Um menino. Aterrorizado, observava tudo. Escondido entre duas paredes com um pequeno buraco. Três minutos antes ele se enfiara naquele cubículo com um único objetivo: sobrevivência. Seis anos de idade. O exército acabava de invadir sua casa. Seu avô morto à sua frente. Saíram. O resto de sua família, que sobreviveu ao ataque, fugiu com o menino. A casa, incendiada. Luka Modric, criança, não esperava que 27 anos depois fosse representar seu país de uma maneira tão bonita.
A guerra de independência dos países que pertenciam à Iugoslávia foi sangrenta e, para muitos jogadores da atual seleção croata, vivida sob o teto que moravam. Mario Mandzukic fugiu com a família para a Alemanha antes da Guerra da Bósnia começar, em 1992. Dejan Lovren e Vedran Corluka também tiveram caminhos parecidos. O zagueiro do Liverpool foi para a Alemanha como refugiado antes de retornar à Croácia em 1998. Corluka saiu da Bósnia para viver em Zagreb, onde a situação era melhor que no país vizinho.
O futebol da Croácia só existiu depois de sua independência, mas as raízes históricas começaram a surgir muito antes, desde a Primeira Guerra Mundial.
Hajduk Split, o time nacionalista
Dominado pelo Império Austro-Húngaro, o atual território da Croácia começou a ver o seu primeiro time formado por estudantes de Praga. O clássico entre Sparta e Slavia motivou a criação de um time: o Hajduk Split. ‘Hajduk’ em homenagem aos grupos que agiam fora da lei no século XVII e que lutavam contra o domínio político da região. Split, por conta da cidade de nascimento da equipe.
O futebol de toque de bola e qualidade técnica, como é visto até hoje na Croácia, teve origens nos técnicos e assistentes escoceses que treinaram a equipe. Mas só após a Primeira Guerra Mundial que o clube começou a ter sucesso. Depois da dissolução do domínio austro-húngaro, foi formado o Reino da Iugoslávia, e o campeonato disputado com times dos países pertencentes à região. O Hajduk Split conquistou dois títulos e cinco vices até 1940, quando o engajamento político tornou-se uma de suas principais marcas.
Em 1941, os italianos tomaram a cidade de Split e tentaram rebatizar e colocar a equipe em solo italiano. Contrariados e motivados pelo sentimento de nacionalismo, o time, aliado com os Partisans (exército de resistência contra o Eixo), retomaram a cidade, mas viram o Estado Independente da Croácia (NDH), que tinha ligações com o nazismo de Adolf Hitler, assumir o controle da região.
A união da população contra o novo governo motivou a saída da equipe do campeonato nacional e os transformou em símbolo dos Partisans. O Hajduk era festejado por todos, pelas suas ambições políticas e engajamento, até mesmo pelo marechal Josip Broz Tito, que comandaria a região após o fim da Segunda Guerra Mundial.
A equipe, inclusive, foi convidada a se mudar para Belgrado, o que foi prontamente rejeitado. O time foi um dos poucos a manter a mesma nomenclatura pós-guerra. A nova Iugoslávia gerou mais equipes, como o Dinamo Zagreb, clube mais forte atualmente na Croácia. O Hajduk conquistou mais três títulos nacionais. Além disso, os croatas decidiram criar a Torcida, primeira torcida organizada da Europa, com vínculos políticos e de apoio ao time.
Os tempos de sucesso da equipe ainda continuavam, mas já se aproximavam do fim. Uma semifinal da Recopa Europeia e as quartas de final da Copa dos Campeões foram os resultados mais expressivos em âmbito continental. Em 4 de maio de 1980, o marechal Tito faleceu, e as manifestações de independência dos países começaram a ganhar força. O Hajduk Split, desde o princípio, mostrou-se a favor da separação, e as torcidas demonstravam as tensões da população nas arquibancadas.
Em 1990, o jogo entre Hajduk Split e Partizan marcou a volta da utilização do quadriculado vermelho e branco no símbolo da equipe, em uma forma de protesto contra a Iugoslávia e pró-independência croata. Os torcedores da equipe invadiram o campo e tentaram agredir jogadores e torcedores do Partizan, enquanto portavam bandeiras croatas.
Junho de 1991 marcou a independência da Croácia, mas, pouco antes, o Hajduk Split conquistou sua última glória ainda dentro da Iugoslávia: a Copa do país ao vencer o Estrela Vermelha.
Novos tempos com a independência
A equipe conquistou três títulos em quatro anos depois da dissolução, mas começou a enfrentar problemas financeiros e viu o governo apoiar de forma mais aberta o Dinamo Zagreb. Apesar das participações na Liga Europa nas últimas temporadas, a equipe nunca mais teve o sucesso que um dia já alcançou.
Os torcedores continuam engajados em aspectos políticos e o massivo apoio à equipe.
Copa do Mundo e o sonho
Na final da Copa do Mundo pela primeira vez na sua história, a Croácia tentará relembrar os tempos de luta e o sentimento de nacionalismo para conquistar sua glória máxima. Dos jogadores convocados, seis já jogaram ou foram formados no Hajduk Split: Danijel Subasic, Lovre Kalinic, Ivan Strinic, Filip Bradaric, Ivan Perisic e Ante Rebic. Nikola Kalinic, que foi cortado depois do primeiro jogo por se recusar a entrar em campo, mas seguiu inscrito no Mundial, também já atuou no clube.
Da guerra, da origem austro-húngara, do nacionalismo e do engajamento político, o futebol na Croácia começou há muito tempo. O ápice pode ser atingido agora. As lembranças do passado e das lutas moldarão a equipe em campo.
