Na última quinta-feira, o Palmeiras suou sangue para se classificar às quartas da Libertadores contra o Cerro Porteño-PAR, depois de jogar praticamente a partida inteira com 10 homens em campo, devido à expulsão do volante Felipe Melo, aos 5 do primeiro tempo.
Talvez a vaga na próxima fase não tivesse sido possível sem a grande atuação de um jogador em específico: Antônio Carlos Cunha Capocasali Jr, mais conhecido como Antônio Carlos, ou simplesmente Tonhão, como é carinhosamente chamado pelos amigos.
O zagueiro teve uma atuação impressionante no duelo realizado no Allianz Parque, ganhando uma enormidade de jogadas pelo alto e tendo uma atuação praticamente perfeita durante os 90 minutos, mais 11 de acréscimo dados pelo árbitro Germán Delfino.
Segundo números do TruMedia, aplicativo de estatísticas exclusivo da ESPN, Antônio Carlos venceu 6 disputas aéreas durante o jogo contra o Cerro, sendo o líder no quesito entre todos os palmeirenses - Edu Dracena, seu companheiro de zaga, ganhou 5.
Fora isso, Tonhão ainda deu 13 rebatidas, realizou uma interceptação e bloqueou dois chutes. E tudo isso sendo extremamente leal: ele não cometeu uma falta sequer durante a partida e deixou o campo sem levar cartão amarelo.
A verdade é que esse carioca de 25 anos, que se tornou titular do Verdão nesta temporada por visão do ex-técnico Roger Machado, faz uma grande temporada. Ele se recuperou de falhas na final do Campeonato Paulista e na fase de grupos da Libertadores e atualmente é o "porto seguro" da defesa palestrina, se destacando tanto no jogo aéreo quanto nas jogadas terrestres.
Ao todo, Antônio Carlos já realizou 40 partidas neste ano, marcando três gols, e deu a "volta por cima" na carreira, após ter um 2017 apagado, com apenas oito oportunidades de entrar em campo, em um ano bastante atabalhoado no Palestra Itália.
Superação, aliás, poderia ser o sobrenome deste jogador, que passou por muita coisa na carreira: foi dispensado do Fluminense por não ter crescido e depois reprovado em um teste no Flamengo - mesmo clube que o contrataria anos mais tarde, e no qual ele teria poucas chances; foi herói na base do Corinthians e fez os olhos de Tite brilharem; conquistou acessos; chorou e sorriu.
Nesta entrevista à ESPN, ele conta como tudo isso aconteceu...
CONFIRA A ENTREVISTA COM ANTÔNIO CARLOS
ESPN: Como foi sua infância e como você começou no futebol?
Antônio Carlos: Eu sou do Rio de Janeiro e comecei no Fluminense, aos 9 anos. Era um dificuldade enorme, porque não tínhamos muito dinheiro, e Xerém [onde se localiza o CT da base do Flu] ficava a duas horas da minha casa. Eu pegava três conduções para chegar até lá. Muitas vezes eu pegava dinheiro emprestado com os outros meninos para ir e voltar. Nessa época, joguei com Wellington Silva, que hoje está no Internacional, com o Marcos Jr, que ainda está no Fluminense, e com o goleiro Andrey, do Sampaio Corrêa.
ESPN: E como foi esse seu início no Fluminense?
AC: Na verdade, eu fui dispensado do Fluminense aos 14 anos por não ter crescido... Foi um momento muito difícil pra mim. Depois, eu cheguei a fazer testes no Flamengo, mas não passei. Nisso, fui para o Sendas, que era do Pão de Açúcar e virou o Audax Rio depois. Joguei a Copa Rio da 2ª divisão com 16 anos e fui bem. Aí, começaram e me olhar com outros olhos.
ESPN: Foi no Audax, então, que você deslanchou de vez?
AC: Sim. Do Audax Rio, fui para o Audax São Paulo e joguei a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Chegamos nas quartas de final e fomos eliminados pelo Flamengo. Depois, eu voltei e teve um jogo contra o Corinthians, um amistoso. Os diretores eram o Marcelinho Paulista, com quem eu tinha trabalhado no Audax, e nós ganhamos de 4 a 0.
ESPN: O Corinthians se impressionou com você, não foi?
