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Gabriel Jesus foi garimpado em campo de presídio e quase foi parar no São Paulo, antes de brilhar no Palmeiras e na seleção

Com apenas 11 anos, um menino franzinho, raquítico e bem menor que os demais teve a proeza de aplicar três chapéus em três marcadores diferentes e entrar com bola e tudo no gol. O garoto era o atual camisa 9 do Brasil na Copa do Mundo da Rússia, Gabriel Jesus, 21.

Quem afirma que isso aconteceu é José Francisco Talah, ou professor Mamede, como é mais esse senhor de 59 anos é mais conhecido na várzea paulistana.

Ele foi o descobridor de Gabriel Jesus, a quem orientou como primeiro técnico de campo no campinho de terra batida do presídio militar Romão Gomes, no bairro do Tremembé, zona norte da capital paulista. Ali, afirma ter visto o gol citado acima e guardar um arrependimento.

"Vi o Gabriel fazer um gol que o mundo não viu do Pelé, que foi aquele gol no Juventus, na rua Javari, em 1959. Gabriel fez um igualzinho. Deu três chapéus em três marcadores e entrou de bola e tudo. Aliás, ele é mestre em fazer gol com bola. Pena que a gente não filmou", disse Mamede para a ESPN.

Essa história de amizade entre o professor Mamede e o atacante do Manchester City começou por iniciativa do garoto. Foi Jesus quem procurou o técnico. Chegou ao campo do Tremembé com um par de chuteiras embaixo do braço e o amigo Fábio Lúcio, seu fiel escudeiro e que agora está até na Rússia.

"Era tão magrinho, pequenininho. Ele me perguntou: 'Posso jogar?' Respondi 'Lógico'. Eles vinham a pé do Jardim Peri [também na zona norte] até o campinho do Romão Gomes, passando pelo Horto Florestal. Veja a vontade dos meninos", afirmou Mamede.

Tímido e bom de bola. Foi assim que Gabriel Jesus impressionou Mamede ao dar os primeiros chutes pelo Clube Pequeninos do Meio Ambiente, equipe amadora e de onde já saíram profissionais como Douglas, atacante campeão brasileiro pelo Santos em 2002, Matheus Pereira, Gabriel Xavier, entre outros.

O clube, que naquele momento adotou Gabriel Jesus esperando revelar mais um talento, nasceu no Horto Florestal e, hoje com 25 anos de existência, orgulha-se de ajudar jovens das periferias paulistanas, transformando vidas de quem muitas vezes não tem qualquer perspectiva.

"Eu já fui no enterro de três crianças do clube. Três! Às vezes, as crianças se perdem no meio do caminho", lamentou Mamede. "Infelizmente, a várzea é um pouco complicada. Um pouco, não. É muito complicada. Uma vez alugamos um campo e o pessoal ficava cheirando cocaína, fumando maconha”.

Não foi o caso de Gabriel Jesus. O menino teve no futebol o alicerce para sair da periferia e se transformar. Mas a trajetória não foi fácil.

"A família dele era bem humilde. Muitas vezes a gente ajudava com cestas básicas. Mas ele era muito pequenininho e a gente pensou: ‘Como ele vai levar para casa?’ Aí o Vasco [Vilson de Souza Cabral], que é nosso presidente, colocou ele no carro com a cesta e levou", disse Mamede. O treinador trabalhou com Jesus dos 8 aos 14 anos e logo no início já teve certeza que o menino viraria no futebol, mesmo sendo magrinho. Ajudou com conselhos, treinos e até equipamentos, como chuteiras que eram doadas por amigos ao projeto Pequeninos do Meio Ambiente.

Mamede ressaltou que Gabriel Jesus chegou e saiu do clube com a mesma personalidade.

"Ele sempre foi um menino muito educado, um menino que não faltava em um treino. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Ele tinha explosão, velocidade. E muita técnica. Jogava contra os mais velhos e não se intimidava”, disse Mamede.

