Reserva de luxo no Palmeiras, o atacante Keno despertou o interesse do Oriente Médio.
Na última quinta-feira, representantes do Al-Nassr, da Arábia Saudita, estiveram no Allianz Parque para acompanhar in loco o desempenho do jogador contra o Santo André, pelo Campeonato Paulista. E devem ter ficado bem satisfeitos: o camisa 11 entrou "voando" na segunda etapa, deu dribles, bons passes e ainda marcou o último tento da vitória por 3 a 1.
O time saudita acena com uma proposta de 6 milhões de euros (R$ 23,46 milhões) por Keno, apesar do diretor de futebol do Palmeiras, Alexandre Mattos, ter garantido na quinta que nada oficial ainda chegou ao clube - desse montante, os palestrinos levariam 60%, enquanto os 40% restantes ficariam nas mãos do São José-RS.
O atacante, por sua vez, desconversou ao ser questionado sobre o tema.
"Estou com a cabeça no Palmeiras, tenho contrato com o Palmeiras. Isso eu deixo para meu empresário, o Mattos e o Cícero (Souza, gerente de futebol) resolverem. [...] Se for para acontecer, vai acontecer. Mas tenho contrato com o Palmeiras e pretendo cumprir esse contrato", garantiu o atleta, que tem vínculo até 2020 com o clube palestrino.
No entanto, é bom Keno pensar bem se quer mesmo aceitar a promessa de ganhar milhões no "Mundo Árabe".
O ESPN.com.br conversou com vários atletas brasileiros que passaram pela equipe amarela nos últimos anos e a opinião foi praticamente unânime: jogar no Al-Nassr é uma "fria" no aspecto financeiro.
Isto porque o time de Riade (capital da Arábia Saudita) se notabilizou por diversos problemas de atrasos de pagamentos nos últimos anos.
Muitos jogadores, inclusive, tiveram que recorrer à Fifa para conseguir o dinheiro que havia sido garantido em contrato. A maioria nem viu a cor dessa grana até hoje, enquanto outros estão recebendo parcelado.
Foi o caso, por exemplo, do meia Rafael Bastos, revelado pelo Cruzeiro e com passagens por times como Vitória, Figueirense, Chapecoense e América-MG.
Atualmente no CRB, ele atuou pelo Al-Nassr entre 2012 e 2013, mas levou calote e teve que recorrer à Fifa para conseguir encerrar seu contrato com o clube.
Em conversa com a reportagem, Bastos exalta o tamanho do clube árabe, octacampeão nacional e um dos maiores mais importantes times do Oriente Médio.
No entanto, ressalta também que a agremiação possui dívidas com ele até hoje, e vem pagando parcelado.
"É um clube gigante, muito importante na Arábia Saudita. Tem uma torcida fantástica e uma estrutura de trabalho boa. Só que tive um problema sério com pagamento lá", contou o armador.
"Até me disseram que agora melhorou um pouco, e eu acertei um acordo com eles, pois ganhei uma causa na Fifa e até o momento estão me pagando certinho, sem problema", salientou.
Durante o processo de saída do Al-Nassr, aliás, o brasileiro ficou "preso" na Arábia Saudita, já que precisava da liberação do presidente do time para poder deixar o país. Depois de recorrer até à Embaixada do Brasil, ele se livrou na Fifa e saiu.
"Tive um problema sério, porque é lei na Arábia Saudita que quando você tira visto de trabalho e vira residente no país, você precisa da assinatura do presidente do clube para sair, e eles não queriam dar essa assinatura, porque diziam que eu ainda tinha contrato. Isso tudo sendo que a Fifa já tinha me dado ganho de causa dizendo que eu estava livre, recorda.
"Já faz quatro anos que joguei lá, mas só agora eles fizeram acordo e estão me pagando direitinho", relata.
O atacante Éverton, que rodou por vários clubes do interior paulista e teve longa passagem pelo Hereclaes, da Holanda, foi outro que sofreu com os calotes do Al-Nassr.
Hoje com 34 anos e jogando no XV de Piracicaba, ele atuou pelo clube da Arábia Saudita em 2013. Ao ver que não iria receber o combinado, porém, rescindiu seu contrato e se mandou para o futebol chinês.
Até hoje ele espera o que lhe é devido.
"O clube é grande e tem uma torcida enorme e muito calorosa, fanática mesmo. Fica numa cidade muito boa, acredito que uma das melhores do país. Mas também é desorganizado e não cumpre as promessas", disparou.
