Aos 29 anos, Régis está sem clube e enfrenta possivelmente a batalha mais importante da sua vida. Disse para a ESPN Brasil, em sua primeira entrevista desde que teve o contrato com o São Paulo rescindido, que, embora não se considere um dependente químico, é um usuário.
"Não me considero um dependente. Me considero um usuário em abuso", disse Régis.
O lateral direito está morando atualmente em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal, com os pais e os irmãos. São eles, e o filho Cauã, que têm dado ao jogador o suporte necessário e os incentivos para que ele se recupere logo.
Contratado pelo São Paulo após o Campeonato Paulista, Régis teve momentos de dificuldade. No primeiro deles, foi afastado dos jogos e recebeu toda a assistência necessária. Conseguiu voltar a jogar após dois meses fora. No segundo, a situação não caminhou da mesma forma e o contrato acabou rescindido.
Régis recebeu a reportagem em sua residência e revelou seus problemas e prometeu voltar ao futebol.
CONFIRA A ENTREVISTA COM RÉGIS
Eduardo Affonso: Régis, como você está? Como está sua vida?
Régis: Tem sido um período de reavaliação, de recomeço. Tenho usado esses dias para refletir sobre minha carreira. Centralizar o pensamento de novo.
Eduardo Affonso: Está com saudade do futebol? Tem acompanhado futebol, o São Paulo?
Régis: Sinto muita falta. O São Paulo é um clube fantástico, que me recebeu muito bem. Consegui fazer bons jogos. Hoje eu vejo as partidas pela televisão e sinto muita saudade. Fica a esperança de voltar em algum momento.
Eduardo Affonso: Por que não deu certo?
Régis: Houve situações que comprometeram minha continuidade. O São Paulo me deu todas as condições para eu poder me recuperar, me estabilizar emocionalmente. Infelizmente por alguns deslizes da minha parte a minha continuidade [no clube] ficou insustentável.
Eduardo Affonso: Você ficou quatro jogos afastados. A gente nunca soube bem o motivo. O que houve e como foi para você ficar fora desses jogos?
Régis: Ocorreram os problemas. Eu sempre fui uma pessoa verdadeira e transparente. E nessa época houve alguns deslizes da minha parte e eu fui sincero. Procurei o São Paulo e falei o que eu precisava. Prontamente o São Paulo se dispôs a me ajudar, a colaborar comigo. Eu não fui aos jogos porque faltei em alguns compromissos do clube. A partir desse momento [de afastamento] eu comecei um tratamento. Tive toda uma estrutura para me recuperar.
Eduardo Affonso: Você conversou diretamente com o Aguirre ou foi falar com Raí, Ricardo Rocha e Lugano?
Régis: Já existe um departamento de psicologia no São Paulo. Quando a gente passa por qualquer problema emocional a gente é encaminhando para esse departamento. Depois de toda a conversa que eu tive com a psicóloga, ela passou para a diretoria e o Aguirre foi a última pessoa que eu tive contato porque o envolvimento dele era maior com o campo. Quando ele soube da situação, ele se mostrou muito solidário. O São Paulo cuidou super bem. Me preservou para que essa situação não viesse à tona. E o Aguirre foi fantástico. Disse que contava comigo e que esperava que eu me recuperasse para voltar a jogar. Foi dessa maneira que tudo aconteceu.
Eduardo Affonso: Como foi o tratamento?
Régis: Houve a parada para a Copa do Mundo e nesse meio tempo eles montaram um plano de recuperação. Colocaram médicos, psicólogos, psiquiatras, acompanhamento. Eu fiquei afastado nesse período, mas depois voltei aos treinamentos. O clube abriu as portas para eu me recuperar fisicamente. Foram dois meses trabalhando com profissionais do maior gabarito. Foi importante porque eu consegui voltar e fui bem. Infelizmente logo depois disso houve mais alguns episódios e ficou insustentável a minha volta ao clube.
Eduardo Affonso: O que se passou pela sua cabeça naquele momento?
Régis: Foi um momento de muita tensão e muita cobrança interna. Já havia ocorridos os episódios de não ir treinar. Mexeu muito com a minha parte emocional. Eu tinha um compromisso comigo mesmo de estar bem. Tanto que me submeti ao tratamento. Eu procurei dar o meu melhor para que não viesse acontecer um novo deslize. Mas a gente sabe que é um problema constante no dia a dia, que você tem de estar focado. Houve um momento que eu me distrai, me descuidei e aí houve um novo problema.