AC: Bastante! O treinador José Augusto, que trabalhava nos juniores, pediu para me contratarem. Fui emprestado por um ano para o Corinthians e joguei a Copa BH. Fui bem pra caramba, um dos melhores do torneio. Não fomos tão longe, mas eu fui bem. Depois, na Copa São Paulo, eu arrebentei. Atuei ao lado do Marquinhos, que hoje é do Paris Saint-Germain e da seleção, e fomos campeões. Fiz os dois gols na final, justamente contra o Fluminense [vitória corintiana por 2 a 1]. Nisso, o Tite me chamou para subir para o time principal. O Corinthians chamou meu empresário e comprou meus direitos. Depois dessa Copinha, também fui chamado para a seleção de base, junto com o Marquinhos novamente.
ESPN: Mas você não teve muitas chances no Corinthians...
AC: Pois é... No primeiro ano no profissional, joguei três partidas: uma no Olímpico, uma em Campinas e outra no Pacaembu. Fui bem elogiado, mas ficava nessa de jogar no sub-20 e subir ao profissional... No outro ano, eu fui para o Oeste de Itápolis por empréstimo e fui bem pra caramba. Aí, o Tite me pediu de volta depois do Campeonato Paulista. Eu estava treinando e intercalando entre sub-20 e profissional quando tive uma pequena ruptura no menisco e operei. Quando voltei, senti que tinha perdido espaço. Eu pensei bastante e acabei pedindo para sair para poder jogar mais.
ESPN: Daí você foi para o Avaí. Como foi por lá?
AC: Foram dois anos maravilhosos lá. Agradeço demais até hoje. É um clube no qual tenho certeza que deixei as portas abertas e amo de paixão. Subimos da Série B para serie A do Brasileiro e no ano seguinte caímos, infelizmente, mas fui muito bem.
ESPN: Então, em 2015, você foi para o Flamengo, o mesmo time que não tinha te reprovado em testes na infância. O que deu errado lá?
AC: Não tive muitas chances com o professor Muricy (Ramalho). Sinceramente, eu não sei o porquê... Lá eu dei uma parada, uma estagnada, e fiquei meio chateado. Aquilo serviu de aprendizado para mim. Quando senti que não ia jogar, eu saí. Aí o professor Eduardo Baptista, que tinha tentado me levar ao Fluminense um ano antes, me levou para a Ponte Preta. Lá eu tive muitas chances e fui bem.
ESPN: E como você soube que o Palmeiras estava de olho em você?
AC: No final de 2016, quando acabou o Brasileirão, eu tinha tudo quase certo para renovar com a Ponte. Aí o Alexandre (Mattos) ligou para o meu empresário falando que me queria no Palmeiras, porque o Eduardo Baptista, que tinha sido contratado como novo técnico, gostava muito de mim e estava fazendo força apara me levar. Eu não pensei duas vezes! A um clube gigante como o Palmeiras não tem como dizer "não".
ESPN: Mas em 2017 você também não teve muitas chances de mostrar seu futebol. Fez apenas oito jogos...
AC: Eu cheguei a um time que tinha sido campeão brasileiro em 2016, e sabia que seria muito difícil ter oportunidades. Mas, ao mesmo tempo, sabia que seria um desafio muito bom pra minha carreira. Antes de chegar ao Palmeiras, eu já ouvia falar muito bem do grupo, que era uma família. Quando cheguei, fui muito bem acolhidos e parecia que estava por lá há anos. O Palmeiras é gigante, e gosto de todo mundo lá. Desde a primeira vez, eu fiquei deslumbrado com tudo que vi. Aí eu sabia que tinha deixar uma "cartão de boas-vindas" se quisesse seguir lá. Por isso, em nenhum momento deixei de ter fé, trabalhar e estar focado. As coisas não deram muito certo pra todo nós na temporada, mas, quando pude, dei minha contribuição. Isso foi importante para continuar no clube em 2018. Todos viram meu empenho e trabalho.
ESPN: Tudo mudou em 2018, né?
AC: E como mudou! Eu coloquei que, assim que chegasse o Roger Machado, tinha que ser o meu ano. Tinha que dar a vida ainda mais para para poder jogar. Não seria bom ficar dois anos jogando poucos jogos, não seria interessante para mim. Assim que renovei, coloquei na cabeça que precisava jogar, que ia trabalhar forte e estar focado e concentrado em cada momento da pré-temporada. Assim que surgisse uma chance, eu iria agarrar e não iria sair mais. Claro, com a ajuda da minha esposa das minhas duas filhas, que são meus pilares, tenho conseguido.
