Uma das promessas da Parmalat, quando assumiu a co-gestão do departamento de Futebol do Palmeiras, em 1991, era o intercâmbio entre atletas dos clubes patrocinados pela empresa, como Real Madrid, o próprio Palmeiras e o Parma, do qual a multinacional era dona. Até 1995, isso ainda não havia acontecido.
Aqui no Brasil, falou-se nas vindas de Apolloni, Benarrivo e até da estrela Dino Baggio. Mas o telefone que tocou, em uma noite de 1995, foi o de Marco Osio, um meia de 29 anos que participou, ainda que como coadjuvante, de um dos times mais espetaculares dos 104 anos de história alviverde: o Palmeiras dos 102 gols de 1996.
"O Gianni Grisendi, presidente da Parmalat na América Latina, me ligou dizendo que tinha uma vaga para estrangeiro no Palmeiras e me perguntou se eu estava interessado. E eu topei", contou à ESPN, o jogador, numa bela mistura de português com italiano, de dar inveja aos personagens da novela Terra Nostra.
E foi assim que começou a história brasileira do primeiro italiano nato a vestir a camisa do Palmeiras desde os anos 1920. Na era profissional, Osio, aliás, é o único italiano a jogar por aqui em alto nível - Giorgio Pasetto, um volante de 23 anos, atualmente sem clube, jogou nas categorias de base de Vasco e Rio Claro.
A era Osio não começou muito bem. Enquanto o italiano desembarcava, no Aeroporto de Cumbica, o técnico Carlos Alberto Silva, no Rio, antes de um jogo contra o Flamengo, dizia desconhecer o jogador e o criticava.
"Estão achando que ele é um goleador, camisa 9. Mas, pelo que sei, ele é meia. Não tem problema. Ele fica aqui por quatro meses e depois volta", desdenhou o finado técnico, para fúria de José Carlos Brunoro, homem forte do futebol verde à época.
Para Osio, porém, o Palmeiras não era nada estranho, graças a um brinquedo de criança, o Subbuteo. Espécie de futebol de botão à italiana, em que você dá petelecos para mover os jogadores, o jogo foi responsável por apresentar o Palmeiras ao pequeno Marco, ainda na sua infância.
"Um dos times que eu tinha era o Palmeiras e, assim, fiquei conhecendo o clube e o seu passado como Palestra Itália", conta, com alegria o hoje treinador de 52 anos.
"Eu já era um tanto apaixonado pelo Palmeiras quando cheguei aqui, foi uma grandíssima emoção", conta Osio, revelado pelo Torino, com passagens também pelo Empoli, além do Parma, onde tonou-se ídolo da torcida.
Em 95, com Carlos Alberto Silva, Osio realmente não jogou, mas fez amigos e se ambientou. O que nem foi de todo ruim, porque ele ainda tinha de ser recuperar fisicamente, depois de uma lesão no Torino, onde atuou por empréstimo antes de chegar ao Palmeiras. Mas, em 1996, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, de volta ao clube, as coisas melhoraram.
"A acolhida sempre foi boa. Os dirigentes do Palmeiras e a torcida como um todo me receberam muito bem", relembra-se. "Tinha muita gente legal naquele time, o (Antônio Carlos) Zago e o Cafu, por exemplo. O Cafu era meu grande amigo. Todo dia ele vinha com uma novidade. 'Ó, vamos fazer um churrasco'. 'Marco, hoje nós vamos na piscina lá em casa'. E eu ia", conta, aos risos.
No campo, porém, Osio não conseguia conquistar muito espaço. "O Vanderlei tinha o time dele, que era uma seleção brasileira: o Marcos era reserva! Tinha o Júnior, Amaral, Flavio Conceição, Djalminha, Rivaldo...", conta, citando, de memória, alguns dos companheiros que teve no período.
Com Vanderlei, Osio entrou em campo em dez partidas pelo Paulistão. E marcou um único gol que, quis o destino, foi justamente contra outro time de imigrantes italianos por aqui, o Juventus da Moóca. "O que foi engraçado, porque o time se chamava Juventus, mas a camisa era "granata", da cor da do Torino", diverte-se, falando sobre os rivais de Turim.
