O técnico do Uruguai, Óscar Tabárez, fez um belo discurso nesta terça-feira, em Rostov, ao comentar o resgate da paixão dos uruguaios pelo futebol, simbolizado pelo vídeo das crianças comemorando o gol marcado pelo zagueiro Giménez na vitória sobre o Egito, na estreia da Copa do Mundo 2018.
Tabarez, que foi professor de escola pública em seu país, como mostrou matéria da ESPN em março de 2017, ficou claramente emocionado e com a voz embargada ao comentar ao tema. Seu discurso pode ser lido na íntegra abaixo.
Ele comanda a seleção celeste desde 2006, e é apontado como o grande responsável por transformar o país novamente em uma potência do futebol através de seus métodos e da integração entre as seleções de base e principal.
O Uruguai está em Rostov para enfrentar a Arábia Saudita nesta quarta-feira, às 12h (de Brasília), pela 2ª rodada do grupo A do Mundial.
Como venceu na estreia, justamente com o tento de Giménez, a "Celeste Olímpica" estará classificada se ganhar novamente em seu 2º compromisso na competição.
O DISCURSO DE TABÁREZ
Eu não vi o vídeo tanto como professor, mas como alguém do meio do futebol. E ele me mostrou o que o futebol representa para o uruguaio.
Nós, quando os ingleses introduziram o futebol no continente sul-americanos, fomos uma potência futebolística. Ganhamos dois campeonatos olímpicos consecutivos, em uma época em que eles eram o campeonato mundial, pois não existia a Copa da Fifa. Depois, ganhamos ainda duas Copas do Mundo. Éramos uma potência.
Depois, perdeu-se esse fio condutor que tem que haver entre as gerações, por diversos motivos.
Algumas perguntas que eu me fazia quando estava em meus anos sabáticos de futebol, uns três ou quatro, era pensando no que fazer para resgatar esse sentimento no Uruguai, passando por todas as dificuldades que temos, como a pequena quantidade de gente e a menor quantidade de futebolistas em relação aos outros.
Modestamente, acho que conseguimos.
Hoje, somos uma equipe difícil de competir contra.
Os que não são profissionais do futebol pode dizer o que quiserem, que seremos campeões, você não pode fazer nada. As pessoas têm sonhos, é parte do futebol.
E como parte de cultura futebolística, onde o futebol é parte de sua identidade nacional, há poucos países como o Uruguai. Ao lado de Brasil e Argentina, é o único com verdadeira cultura de futebol na América Latina. Na Europa, há a Inglaterra, a Alemanha, talvez alguns outros, como a Espanha, mas não era o caso em 1920 e 1930, quando o Uruguai era uma força.
Então, quando vejo esses garotos na escola, assistindo à partida, e era assim que a gente fazia no meu tempo de professor, com a autorização das autoridades, a gente pensava: 'OK, não vamos fazer aulas convencionais'. Decididmos deixar as aulas de lado durante a Copa e voltar depois. É assim que se combate o absentismo na escola, porque as pessoas são apaixonadas por futebol e querem assistir aos jogos.
Quando vejo esses meninos e meninas vendo e se emocionando com o Uruguai vencendo dessa maneira, que é como gostamos de ganhar, com um gol no final da partida, vejo que eles comemoraram e depois correram para o recreio... E eles nunca vão se esquecer dessa experiência, dessa partida! Provavelmente, vão contar para seus filhos e netos.
Esse é o fio condutor que conseguimos retomar. Conseguimos conectar as gerações.
O Uruguai está todo pintado de celeste agora, até os monumentos! Há faixas, cartazes, balões... Até as faixas de pedestres foram pintadas!
Não digo que isso só acontece no Uruguai, porque não conheço o mundo inteiro. Estou impressionado, por exemplo, com a Islândia. Eles têm 300 mil habitantes e olhe só o que estão fazendo!
Então, o Uruguai não é o único país do mundo a sentir o futebol dessa forma. Mas se há algo que me deixa orgulhoso é ver como retomamos esse sentimento que havia antes entre o Uruguai e o futebol.
E se ganharmos mais alguma partida como as que ganhamos na (Copa da) África do Sul, provavelmente vou receber cartas de senhoras de 80 anos dizendo: 'Eu odiava o futebol, mas desde que o Uruguai fez isso, tenho vontade de sair de casa e abraçar a primeira pessoa que vejo na rua'
É disso que eu falo com os meus jogadores, e isso é grande parte da motivação deles para entrar em campo.