Jesus, que tornou-se o mais famoso pupilo do Pequeninos do Meio Ambiente, foi campeão brasileiro pelo Palmeiras e é o atual vencedor da Premier League pelo Manchester City. Antes de todo esse sucesso, ele percorreu outros caminhos. Trajetória que muitos não sabem.

Do clube no Tremembé, ele passou a jogar pelo Anhanguera, um time amador do Bom Retiro. Tentou fazer um teste no Corinthians e não passou. Tentou em outro rival alviverde e conseguiu ser aprovado, mas não ficou.

"Foi no São Paulo. O Alaor, que é um colaborador nosso, conseguiu um teste para o Jesus lá. Ele foi e passou. Só que ele desistiu porque não tinham alojamento para ele por causa da idade. Ele tinha 14 anos. Ir todos os dias do Jardim Peri para Cotia, sendo ele de origem bem humilde, sem dinheiro, não tinha como”, disse Mamede.

Foi aí que surgiu o Palmeiras e a história todo mundo já conhece...

"Gabriel Jesus é uma referência para essas crianças [aponta para o campo]. A gente gostaria de um dia vê-lo aqui novamente. Nosso projeto vive de doações. Não cobramos nada das crianças, mas precisamos de bolas, chuteiras, redes para os gols, uniformes... Hoje temos ajuda do supermercado Andorinhas que nos dá os lanches para os meninos. Tentamos salvar outros tantos 'gabrieis' que estão na periferia e não ganhamos nada. Na verdade, nossa recompensa é a satisfação e o prazer de ajudar", disse Mamede.

VAI SURGIR UM NOVO JESUS?

Orgulhoso de ver sua joia mais preciosa vestindo a camisa 9 do Brasil na Rússia, Mamede está longe de considerar o que chama de "sua missão" concluída. Trabalha mais e mais garotos e acredita ter um novo craque sendo forjado no Pequeninos do Meio Ambiente.

O nome do menino é Edson Jesus. Ele tem apenas 12 anos e é conhecido pelo apelido de Bebê. Não tem qualquer parentesco com o jogador do City, mas divide com ele algumas coincidências. Ambos têm o mesmo sobrenome, são do Jardim Peri e tem Mamede como tutor.

" A diferença é que jogo de lateral esquerdo, só que sou sou atacante. O professor pede para eu ficar na lateral no primeiro tempo para aprimorar e deixar os outros meninos também, mas ele me deixa atacar no segundo tempo", disse Bebê para a ESPN.

O garoto está um pouco mais avançado do que Gabriel Jesus. Isso porque com 12 anos já faz parte da base do São Paulo.

"Tenho treinos duas vezes por semana, mas tenho de ir bem na escola para eles me deixarem continuar. Ainda não tem alojamento para mim, vou aqui de casa mesmo, mas tenho conseguido ir", disse Bebê, que tem ajuda do irmão Éverton, 14, e do tio Diego.

Quais são as principais características de Bebê? "Eu bato com as duas pernas, sou rápido e gosto de fazer gols. Teve um campeonato que fiz sete gols em cinco jogos. Mas o professor me lembra que ainda não conquistei nada e preciso batalhar muito, muito mais".

"Ele é um garoto educado, focado e que presta muita atenção no que fala. Mas eu não dou moleza. Quando precisa dou bronca. Vejo nele potencial para repetir sim o que o Gabriel fez por aqui e digo que não pode deixar subir na cabeça essas entrevistas, o fato de estar na base do São Paulo. Tem de ter os pés no chão", disse Mamede.

Mesmo no São Paulo, Bebê ainda mantém a rotina de treinos com o Pequeninos do Meio-Ambiente todos os sábados. E sonha em repetir a trajetória do City.

"Meu sonho é ser como ele, me inspiro muito nele e gostaria de conhecê-lo pessoalmente. Gosto de saber que jogo no mesmo campinho que ele já jogou e sonho em ter o mesmo sucesso", disse o menino.