Osio fez o quarto, na goleada por 4 a 1, sobre o adversário da Zona Leste, após boa jogada de Elivélton pela esquerda. O jogo disputado à tarde, no velho Parque Antárctica, teve público pouco superior a 14 mil pessoas. Jogou também no jogo das faixas, contra o XV de Jaú, na última rodada do Paulista. E brilhou na festa do título, na extinta casa noturna Limelight.
Do futebol brasileiro, o que Osio mais estranhou foi a quantidade de jogos e treinamentos. "Tem jogo dia sim, dia não, aí! Não tem data-fifa, nada", diz o ex-meia. "O preparador físico do Palmeiras na época, o Inarra, era muito bom! Pra gente ficar em forma jogando todo dia, tinha que ser bom (nota: ele refere-se ao preparador Luis Inarra)", disse.
CURTINDO A METRÓPOLE
Osio veio para o Brasil com a esposa, em setembro. Foram se morar em um apart-hotel, um flat, próximo ao estádio do Pacaembu. Três meses depois, ela ficou grávida do único filho do casal, concebido em solo brasileiro.
Além da memória sentimental, Osio se lembra com saudade da cidade de São Paulo, pela qual se apaixonou.
"A cidade é maravilhosa. Saía muito com minha esposa para cinema, teatros, restaurantes. Lembro-me que, às quartas-feiras, o pessoal comia feijoada. Adorava comer no (restaurante italiano) Gero. E a pizza de vocês é muito boa, tem ingredientes de primeira! Ainda existe aquela pizzaria Margherita, perto da Avenida Paulista?", perguntou, curioso.
A estada de Osio por aqui acabou no começo do segundo semestre de 1996, justamente pela gravidez da esposa, que preferiu ter o filho na Itália.
"Eu preferia que ele tivesse nascido no Brasil, para ter dupla nacionalidade, mas minha esposa preferiu retornar para a Europa. Foi uma bela experiência. A cidade é encantadora, quero muito voltar a visitá-la um dia", afirma Osio.
A ligação do ex-jogador com o Brasil continuou, porém. Seus pais têm uma casa em Salvador, na Bahia, para onde ele já foi algumas vezes.
"Mas meu coração está em São Paulo. Salvador é dieferente, muita gente, música, cultura. São Paulo é outra coisa, é ,muito especial", diz ele, com saudade.
Osio lamenta não poder mais acompanhar o Palmeiras com frequência.
"Há uns anos, alguns canais exibiam o Campeonato Brasileiro, mas não passa mais. Mas eu me interesso pelo clube, vejo os resultados. Sei que agora tem um estádio novo, moderno, bem diferente do Parque Antárctica. Ainda irei visitá-lo, um dia", promete o italiano.
TÉCNICO E 'SINDACO' (PREFEITO)
Osio é um treinador bissexto. Trabalhou em clubes pequenos da Europa, das divisões menores, como Pergolese e Rimini. Atualmente, negocia para trabalhar em um clube da Moldavia.
Sobre o futebol italiano, que vive um período de decadência, em especial na seleção, Osio é taxativo: o problema é o fato de os times não terem italianos nas suas equipes.
"Os jovens não jogam mais. Na Internazionale, Milan, Juventus, Udinese, Fiorentina... Pode olhar, não tem jovem italiano jogando nesses times, só estrangeiros. Como é que os jogadores vão se desenvolver?", indaga.
"o (técnico Roberto) Mancini está tendo de convocar um monte de jogadores jovens, que claramente não estão prontos ainda. Mas ele tem que tentar, vai fazer o quê?", diz.
Residindo em Ancona, na região central da Itália, Osio atualmente se declara torcedor do Parma e do Torino.
"Eu, quando criança, torcia para a Juventus. Mas, depois que joguei no Toro, não consegui mais torcer para a Juve. Já o Parma é o clube por onde joguei mais tempo e virei querido pela torcida, mora no meu coração", disse ele, apelidado de "Sindaco" (prefeito) pelos tiffosi.
"Isso é porque eu joguei muito tempo por lá, e fiquei marcado, porque me destaquei na época em que subimos pela primeira vez para a Série A, em 1990. E eu meio que organizava tudo, conversava com a torcida. Aí, ganhei esse apelido", diverte-se.
