Há exatos dez anos, o Corinthians foi responsável por uma verdadeira bomba no mundo do esporte. Em 9 de dezembro de 2008, anunciou a contratação de Ronaldo, 32, o Fenômeno, que estava sem jogar há dez meses e recuperava-se de uma cirurgia no joelho esquerdo.
O feito foi classificado pela imprensa nacional como o "maior negócio de marketing da história do clube".
Para se ter ideia, até aquele momento, o Corinthians recebia cifras modestas de seus patrocinadores, mesmo considerando-se o contexto do mercado esportivo em 2008. Eram R$ 21,5 milhões por ano, dos quais a Nike pagava R$ 5 milhões anuais fixos pela camisa e a Medial Saúde, patrocinador master, mais R$ 16,5 milhões anuais. Não havia outros anunciantes.
Após fechar com Ronaldo, o Corinthians renovou o vínculo com a Nike e aumentou a receita para R$ 20 milhões anuais. Substituiu a Medial Saúde pela Batavo por R$ 18 milhões por ano. E começou a explorar outros espaços na camisa. As mangas foram arrematadas por R$ 6,5 milhões; os ombros e barra inferior da camisa por R$ 4,5 milhões e outros espaços ficavam por R$ 1,5 milhão.
Tudo isso possibilitou que o clube oferecesse para Ronaldo um salário líquido de R$ 400 mil mensais --valor que não era habitual para o mercado e dentro da equipe estava muito acima do teto--, além de mais R$ 9 milhões, cota que era possível graças aos patrocínios.
Ou seja, o clube teve que, de um dia para outro, mudar de patamar financeiro e buscar novas receitas.
"A negociação para a vinda do Ronaldo foi muito complexa porque era a fusão de duas grandes marcas em um único produto licenciado. O produto era o Ronaldo vestindo a camisa do Corinthians. Conceitualmente era um licenciamento. Era necessário um salário mínimo garantido em carteira. Tínhamos percentuais para serem captados no mercado", disse Fabiano Farah, empresário de Ronaldo naquela época.
Estruturalmente, o Corinthians também cresceu. Ronaldo foi uma espécie de consultor do clube no processo de reforma e ampliação do centro de treinamento Joaquim Grava. Quando ele começou a treinar pela equipe, o local reunia alguns campos e os vestiários eram precários. Os jogadores usavam containers para se trocar e deixar os pertences.
O Corinthians também passou a ser procurado por jornalistas estrangeiros. Alguns passaram a cobrir eventuais jogos do clube, a acompanhar os passos de Ronaldo na equipe e também na cidade de São Paulo.
Em campo, a parceria foi positiva. Ronaldo sagrou-se campeão do Campeonato Paulista de 2009, conquistado de forma invicta, e da Copa do Brasil no mesmo ano. Também sofreu com lesões (especialmente em 2010). Encerrou a carreira em 2011, com 69 jogos e 35 gols.
"Ele aceitou o Corinthians pelo desafio, pela grandeza da fusão das duas marcas, uma coisa atípica no futebol brasileiro e no mundo. O Ronaldo sempre foi movido pelos desafios, que é seu grande combustível. E a estruturação do contrato foi uma coisa totalmente atípica que não teve antes e não teve depois", disse Farah.
De fato, só no dia do anúncio o Corinthians faturou R$ 25 mil em venda de camisas com o nome de Ronaldo estampando.
NÃO AO MANCHESTER CITY
Quando o Corinthians contratou Ronaldo, o Fenômeno estava sem equipe. Em junho de 2008, ele ficou sem contrato com o Milan, seu último clube, onde rompeu o tendão do joelho esquerdo em fevereiro. Foi operado e voltou a treinar em setembro.
O clube que abrigou o atacante foi o Flamengo, onde fazia as atividades sob supervisão de José Luiz Runco.
Até fechar com o Corinthians, Ronaldo sofreu sondagens de várias equipes, mas teve um clube que fez proposta para Farah, disposto a fechar com o craque brasileiro e proporcionar o retorno dele para a Europa. Foi o Manchester City, da Inglaterra.
