Zero a zero no placar. Cronômetro apontando 120 minutos. Prorrogação praticamente esgotada. Peñarol dando adeus à busca pelo quinto título de Copa Libertadores. O cenário na decisão continental de 1987 não poderia ser mais dramático. Imagine tudo isso sendo observado pela televisão por um garoto de apenas seis anos...
Mesmo tanto tempo depois, as lembranças ainda são marcantes. O empate era favorável ao América de Cali, que buscava naquele ano o primeiro título da Copa Libertadores para o futebol colombiano. A torcida rubro já fazia festa no estádio Nacional de Santiago, no Chile, o palco neutro para o terceiro jogo entre os clubes. Mas os uruguaios mantinham a fé, assim como o menino...
E ela se confirmou por meio dos pés de um homem: Diego Aguirre. O camisa 9 do Penãrol foi o responsável por libertar o grito de uma massa. Após um bate rebate na intermediária, ele recebeu a bola em seus pés. Não teve muito tempo para pensar. Partiu em velocidade, livrando-se de cara de dois marcadores. Já dentro da área escapou de novo desarme e chutou cruzado à meia-altura. Foi o suficiente para ver a bola estufar as redes, confirmar o triunfo por 1 a 0 e dar a taça aos uruguaios.
Diego Lugano era o garoto de seis anos que acompanhou pela televisão, em uma espécie de armazém, na cidade de Canelones, vizinha de Montevidéu. É a primeira lembrança que ele tem de um gol. É também o gol mais dramático que afirma ter visto aos amigos mais próximos. E foi assim que iniciou-se uma relação que agora estará presente no São Paulo, onde eles vão trabalhar juntos pelo mesmo clube, como superientende de relações institucionais e técnico.
JUNTOS PELA 1ª VEZ
Lugano tinha 21 anos quando foi emprestado pelo Nacional ao modesto Plaza Colonia, equipe da cidade de Colônia do Sacramento, para se desenvolver como jogador. Quis o destino que ele fosse treinado por Diego Aguirre, também em início de carreira.
Foi o encontro perfeito entre dois profissionais que tinham ambições em suas carreiras. Um como um jovem zagueiro e o outro como um atacante aposentado que queria vencer a descrença em relação a seu potencial como futuro treinador.
Juntos, conseguiram fazer com que a equipe recém chegada à primeira divisão obtivesse resultados expressivos, como vitórias sobre o Peñarol (2x0 e 4x3), Danubio (5x2 e 2x0), e o quinto lugar na tabela geral da competição. O Plaza Colonia chegou até a disputar uma vaga na Copa Libertadores de 2003, mas ficou em quarto lugar no torneio classificatório.
A boa temporada fez com que o São Paulo decidisse contratar o zagueiro Lugano, uma indicação feita por Aguirre.
SELEÇÃO URUGUAI
Uma das maiores alegrias de Diego Lugano foi ter defendido a seleção uruguaia. Isso ocorreu pela primeira vez em novembro de 2004, quando o treinador Jorge Fossati chamou o defensor para uma partida das eliminatórias contra o Paraguai.
Lugano sempre foi grato a Fossati, mas também a Aguirre, um dos responsáveis por aquela conquista.
Aguirre já treinava o Peñarol desde 2003, tinha obtido o título nacional logo no ano de estreia, gozava de prestígio no Uruguai e era bem próximo de Fossati. Ou seja, não foi difícil indicar seu antigo pupilo para a Celeste.
A classificação para a Copa do Mundo de 2006 não foi obtida. Fossati deixou a seleção e Óscar Tabárez assumiu. E entre as mudanças promoveu Lugano, com 25 anos, a capitão da equipe - novamente contaram palavras favoráveis de Aguirre.
A trajetória iniciada na seleção em 2004 foi concluída por Lugano dez anos depois, com participação nos mundiais de 2010 e 2014, uma Copa das Confederações jogada e um título de Copa América, em 2011.
REENCONTRO
Alguns podem relacionar a vinda de Aguirre para o São Paulo como uma retribuição do amigo Lugano. Ídolo no clube do Morumbi, o ex-zagueiro e agora superintendente de relações institucionais teve sim uma contribuição.
Ao lado de Raí, diretor de futebol, e Ricardo Rocha, coordenador, foi um dos favoráveis a contratação do treinador.
Será a primeira vez que vão trabalhar juntos desde 2002 e é igualmente simbólico que isso ocorrerá no São Paulo, clube que tem uma ligação com o futebol uruguaio como nenhum outro no país.
Passaram pela agremiação tricolor nomes como Pedro Rocha, Darío Pereyra, Pablo Forlán, o próprio Aguirre e Lugano. Isso sem contar os técnicos Ramón Platero e Conrado Ross.
