Se Harry Kane fizer o gol do título da Copa do Mundo para a Inglaterra, ele será condecorado cavaleiro antes mesmo do avião pousar em Londres. Se Kylian Mbappé marcar o tento da vitória em Moscou, é capaz que a França volte a ser uma monarquia e ele seja apontado como rei. Caso Eden Hazard erga o troféu em 15 de julho, ele não terá nunca mais que pagar uma cerveja na Bélgica.
Se a glória no Mundial acontecer com Luka Modric, porém, não será bem assim...
O astro do Real Madrid, que nesta quarta-feira enfrenta a Inglaterra, às 15h (de Brasília), pela semifinal da Copa do Mundo 2018, no Estádio Luzhniki, em Moscou, é, para dizer o mínimo, pouco popular na Croácia. Para ser mais realista: ele é de fato odiado por uma parcela enorme da população, mesmo tendo conduzido sua equipe nacional ao grupo dos quatro melhores times do planeta.
Mas por que?
É uma questão complicada, que remonta aos tempos em que Modric tinha relação muito próxima com um dos homens mais poderosos (e controversos) do futebol croata.
Quando o meia começava a surgir na base do Dinamo Zagreb, ele, como muitas outras futuras estrelas, assinou um contrato com Zdravko Mamic, dirigente que trabalhou em diversas oportunidades como executivo do próprio Dinamo e foi inclusive vice-presidente da HNS (Federação Croata de Futebol).
No acordo que fazia com os atletas (inclusive Modric), Mamic se encarregava de providenciar a grana inicial para os atletas não se preocuparem com fatores exteriores e se concentrassem só em estourar no futebol. Em troca, o cartola ficava com uma porcentagem de seus novos salários quando os contratos com os clubes fossem renovados, ou melhor ainda: uma parte das transferências para times do exterior.
Enquanto isso, todos os jogadores passaram a ser empresariados por Mario Mamic, filho de Zdravko, que era agente licenciado pela Fifa e tornou-se “dono” das maiores joias do futebol croata.
Com Modric, a cláusula imposta por Mamic foi usada pela primeira vez em 2008, quando ele foi contratado pelo Tottenham, da Inglaterra. 10,5 milhões de euros (R$ 47,69 milhões, na cotação atual) foram para as mãos do meio-campista, que teve que repassar 8,5 milhões de euros (R$ 38,61 milhões) para Zdravko e Mario Mamic – ou seja, 81%.
Situações semelhantes ocorreram com outros atletas de ponta da Croácia, como o zagueiro Dejan Lovren, o lateral direito Sime Vrsaljko e o maio-campista Mateo Kovacic, todos da “rede Mamic”.
No entanto, após anos de negociatas feitas por Zdravko, ele acabou parando na mira da Justiça. Em 2015, ele foi detido pela primeira vez, acusado de apropriação indébita e evasão fiscal, e depois acabou condenado em junho deste ano a cumprir seis anos e meio de prisão. Antes que o veredicto fosse divulgado, porém, ele fugiu para a Bosnia-Herzegovina e escapou, ao menos pelo momento, da cadeia.
Modric entra de forma profunda na história em junho de 2017, quando ele, ao lado de Lovren, foi convocado para depor no julgamento de Mamic. No tribunal, o craque do Real Madrid e da seleção disse que “não se lembrava” detalhes básicos de sua vida de atleta, como seu salário inicial no Dinamo Zagreb e a primeira vez que entrou em campo com a camisa da Croácia.
Além disso, ele afirmou que as cláusulas colocadas em seu contrato sobre dar uma porcentagem gigante de sua transferência para Zdravko foram colocadas antes que ele assinasse o vínculo e fosse vendido ao Tottenham, e não depois, como alegavam a Justiça e o Fisco da Croácia.
Contudo, Modric acabou se colocando em uma cilada, já que seu depoimento de junho de 2017 contradisse outros depoimentos que ele havia concedido sobre o caso, o que o levou a ser acusado de perjúrio pela Justiça em março deste ano. Se for considerado culpado, por ser preso por cinco anos. Loven também está sendo investigado, mas ainda não foi processado.
Antes mesmo de que tudo isso acontecesse, porém, a popularidade de Luka na Croácia já era baixa. Os torcedores do país, cansados da corrupção na Federação Croata e na liga nacional do país, viam a relação entre Modric e Mamic como uma grande parte do problema. A relação chegou às turras de vez durante a Eurocopa 2016, quando fãs croatas atiraram sinalizadores em campo na partida contra a República Tcheca, paralisando a partida e fazendo com que a HNS fosse multada pela Uefa.
Nessa Copa do Mundo, a antipatia a Modric continua, mesmo com a grande campanha da seleção xadrez. Isso pode ser visto, por exemplo, na camisa de um torcedor do país, que colocou o número 10 do meio-campista nas costas, mas, ao invés do nome do jogador, escreveu “Ne sjecam se”.
Konačno je i kontra došla na stadion pic.twitter.com/vavQIeuG1S
— strings_kings (@strings_kings) 16 de junho de 2018
Em croata, isso significa “eu não me lembro”, uma clara referência ao possível falso testemunho do atleta.
Essa atitude, aliás, é até bastante educada perto das diversas pichações que apareceram em Zagreb durante o julgamento de Mamic, como a que dizia: “Luka, você vai se lembrar disso um dia”.
Modric, é claro, não tem qualquer vontade de falar sobre o tema. Quando questionado em coletiva de imprensa antes do jogo contra a Nigéria, pela 1ª rodada da fase de grupos da Copa, se os problemas judiciais o distraiam ou mexiam com sua cabeça na disputa do Mundial, ele mostrou-se muito irritado.
“Você não tinha nada mais inteligente para perguntar?”, disparou.
“É Copa do Mundo, não é momento de falar sobre outras coisas. Quanto tempo você ficou se preparando para fazer uma pergunta desse tipo?”, questionou o camisa 10.
Aparentemente, o meio-campista não pensa muito nisso. Até o momento, ele conseguiu produzir grandes atuações na Rússia, especialmente no jogo contra a Argentina, pela fase de grupos, e carregou seu time até a semi contra a Inglaterra, mesmo com uma possível sentença de prisão o espera em casa depois do torneio.
O técnico Zlatko Dalic também o considera imprescindível, e isso foi visto no duelo entre Croácia e Islândia, pela 3ª rodada da fase de grupos, quando o treinador resolveu poupar nove jogadores da equipe, já classificada para as oitavas. Só dois titulares jogaram: Modric e Perisic.
Se o camisa 10 conseguir levar a Croácia à final, sua popularidade será afetada? Seu sucesso em campo pode salvar sua reputação? Provavelmente não...
Na verdade, Luka Modric pode ser um caso inédito de um jogador vencedor de Copa do Mundo e admirado e amado no mundo todo... Menos em seu próprio país.