"Nunca houve negociações com o Flamengo. Tínhamos várias propostas do exterior, mas do Brasil foi só do Corinthians. Na época, estávamos negociando com o Manchester City", disse Farah.
Mas Ronaldo não aceitou ir para o City. Depois, quando topou defender o Corinthians, acabou causando ira nos flamenguistas.
Alguns torcedores sentiram-se iludidos, achando que Ronaldo defenderia o clube rubro-negro. Diante da notícia que isso não ocorreria, queimaram fotos e camisas do atacante. Passaram a atacar a imagem dele e o vaiaram nos encontros com o Corinthians.
CINCO SEMANAS DE NEGOCIAÇÃO
Foi o tempo que durou o acordo costurado pelo trio Andrés Sanchez (presidente do Corinthians), Luis Paulo Rosenberg (vice-presidente de marketing do clube), Fabiano Farah (empresário do atacante) e Ronaldo.
Tudo foi acertado na manhã de 9 de dezembro, durante o café no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro.
Nas primeiras conversas houve um impasse. O Corinthians oferecia R$ 350 mil de salários mensais. Ronaldo queria um aumento de R$ 50 mil para fechar. Os cartolas corintianos explicavam que o clube não tinha esse dinheiro e iriam ao mercado...
"Comecei a negociar com o Andrés e ele deixou com Rosenberg. Sintonia total. Falamos a mesma língua", disse Farah.
"Expliquei para o Rosenberg que precisávamos de uma garantia mínima. Eu tinha uma gestão de risco muito grande por conta da expectativa gerada. Pedi para o Rosenberg me apresentar o balanço fiscal do ano anterior para entender quais as rendas variáveis do clube, e dali começamos a negociar os percentuais. Deu tudo certo. Criou-se uma plataforma de comunicação única e que seria de imensa valia para várias marcas. Foi roteirizado uma história com forte apelo emocional - a volta do Ronaldo para o Brasil - e transformado em um modelo de negócio de excelência comercial na sua execução ", completou Farah.
O acordo tratado naquela manhã, durante o café no hotel, foi registrado em um guardanapo para que nada fosse esquecido ou deixado para trás. Um simples pedaço de guardanapo ganhou importância grande na trajetória de Ronaldo no Corinthians naquele 9 de dezembro.
IMPACTO MIDIÁTICO
A vinda de Ronaldo não deixou dúvida quanto a divulgação que o Corinthians alcançou mundo afora. O departamento de comissão do clube sentiu na pele que a relação mudou definitivamente.
"Eu ia sair de férias, comprei passagem para Angra dos Reis. Na época, tinha perdido a carta de motorista e por isso ia de ônibus. Até eu decidir viajar, não tinha rolado nada. Daí, na hora em que cheguei em Angra, veio a mensagem do acerto. Foi uma surpresa grande", relembrou Guilherme Prado, hoje assessor do Santos, mas na época profissional do Corinthians.
"Não tinha esse negócio de redes sociais, subimos uma carta no site. Neto foi o primeiro a falar do acerto. Às 10h, demos a notícia de que o Ronaldo seria Corinthians. Ainda sem contrato assinado. Depois que anunciou, foi uma loucura. Um amigo me ligou chorando: 'Jura que o Ronaldinho vai jogar no Corinthians?'. Foi muito louco. É muito maluco", completou.
Durante a apresentação de Ronaldo, o Corinthians reservou o estádio do Parque São Jorge, vendeu ingressos e recebeu quase dez mil pessoas. Havia jornalistas de várias partes diferentes do mundo por lá. Especialmente da América do Sul e da Ásia.
"A procura da mídia pelo Corinthians aumentou muito, mas o Ronaldo tinha um entendimento de imprensa muito acima. Ele me dava total liberdade de fazer as coisas. Não era lance de só jornalistas, era Gugu, Hebe, Altas Horas, Faustão. Era outra história: juntou o potencial de mídia gigantesco do Corinthians e o marketing gigantesco do Ronaldo", disse Prado.
