatamente às 14h56, o ônibus do Boca Juniors partiu vazio do hotel. Tomas e eu nos encaramos antes de também irmos embora. A um quarteirão de distância, pudemos ver que havia uma pequena multidão atrás das grades. Apenas algumas centenas de pessoas, no máximo. A beleza da tarde de domingo em Buenos Aires se tornou clara. Ficamos em frente a uma lanchonete de estilo americano. As caixas de som tocavam "Who'll Stop the Rain?", de Creedence Clearwater Revival. Entramos em um táxi. Casais banhavam-se no sol em um parque perto de um rio. Famílias e casais estavam reunidos sob as sombras de guarda-chuvas. Faziam piqueniques e empurravam crianças nos balanços. Idosos estavam sentados em cadeiras sem suas camisas. Vimos algumas camisas do Boca e do River.
O táxi nos deixou em El Cuartito, uma pizzaria que adorei conhecer. É pintada com as cores da camisa da seleção argentina e é popular entre os idosos, motoristas de táxi e crianças -- a trifecta! Nos sentamos em uma mesa aberta e olhei na direção da janela. A primeira mesa estava ocupada por três jovens com camisa do Boca e uma mesa estava ocupada por uma família com camisas do River. Todos comeram pizza e riram, e ninguém arremessou nada e nem encarou seu adversário, e não consegui dizer quem controla a Argentina: a maioria que quer apenas viver em um país normal ou a multidão que arremessa pedras em ônibus e fazem uma nação inteira se curvar diante de suas vontades.