ESPN: Como você superou as falhas que teve na final do Paulista e no jogo contra o Boca, pela Libertadores, para dar essa volta por cima e se firmar como titular absoluto e um dos melhores jogadores do Palmeiras na temporada?
AC: Eu procuro nem pensar nisso. Nós somos serem humanos e erramos. Infelizmente, aconteceram erros de comunicação ali na hora, mas eu não penso mais nisso. Minha família me ajudou muito a passar por isso. Eu sabia que aquilo não iria acabar com a minha carreira, não iria manchar tudo aquilo que tinha feito. Dentro do meu coração, eu sempre penso que, quando entrar em campo, vou dar a vida por esse grupo e com certeza vamos dar muita alegria para essa torcida gigante do Palmeiras.
ESPN: Quem são seus melhores amigos no Palmeiras?
AC: Nosso ambiente é muito bom entre os jogadores. Me dou bem com todos! Nosso time é uma família. Eu conheço o Hyoran desde a base do Corinthians, ele jogou comigo em 2011. E o Jaílson desde 2012, quando jogamos no Oeste de Itápolis. Por isso, somos mais próximos.
ESPN: Conte um pouco dos bastidores dessa amizade do grupo do Palmeiras.
AC: Tem vários reis da resenha, mas o Deyverson e Jaílson são fenômenos (risos)! Se não fossem jogadores, poderiam ser comediantes, de tão engraçados que eles são. Se estamos pra baixo, o Jaílson chama todo mundo pra levantar o astral. Sou muito fã dele, por toda a moral que me deu desde que cheguei ao Palmeiras. É um irmão que a vida me deu, um cara sensacional. Jailsão imita direto o Xaropinho pra gente, é bom demais. Ele imita até o Borja falando (risos).
ESPN: Com o alto nível que você vem apresentando, deve ter chegado alguma proposta recentemente. Recebeu algo?
AC: Recebi propostas, sim, mas só penso no Palmeiras desde 2017. Quero fazer uma história muito linda aqui e estou muito feliz. Não penso em sair. A gente tem que plantar coisas boas para colher coisas boas. Penso em ficar aqui, concentrado, e, se Deus quiser, levantar taças.
ESPN: E em seleção brasileira, você pensa? De repente, para atuar ao lado do Marquinhos novamente...
AC: Sim, estou trabalhando para isso! Fui convocado algumas vezes para as seleções de base. É um grande sonho que tenho e vou correr atrás com todas as forças. Vou continuar batalhando firme no Palmeiras e, com a ajuda dos companheiros, eu quero ir para a seleção ou ajudar algum companheiro nosso a ir para a seleção. Sobre o Marquinhos, é um excelente jogador, que cresceu demais desde que jogamos juntos. Sempre torço muito por ele e espero seguir o mesmo caminho dele na vida.
ESPN: Quem eram seus ídolos de infância no futebol?
AC: Eu era muito fã do Mauro Galvão, do Antônio Carlos Zago, do Tonhão... Dizem que sou igual ao Tonhão (risos)! Eu gostava muito do Lúcio, também. Mas, sem dúvida, o Mauro Galvão sempre foi meu preferido. Era um fenômeno! Vejo sempre os vídeos dele e do Gamarra, pois eles são fora do comum. Tento me inspirar muito neles.
ESPN: Neste Brasileirão, você teve um gol legal anulado contra a Chapecoense, e o Palmeiras acabou perdendo dois pontos ali. Qual sua opinião sobre o árbitro de vídeo?
AC: Acho o VAR extremamente válido. Ver ao vivo é uma coisa, com a televisão e o replay é totalmente diferente. Acho bacana e legal, e espero que implementem logo no Brasileiro, porque vai ajudar os árbitros e terem menos erros nas partidas e mais certeza nas marcações.
ESPN: Você acompanha futebol no seu tempo livre? Assiste a jogos ou mesas-redondas na TV?
AC: A minha televisão fica o o dia todo ligada em desenho animado, por causa das minhas filhas pequenas (risos). Eu estou sempre viajando, e, quando chego em casa, preciso desligar um pouco de futebol. Se eu não brincar com as meninas, estou ferrado (risos).