"Recebi só dois meses dos dois anos de contrato que assinei. Estou com um processo na Fifa já há quase cinco anos e até agora não recebi", completou.
E esses são só dois casos...
DÍVIDA COM O FLAMENGO AINDA NÃO FOI PAGA
Outro problema famoso envolvendo o Al-Nassr e jogadores brasileiros foi a compra do atacante Hernane "Brocador", então no Flamengo, em 2014.
Os rubro-negros venderam o centroavante para os árabes, mas também tomaram calote.
Caso o pagamento não seja realizado, o Al Nassr pode ser punido com multa, perda de pontos, rebaixamento e exclusão do campeonato nacional.
— Flamengo (@Flamengo) 15 de setembro de 2017
Em setembro do ano passado, após três anos de briga internacional, o Fla finalmente conseguiu que a Fifa punisse o time amarelo.
O clube foi obrigado a pagar 3 milhões de euros (R$ 11,75 milhões, na cotação atual) aos cariocas, sob ameaça de perder pontos e até ser rebaixado no Campeonato Saudita.
Contudo, segundo informou à reportagem o advogado Marcos Motta, que cuida do caso ao lado de Bernardo Accioly, diretor-executivo jurídico do time carioca, esse pagamento ainda não foi feito - e nem tem qualquer previsão de acontecer.
"Sem data para pagamento. O caso está pendente no Comitê Disciplinar da Fifa", explicou, por meio da assessoria rubro-negra.
A equipe da Gávea ainda enviou à ESPN o seguinte posicionamento, que diz que se os sauditas atuam juridicamente para tentar protelar ainda mais o pagamento da dívida.
“Na área desportiva, importante destacar que, na ação contra o clube árabe Al-Nassr perante a Fifa, já transitada em julgado no CAS, a fase atual é de execução e houve determinação pelo Comitê Disciplinar da Fifa, em 3 de novembro de 2017, de pagamento, no prazo de 90 (noventa) dias, dos valores devidos ao Flamengo, sob pena de perda de 06 (seis) pontos no próximo campeonato saudita", escreveu o Flamengo.
"Entretanto, o Al-Nassr interpôs recurso meramente protelatório desta decisão, o que pode prorrogar a aplicação da penalidade por mais alguns meses, caso se recusem a efetuar o pagamento. Esta execução se refere a um valor total de € 2,500,000.00 (dois milhões e quinhentos mil euros). A segunda ação, relativa à parcela final de € 2,000,000.00 (dois milhões de euros) está em fase de publicação de acórdão pelo CAS", acrescentou.
"O Flamengo não desistirá até receber todos os valores devidos, devidamente acrescidos de juros (5% ao ano) e da multa contratualmente prevista (15% do valor devido)”, finalizou.
Pelo jeito, essa briga ainda vai longe.
5 MESES DE ATRASO E FORA DA CHAMPIONS ASIÁTICA
Segundo apurou o ESPN.com.br, o Al-Nassr, que atualmente tem dois brasileiros no elenco (o zagueiro Bruno Uvini e o meia Leonardo) segue com problemas em sua folha de pagamentos.
De acordo com uma fonte com trânsito na equipe, os atrasos chegam a cinco meses, e diversos jogadores já manifestam interesse em deixar o clube assim que possível.
"O time é muito esculhambado. É a maior 'roubada' ir jogar lá. É só pesquisar um pouco na internet que você acha tudo!", salientou.
As questões financeiras, aliás, prejudicam demais o Al-Nassr dentro de campo.
Em outubro do ano passado, a agremiação foi punida pela AFC (Confederação Asiática de Futebol) de disputar a Liga dos Campeões da Ásia, devido aos atrasos salariais e também aos calotes dados em vários clubes espalhados pelo mundo, como o Flamengo.
Com isso, foi excluída da mais importante competição do continente, mesmo tendo se classificado por ter terminado a última liga nacional no 3º posto.
Atualmente, a equipe está em 4º lugar do Campeonato Saudita, com 27 pontos em 17 partidas. A desvantagem para o líder Al Hilal é de nove pontos.
Esse "buraco", porém, pode ficar ainda maior se o time foi condenado pela Fifa com a perda de pontos por conta do "caso Brocador".
A reportagem tentou contato com o Al-Nassr. No entanto, o site do clube está fora do ar, e não foram encontradas informações sobre meios de se comunicar com a equipe.
