Neste sábado, o Corinthians recebe o Palmeiras na Arena de Itaquera, às 17h (horário de Brasília), pela 9ª rodada do Campeonato Paulista. E antes do dérbi, as estatísticas chamam bastante a atenção. Afinal, os rivais discordam em relação aos números gerais do clássico centenário.
Nas contas palmeirenses, o "Verdão" já venceu o rival 129 vezes, tendo perdido 125. Já para os corintianos, são 125 triunfos palestrinos e 123 alvinegros.
Ou seja: o Palmeiras diz ter quatro vitórias a mais que o Corinthians no retrospecto, enquanto o "Timão" diz que a desvantagem é de apenas duas.
Entre os rivais, há uma disparidade de 10 jogos que a equipe do Allianz Parque conta para a estatística, enquanto o time de Itaquera ignora.
São eles os nove clássicos disputados pelo Torneio Início do Campeonato Paulista entre 1919 e 1969 (nos quais houve quatro vitórias palmeirenses, dois triunfos corintianos e três empates) e também o empate em 0 a 0 válido pela Taça Henrique Mündel (o chamado "Jogo das Barricas"), competição disputada entre Palmeiras, Corinthians, Portuguesa e São Paulo a fim de arrecadar fundos para o time tricolor, que vivia grave crise financeira.
Todas essas partidas não tiveram duração de dois tempos de 45 minutos.
"Os números oficializam todas os encontros que colocaram os clubes frente a frente em um campo de futebol, sem distinção de competição ou de tempo de jogo regulamentar", explica o Palmeiras, em seu site oficial.
O Corinthians, por sua vez, baseia suas estatísticas nos números do jornalista Celso Unzelte, autor do "Almanaque do Timão" e comentarista da ESPN.
Ao ESPN.com.br, ele explica por que não coloca essas 10 partidas em sua conta. Segundo o professor universitário, um dos argumentos para sustentar a tese é que nos primórdios do futebol no Brasil as partidas não tinham 90 minutos de duração - eram jogadas com dois tempos de 40 minutos. Unzelte, porém, mostra-se mais criterioso na escolha.
"A questão não é a duração daquelas partidas serem menor de 90, e sim por ser menor do que se disputava na época. Na época dos 40 por 40, todos os jogos eram 40 por 40. Na época do Torneio Início não. Os jogos nunca foram 15 por 15", explicou.
"No segundo turno de 1923, o Palmeiras não entrou em campo e o Corinthians ganhou por W.O. Eu não considero este resultado, porque para o meu Almanaque só valem os resultados em campo. Agora o Palmeiras já chegou a considerar esta vitória do Corinthians, mas agora recuou", acrescentou.
"Em 1938, no chamado 'Jogo das Barricas’, teve a disputa da Taça Henrique Mündel , que aliás o Corinthians ganhou da Portuguesa na final, mas na semifinal havia tirado o Palmeiras nos escanteios depois de um empate em 0 a 0. Eu também não considero este jogo pois, assim como no Torneio Início, ele não teve um tempo regulamentar", concluiu o jornalista.
TORNEIO INÍCIO VALE OU NÃO?
Em sua primeira versão do "Almanaque do Timão", lançado em 2000, Celso Unzelte chegou a considerar o Torneio Início entre os jogos oficiais, o que resultou em muita crítica por parte de outros historiadores, segundo ele mesmo admitiu. Por isso, mudou de ideia. Os números dos dois clubes foram equiparados até recentemente.
Celso conta que "conferiu" cada confronto com Fernando Galuppo, pesquisador e profundo conhecedor da história do Palmeiras, e ficou definido que os confrontos pelo Torneio Início não seriam contabilizados. O que o clube alviverde decidiu revisar em 2015, quando Galuppo já não estava mais trabalhando para a agremiação.
"Eu fiz a equiparação dos números com o Galuppo. Depois, por algum problema do Palmeiras, mudou o pessoal da estatística e mudou também a filosofia. Muito coincidentemente também numa época em que o Corinthians tinha ficado a uma vitória de empatar a estatística. Mas eu acho que isso é mais uma coisa pela rivalidade, pela brincadeira. É uma questão de critérios", avaliou.
O pesquisador até explicou que se fossem considerados todos os clássicos, o número final seria 365 confrontos. "25 amistosos, 56 jogos pelo Campeonato Brasileiro/Robertão, 205 jogos pelo Paulista, sendo que dois também foram válidos pelo Rio-São Paulo, seis jogos pela Libertadores, 26 pelo Rio-São Paulo, nove pelo Torneio Início e 38 por outros torneios nacionais/internacionais. Aí cada um conta o que quiser", resumiu o autor.
