Se hoje os jogadores brasileiros fazem muito sucesso na Premier League, houve um dia em que a Inglaterra não tinha nenhum atleta tupiniquim. O responsável por inaugurar a participação de "brazucas" no futebol inglês chegou ao Reino Unido apenas em 1987, vivendo aventuras inesquecíveis em terras nunca dantes exploradas.
Trata-se do ex-atacante Francisco Ernandi Lima da Silva, mais conhecido como Mirandinha, que é o convidado do "Bola da Vez - Nordeste" desta segunda-feira. O programa vai ao ar às 21h (horário de Brasília), na ESPN Extra e WatchESPN.
O cearense de Chaval foi contratado pelo Newcastle após boa passagem pelo Palmeiras, entre 1986 e 1987, na qual fez muitos gols e ganhou fama de "fominha" por seu estilo individualista, além de ter chegado à seleção brasileira.
Na época, o valor da negociação deixou todos boquiabertos: incríveis 575 mil libras, o que daria R$ 2,563 milhões na cotação atual.
"Eu fui vendido pelo mesmo valor que o Roberto Firmino recebe por mês hoje no Liverpool (risos). Eu recebia um bom salário para a época, mas pagava 47% de imposto! Fui o primeiro brasileiro na Inglaterra", exaltou Mirandinha, em participação no programa.
No time de St. James Park, o brasileiro formou ótima amizade com o ex-meia Paul Gascoigne, que defendeu os Magpies entre 1985 e 1988. "Gazza", como ele era conhecido, é famoso por ter sido um dos jogadores mais talentosos da história do futebol inglês, ao mesmo tempo em que foi também um atleta polêmico, instável, fanfarrão e muito (mas muito) beberrão.
"Paul era um menino maravilhoso, tinha só 19 anos quando eu cheguei. Ele passou a comer arroz, feijão e costela de porco na minha casa. Era uma figura maravilhosa. Ficamos muito amigos e particpávamos de vários eventos juntos, como inaugurações de shoppings, campanhas publicitárias e visitas a hospitais", lembrou.
"Ele me deu uma cachorrinha Cocker Spaniel inglesa e eu coloquei o nome de Gazza. Aí dei um peixinho pra ele e o figura batizou de Mirandinha (risos). Foi para o aquário dele", divertiu-se.
Gascoigne foi o responsável por organizar o "trote" de batismo de Mirandinha na Inglaterra.
"No primeiro jogo que fomos fazer contra o Norwich, fora de casa, o Gazza aprontou comigo. Acabou o jogo e a gente passava em um lugar para pegar um fish and chips para comer depois da partida. Hoje tem até avião particular, mas na época era 'busão' mesmo, e a gente comia sentado no ônibus", recordou.
"Estava um frio danado, e falei pra ele: 'Gazza, tô com fome'. Ele respondeu: 'Go to the coach, Mr. Willie, and say to him: 'Mister, I'm f... starving ('Vá até o técnico, o Sr. Willie, e fale pra ele: 'Sr. Willie, estou com uma fome do c...'). Aí eu fui e falei! Na hora todo mundo caiu na gargalhada, tirando maior sarro. Nisso eu ganhei o grupo. O Gazza só me colocava em furada", sorri.
O ex-atacante até hoje se impressiona com a quantidade de cerveja que seus companheiros de Newcastle consumiam, especialmente antes das partidas. A bebida era chamada de "vitamina" pelos maiores beberrões do elenco.
"Eu gostava de tomar bem pouco de cerveja, mas os britânicos bebiam demais. Tinham dois jogadores, o John Anderson, lateral que jogou a Copa do Mundo pela Irlanda do Norte, e o volante David McCreery, que tomavam na véspera do jogo aquelas pints de Guinness. Isso no hotel, na véspera do jogo!", ressalta.
"Eles chamavam de 'vitamina', porque a Guinness é muito forte, escura e grossa", conta.
Em seus dois anos de Newcastle, Mirandinha fez 19 gols em 54 partidas e conquistou o coração dos torcedores. Tanto é que, em 2016, foi convidado para uma homenagem antes de um jogo contra o Manchester City, pela Premier League.
Já no ano passado, foi chamado para a inauguração de um restaurante brasileiro em Newcastle e reencontrou o velho amigo Gascoigne, que, após anos em péssimo estado devido ao excesso de drogas e bebidas, vem se recuperando.
"Encontrei Gazza e vários companheiros daquela época. Hoje o Paul está bem melhor, mais comedido e se tratando, mas já esteve muito ruim... Agora ele está melhor", relata, aliviado, antes de lembrar mais uma das geniais histórias do "mito".
"O Paul teve que ser negociado com o Tottenham em 1988, porque havia situações em que ele não media as consequências. Ele tinha um motorista chamado Jimmy, que nós chamávamos de Fat Jimmy, porque era enorme de gordo. Era amigo de infância dele", rememora.
"Um dia o Jimmy ia dirigindo a BMW conversível pela estrada para levar o Paul até Londres para assinar com o Tottenham, e o Gazza simplesmente foi para o banco de trás do carro. Baixou o calção e ficou andando um tempão do trecho até Londres com o bumbum de fora. Ele era isso mesmo, uma loucura total", diverte-se.
Mirandinha ainda conta que Gascoigne adorava ganhar um dinheiro extra às custas dos tabloides ingleses, e adorava inventar brigas com o amigo brasileiro para vender falas polêmicas para a mídia sensacionalista da Inglaterra.
"Nós criamos uma situação em que eu e ele entrávamos em conflito para fazer matérias, até para aparecermos mais. A cada matéria que você faz exclusiva na Inglaterra, os jornais e revistas pagam um bom dinheiro. Então, o Gazza fazia de tudo para arrumar mais grana", revela.
O ex-centroavante deixou o Newcastle em 1989 para retornar ao Palmeiras, na esperança de ser lembrado pelo técnico Sebastião Lazarona no grupo que iria disputar a Copa do Mundo de 1990, na Itália, mas acabou não sendo convocado.
Ele parou de jogar em 1995, pelo Fortaleza, e no ano seguinte virou técnico. Em mais de 20 anos de carreira, passou por vários times, conquistando um Campeonato Cearense pelo "Leão", em 2009, e um Amazonense pelo Rio Negro, em 2001.
Hoje com 58 anos, ele diz só ter uma lamentação na vida.
"Sair do Newcastle foi o maior arrependimento da minha carreira. Eu estaria lá até hoje, com certeza. Quando eu saí, assumiu uma pessoa que me adorava e só ia ao estádio quando eu jogava, que era Sir John Hall, que comprou 51% do clube naquelele período. Ele me mandou passagem para eu retornar à Inglaterra, mas eu acabei dizendo não para ficar no Palmeiras, porque tinha a promessa de jogar a Copa do Mundo de 1990", relembrou.
"Acabou que não fui, mesmo estando muito bem naquele período. Levaram o Romário com o pé quebrado. Não tenho raiva do Lazaroni, nem mágoa. Mas fiquei triste, pois (a Copa do Mundo) foi o que faltou na minha carreira", salientou.
Confira mais histórias às 21h, no "Bola da Vez - Nordeste" com Mirandinha.
