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Champions: Pochettino, o técnico do Tottenham que jamais treinará o Barcelona, seu rival nesta quarta

"Meus laços emocionais fazem com que seja impossível que eu treine o Barcelona um dia. Há valores que não se compram".

Foi com essa frase firme e forte, dita na última terça-feira, que o técnico do Tottenham, Mauricio Pochettino, decretou a impossibilidade de um dia treinar o Barça, seu rival nesta quarta-feira, às 16h (de Brasília), pela 2ª rodada da fase de grupos da Champions League.

O ex-zagueiro argentino de 46 anos criou fortes laços pelas equipes que passou na carreira, como o Newell's Old Boys, que o revelou para o futebol, em 1988, e pelo qual jogou até 1994, ganhando dois Argentinos antes de ir atuar no futebol europeu.

Mas foi no Espanyol, o "primo pobre" do Barcelona, que Pochettino virou "Deus".

Pochettino teve duas passagem pela equipe catalã, ganhando duas Copas do Rei e fazendo 318 jogos com a camisa da equipe. Atuando pelo clube, ele também foi convocado pela primeira vez para a seleção argentina.

A identificação é tanta que ele já ressaltou diversas vezes que jamais comandará o Barça, maior rival dos Pericos. Certa vez, chegou até a dizer que preferia trabalhar em sua fazenda do que treinar os blaugranas.

Após se aposentar, em 2006, ele assumiu o comando do próprio Espanyol como técnico em 2009. Ficou três temporadas no seu time de coração antes de ir para o Southampton, dando início a uma promissora carreira na Premier League.

Ele está no Tottenham desde 2014 e, apesar de ainda não ter vencido títulos com os Spurs, é apontado como diretamente responsável por ter transformado o time nos últimos anos de "amarelão" em uma das equipes mais fortes da Inglaterra.

Não à toa, ninguém menos que o Real Madrid esteve de olho nele recentemente.

E quem o conhece desde o início sabe que ele estava destinado ao sucesso.

ADORA BRASILEIROS

Revelado pelo Grêmio e atualmente no Juventude, o lateral direito Felipe Mattioni foi treinado por Pochettino durante duas temporadas no Espanyol, clube que defendeu após passar por Milan e Mallorca.

Mattioni tinha outras propostas, e o argentino acabou sendo decisivo para convencê-lo a aceitar o chamado dos catalães.

"Quando saí do Mallorca, o Espanyol queria me comprar, mas estava uma indecisão para ver para onde eu iria. Viajei a Barcelona e fiquei uns dias por lá até que se resolvesse minha saída do Mallorca, que foi conturbada, porque o clube entrou em falência", contou o ala, à ESPN.

"O Pochettino ia todo dia ao meu hotel tomar café da manhã comigo e tentar me convencer a ir para o Espanyol. Ele dizia que ia montar um estilo de jogo que ia me ajudar muito, falava que eu poderia atacar com muita liberdade. Fiquei umas duas semanas em Barcelona, e ele foi direto tomar café comigo e contar os projetos que ele tinha para o time", revela.

"Ele era muito ambicioso, e isso me convenceu. Tanto é que falei para o meu representante: 'Não quero ouvir proposta de nenhum outro clube, porque o carinho que esse cara me tratou como profissional e ser humano eu nunca vi igual'", ressalta.

Segundo Mattioni, Pochettino é fã de jogadores "brazucas".

"Ele adora brasileiros. É um cara de cabeça muito aberta, e admira muito o nosso talento", ressalta.

'BIELSISTA'

O veterano treinador Marcelo Bielsa, atualmente no Leeds United, da 2ª divisão inglesa, é conhecido por ser um fracasso no quesito títulos. No entanto, seu estilo de jogo e seus métodos de trabalho influenciaram toda uma geração de treinadores, especialmente argentinos. Pochettino não foge à regra.

"Ele sempre falava bastante do Bielsa para a gente. Até tinha algumas semelhanças nos métodos, como a maneira de jogar a intensidade nos jogos e nos treinos. Eles eram muito parecidos nisso", relata Mattioni.

O brasileiro elogia demais o trabalho feito pelo hoje comandante dos Spurs no Espanyol.

"Ele gostava do time com posse de bola e não curtia chutão para frente. Era velocidade e técnica. Nossa equipe era muito intensa e marcava por pressão o tempo todo. Ele exigia muito da gente nessa parte", salienta.

"Ele já era um craque como treinador naquela época e foi um dos melhores que já trabalhei. Já percebi o quanto ele era bom a partir dos treinos e dos modelos de jogo. Os trabalhos dele eram muito interessantes, e você notava visivelmente a evolução dos jogadores", elogia.

"A gente não tinha grandes nomes, o elenco era cheio de atletas que tinham vindo de divisões inferiores, mas que jogavam muito bem por conta dos treinos e do modelo de jogo que o Pochettino implantou", observa.

Diferentemente de Bielsa, que é conhecido por ter acumulado problemas de relacionamentos com jogadores durante a carreira, Pochettino gosta muito da conversa olho no olho com seus comandados.

"Ele batia muito papo com todo mundo. Até comigo, que fiquei um tempo sem jogar e treinar porque estava machucado, ele vinha perguntar toda hora. Falava muito comigo, passava confiança e falava que queria contar comigo o mais rápido possível. Era um cara muito próximo a todos os jogadores, tanto dentro quanto fora do campo", revela.

LAPIDOU COUTINHO

Outra bom momento do trabalho de Pochettino no Espanyol foi na temporada 2011/12, quando ele "lapidou" o futebol do meia Philippe Coutinho e ajudou o brasileiro a se transformar no jogador que é hoje, com nível de seleção brasileira.

Quando chegou à Catalunha vindo por empréstimo da Inter de Milão, o hoje craque do Barcelona era um atleta que sofria para conseguir minutos no futebol europeu, após surgir como um meteoro na base do Vasco da Gama.

Com Pochettino, porém, Coutinho desabrochou. Fez cinco gols em 17 partidas no semestre que passou emprestado, e jogou tão bem que a Internazionale pediu sua volta imediatamente após este período.

"Ele ajudou muito o Coutinho, porque dava total liberdade para ele em campo. Ele via que o menino era talento puro e um grande jogador", recorda Mattioni.

"A passagem do Coutinho pelo Espanyol foi curta, mas excelente, muito graças ao Pochettino. O menino já mostrava que seria um fenômeno, pois fez grandes partidas com a gente. Foi ótimo para o clube, e todos queria que ele ficasse mais, mas logo a Inter pediu a volta dele. Lembro que Coutinho e Pochettino se davam muito bem, tinham ótima relação", conta.

Segundo o lateral direito, os treinamentos do argentino foram essenciais.

"O dia-a-dia dele sem dúvida era o diferencial. Era um treino muito intenso, em que ele trabalhava muito a parte de domínio de bola e transições rápidas. Ele sempre ajeitava o corpo dos jogadores para estar bem posicionado para dar os passes e também receber. O estilo de sair tocando sem dar chutão era espetacular, e o Coutinho era essencial nisso", exalta.