Também em contato com a reportagem, Galuppo enviou o seguinte posicionamento sobre a discordância nos números:
O trabalho elaborado pela Sociedade Esportiva Palmeiras é o mais fidedigno aos fatos da história do Derby, pois engloba todos os confrontos oficiais entre as equipes principais dos dois tradicionais clubes na história, sem distinção, respeitando e preservando a história puramente factual, frio, sem análises, interpretações personalistas, critérios próprios ou julgamentos.
O trabalho elaborado pelo Sport Club Corinthians Paulista apresenta os números, alegando que os Torneio Inícios e a Taça Henrique Mundel não eram competições jogadas em 90 minutos, apesar da competição ser oficial organizada pela entidade máxima do futebol bandeirante, ter súmula, juiz, valer taça, ter público, bilheteria e registros nas federações e imprensa.
Contestamos o trabalho do clube de Parque São Jorge com veemência, pois nem sempre na história do futebol as partidas eram jogadas em 90 minutos. No início dos tempos, por exemplo, as partidas eram divididas em dois tempos de 40.
Indo além, as partidas disputadas em 1918 e início de 1919 foram limitadas em seu tempo de jogo ainda mais, baixando as partidas do Campeonato Paulista para dois tempos de 35 minutos, devido a epidemia da Gripe Espanhola.
Na ótica alvinegra, como ficam os jogos que houveram prorrogação? Afinal, segundo eles o critério supremo para dizer o que é ou não jogo válido são os 90 minutos. Partindo disso, a semifinal do campeonato paulista de 1986 e as finais do paulista de 1993 e 1995 deverão ser riscadas da história do Derby? Por conveniência deles deverão ser anuladas dos registros?
Partindo da análise dos corinthianos, teriam então que ser deconsiderados inúmeros jogos da história do Derby, pois a regra utilizada por eles para formatação de seus conceitos históricos não atendem aos parâmetros de análise por eles mesmos criados e entendidos como ponto de fé e verdade absoluta, aos quais apontamos acima.
O trabalho do Palmeiras, por mim encabeçado no passado e ora exposto, e dado continuidade por competentes profissionais que hoje respondem por esse departamento, tem como a regra número 1 o seguinte parâmetro: Não se mede o passado com a régua do presente, e vice-versa. Deve-se respeitar os fatos de acordo com o seu tempo e o seu espírito. Essa primissa nos foi passada pelos nossos antecessores e mestres e dado prosseguimento até o presente momento, com brilhantismo e competência pelos homens que dirigem os destinos do Palmeiras.
No entanto, cabe a cada um julgar por si só os metódos adotados pelas duas instituições na preservação da história de um dos maiores confrontos do futebol mundial e utilizar qual melhor métrica lhe convém. A Sociedade Esportiva Palmeiras trabalha com fatos. E aos fatos respondemos.
Se o Corinthians entende que os jogos do torneio início contra o Palmeiras devam ser descartados e não valem nada, entendo eu que eles prestam um desserviço à memória do seu próprio clube. Afinal, o time alvinegro possui 8 títulos da competição, sendo o maior campeão do torneio ao lado do próprio Palmeiras, e por conta de não reconhece-la, segundo o que foi exposto no trabalho alvinegro, tem por si só essas conquistas descartadas de sua rica galeria de campeões. Já nós do Palmeiras damos muito valor a tudo aquilo que conquistamos, com suor e fibra, no gramado em que a luta sempre nos aguarda. Principalmente a todas as vitórias sobre o nosso maior rival.
Por fim, lembro um fato que assisti com meus próprios olhos. Em 2014 no primeiro Derby realizado em Itaquera o placar eletrônico do estádio já apresentava números aos presentes dizendo que o Corinthians possuía maior número de vitórias em relação ao Verdão. Na ocasião, os corintianos fizeram uma distinção das partidas em que jogaram apenas contra o Palmeiras após adotar o seu novo nome a partir de 1942, ignorando a era Palestra Itália. Não foi a primeira vez. Vi isso também em uma obra que retrata a história alvinegra. Não me surpreenderia se no próximo sábado voltem a usar esse tipo de expediente novamente para afirmar sua superioridade sobre os palmeirenses perante seus torcedores.
É justíssimo o desejo deles de querer nos passar em número de vitórias nos confrontos diretos. Mas para isso, que sejam menos revisionistas em seus argumentos. Conquistem esse feito no campo, não na lábia e na pena.