Eduardo Affonso: Você se considera um dependente químico?
Régis: Não me considero um dependente. Me considero um usuário em abusa. O que realmente causou todo o problema foi o uso. E isso gera um comportamento que não deixa você em condições de trabalhar, ter uma vida social. Mas não considero uma dependência, mas um usuário em abuso.
Eduardo Affonso: E agora que você perdeu a estrutura do São Paulo, qual é a estrutura que você tem a disposição para brigar contra isso?
Régis: Estou com meus pais, com a família, ouvindo os conselhos. É muito difícil. É uma situação que tem de estar concentrado. Estou dentro do meu porto seguro, que é a minha família.
Eduardo Affonso: Como você viu a sua saída após o São Paulo te dar uma segunda chance?
Régis: Foi um momento muito difícil. Eu vi ali a grande oportunidade da minha vida escorrer pelas minhas mãos. Eu sempre sonhei em jogar pelo São Paulo. O São Paulo sempre foi meu objetivo profissional por toda a estrutura, toda a grandeza do clube. Foi um momento difícil. Um momento triste. O que alenta o coração é saber que, como eles mesmos colocaram, há oportunidade de um dia voltar. Quem sabe se ocorrer, eu possa voltar em condição melhor.
Eduardo Affonso: O São Paulo foi justo com você?
Régis: O São Paulo foi justo. Entramos em um comum acordo. Do jeito que ficou era insustentável. E já não tinha mais aquele clima de ambas as partes. Nesse momento temos de ser maduros, inteligentes, experientes e foi o que aconteceu. Sentamos, fizemos um acordo e a vida seguiu.
Eduardo Affonso: Você sofreu preconceito? Foi julgado pelo que aconteceu?
Régis: Olha, não sei se seria bem preconceito. Como a situação tomou uma proporção muito grande dentro do clube, existiam os olhares. Não se se eram por preconceito ou por 'não quero tocar no assunto, vou deixar ele reservado, na dele'. É muito difícil falar em preconceito, mas lógico que eu notei alguns olhares diferentes. Talvez algumas pessoas ali não entendiam o problema. Como muitos na vida não entendem. E achavam que era falta de responsabilidade.
Eduardo Affonso: E como foi o relacionamento com os jogadores?
Régis: O grupo foi sensacional. A gente sabe o ambiente do clube. Você que cobra o clube sabe como é. E foi um momento muito importante para mim naquele período de recuperação. Do Jucilei, do Diego Souza, que são os mais experientes. Do Edimar, que é um cara sensacional e é um dos caras que faz essa junção. E hoje, na medida do possível, a gente se fala, mas não com a mesma frequência. E foi importantíssimo a minha relação com os jogadores. Foi uma relação de muito respeito.
Eduardo Affonso: Eu me lembro de ter visto uma declaração sua em que você dizia que algumas pessoas não foram legais com você. Que pessoas não foram legais?
Régis: Na verdade, em um primeiro momento, a própria situação assustou o clube. Talvez em algum momento algumas pessoas não estavam preparadas para administrar a minha situação. E tiveram pessoas que, não vou falar quem são porque é antiético, é falta de respeito, mas que não foram legais. Queriam me tirar antes mesmo de ganhar essa proporção e aí sim eu acho que entra o preconceito. Você não é mais bem visto por causa de um problema. Foi nesse momento que eu me senti triste.
Eduardo Affonso: Você se culpa?
Régis: Eu não me culpo, não. Acho que aconteceu. Acho que as responsabilidades têm de ser assumidas. Eu não me culpo, não. Mas fico decepcionado comigo mesmo porque acho que poderia ter tido outro caminho.
Eduardo Affonso: O que está pensando para o seu futuro?
Régis: Eu fiz alguns treinos para manter a forma e já houve alguns convites. Vamos ver se nas próximas semanas já arremato alguma coisa porque eu quero voltar o quanto antes. Me recuperar, recuperar minha condição física e fazer o que eu mais amo.
Eduardo Affonso: Você tem algum recado para o torcedor do São Paulo?
Régis: Primeiramente, quero agradecer a toda torcida do São Paulo. Me emocionei muito com o carinho, com o respeito que tiveram comigo em todos os momentos. Vai ficar gravado os momentos que eu consegui fazer o torcedor e o clube felizes. O que eu quero dizer para vocês é que o Régis segue na luta procurando melhorar como atleta, como pessoa. Fica meu abraço para todos vocês e quem sabe um dia eu possa voltar e encher vocês de alegria novamente.
