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Como uniforme do Palmeiras na era Mustafá/Parmalat fez empresa esperar 17 anos para registrar marca no Brasil

Após 17 anos, a Hummel conseguiu, enfim, registrar a própria marca no Brasil. E se você está achando que já conhece esse nome, é porque, provavelmente, o conhece mesmo.

Mas, se não for da camisa da seleção da Dinamarca na última Copa, ou de algum clube europeu, deve ser por causa do Palmeiras e outros clubes dos anos 1990 e começo dos anos 2000. E sim, havia uma letra "R" antes do "H" e um "L" a mais. E isso tem total relação com os 17 anos de espera.

Em 2000, quando a Rhumell já atuava no Brasil havia sete anos, a Hummel teve negado pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual) o direito de registrar sua marca no no País porque a sua quase "xará" brasileira havia requerido para si o nome da empresa dinamarquesa.

"É um absurdo, ainda que não seja um crime, porque esse ato demonstra uma tentativa de captação do consumidor por um meio desleal. Até mesmo o logo adotado pela Rhumell era igual o logo da Hummel na época", disse à ESPN Marcela Machado, advogada da Hummel.

Para efeito de exemplo, seria o mesmo que alguém criar uma marca de material esportivo e colocar nela o nome de 'Mike', ou 'Abidas' - e ainda registrar como seus os nomes das marcas legítimas.

A Rhumell ficou no Palmeiras entre 1993 e 2002. Entre 1996 e 1998, o clube vestiu Reebok. Mas quem licenciava a marca no Brasil e produzia as peças era também a Rhumell.

Vestindo a marca, o Palmeiras conquistou alguns dos maiores títulos de sua história, como o Paulista de 1993, a Copa Libertadores de 1999 e disputou jogos importantes com o que lhe deu o vice no Mundial de Clubes do mesmo ano, no Japão.

A controvérsia envolvendo a Hummel, fundada em 1923 - 70 anos antes da fundação da empresa brasileira - é apenas mais um dos capítulos envolvendo o surgimento da marca e sua relação com o Palmeiras.

SURPRESA

No início do Paulista de 1993, o Palmeiras era patrocinado pela Adidas. E assim foi, até a terceira rodada do segundo turno, em 3 de abril de 1993.

Foi nesse dia que o time entrou no gramado do Morumbi, contra o Santos, com uma camisa ainda listrada, mas com um tom de verde mais escuro e a logomarca da Rhumell no peito pela primeira vez.

"O contrato com a Rhumell não passou pelo Departamento Jurídico do clube. A negociação foi toda feita pelo Mustafá Contursi, que era o presidente na época", diz, sob condição de não ter sua identidade revelada, um funcionário do clube naquele ano.

"Quem trouxe a Rhumell ao Palmeiras foi o presidente e os Pagnota (Dirce e Luiz), que trabalhavam diretamente com Mustafá no clube", acrescenta, citando dois outros funcionários da administração palmeirense na época.

Fundada por Joelson de Souza Prado, um empresário do ramo de confecções com trânsito livre junto à diretoria do clube, a Rhumell falava diretamente com o presidente e foi criada para atender o Palmeiras.

"Ninguém nunca soube, com certeza, o que o Palmeiras recebia da Rhumell, além dos uniformes", conta o funcionário. "Mas quem teve acesso aos balanços, que na época não eram públicos, disse nunca ter visto recursos vindos da empresa para o clube", afirma.

Em outras palavras, o Palmeiras não recebia nada para vestir a marca.

Quem sucedeu a Rhumell foi a Diadora, em contrato também negociado por Mustafá, como um dos seus últimos atos como mandatário.

A empresa italiana ficou no clube entre 2003 e 2005. No período, pagou R$ 1,28 milhão por cada ano de contrato, mais R$ 1,3 milhão em luvas na assinatura.

Apenas para efeito de comparação, o contrato do Palmeiras com a Puma, sua fornecedora de material esportivo a partir do próximo ano, prevê um mínimo anual de R$ 25 milhões ao time do Palestra Itália, em montante que engloba um valor fixo e também royalties - além, é claro, dos uniformes.

Além da marca principal, a Rhumell também era proprietária da Pró-Onze e da Amddma, que patrocinaram, respectivamente, Santos e Botafogo. Como Rhumell, atuou também internacionalmente, patrocinando a seleção chilena, em 1997.

Na época em que a Rhumell patrocinou o Palmeiras, eram constantes os comentários entre conselheiros dando conta, inclusive, de que Mustafá seria sócio da empresa e amigo íntimo de Joelson Prado.

"FANTASIA"

"Isso é uma fantasia", rebateu Mustafá Contursi, que negou à ESPN ter qualquer relação além da profissional com o empresário Joelson Prado.

"Houve uma concorrência com outras empresas, da qual participaram as autoridades do clube e da nossa patrocinadora (Parmalat). A proposta da Rhumell foi a melhor, inclusive no que diz respeito à criação do enxoval, variedade de peças", afirma Contursi, sem revelar quanto o clube recebia da empresa.

O dirigente explicou também como Joelson Prado e a Rhumell chegaram ao Palmeiras. E disse não conhecer qualquer ligação da empresa com os Pagnota.

"O Joelson era dono da confecção que fabricava os materiais da Adidas. Na época, a Adidas enfrentou problemas de liquidez e o o Joelson se ofereceu para continuar produzindo as peças, inicialmente, com a marca da Adidas. Até que abrimos uma concorrência e ele se qualificou para participar e a venceu", afirma.

Sobre as acusações de que o contrato do Palmeiras com a Rhumell não estava disponível para ser consultado, e de que não passou pelo departamento jurídico do clube, o dirigente, mais uma vez, foi enfático.

"Sempre esteve à disposição para quem quisesse vê-lo. Imagine...", disse Mustafá, que afirmou não ter contato com Joelson já há muitos anos. .

CPI

Em 2000, a Rhumell, teve seu sigilo bancário quebrado pela CPI do Futebol, conforme requerimento do ministro Waldeck Ornélas (Previdência) à comissão do Senado, presidida pelo hoje candidato à presidência da república Álvaro Dias, do Podemos.

Na época, Ornélas dizia que a empresa vinha fugindo dos fiscais do ministério. “Ela vai se mudando de endereço dentro da Grande São Paulo", disse o ex-ministro.

A suspeita da Previdência era de que a empresa não estivesse recolhendo os 5% de contribuição previstos na lei para os patrocinadores esportivos.

Oficialmente, a Rhumell não quis se pronunciar sobre o assunto na época. O relatório final da CPI não implicou a empresa em práticas criminosas.

BRAGANTINO, 2018

No início deste ano, a Rhumell apareceu na camisa do Bragantino, durante a disputa do Campeonato Paulista.

A ESPN conseguiu contato com Eduardo Schmidt, CEO da Mellgin Partners, responsável pelo contrato com o clube de Bragança Paulista.

"Eu obtive do Joelson uma sublicença para a parte de confecção da marca e patrocinei o clube. Mas o Bragantino foi notificado pela Hummel e nós rompemos o contrato imediatamente", explicou o empresário, que não quis revelar valores.

Schmidt informou à reportagem que estava em vias de realizar o distrato de sua empresa com a Rhumell. E que teve prejuízo na transação.

"Eu investi nas peças, estava retomando a marca, e esse dinheiro se perdeu. É uma pena, já que o mercado vive um momento de retomada", disse ele.

A ESPN tentou contato com o empresário Joelson Prado, fundador da Rhumell, mas não conseguiu localizá-lo.