Enquanto via uma bola bem cruzada pelo seu companheiro de time Sebastian viajar com primor até sua cabeça, aos 26 minutos do segundo tempo, o santista Vitor Mendes Alves talvez tenha imaginado e relembrado tudo que passou e o levou até a partida contra o América-RN, em partida da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o principal campeonato de base do Brasil.
Nascido em Belém do Pará, o zagueiro de apenas 18 anos teve diversas dificuldades antes de virar um Menino da Vila. Na sua cidade natal, Vitor começou em um time chamado Cruzeirão e, mais tarde, recebeu oportunidade na escolinha do Carajás Esporte Clube.
Mas foi a partir dali que as adversidades começaram a dar as caras na vida do então adolescente.
"No começo foi muito difícil pra mim. Não tinha condição de ir para os treinos, pois não tinha dinheiro da passagem. Eu lembro que o jeito para conseguir o dinheiro era catando garrafa de vidro em troca de moedas. Então, às vezes a gente trocava garrafa de vidro por algodão doce e, com ele, a gente conseguia o dinheiro", conta Vitor, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.
Além da venda das guloseimas, ele possuia outros pequenos trabalhos, inclusive com seu pai.
"Também reparei bicicleta do lado da minha casa, eu ficava às vezes esperando meia hora, 45 minutos para poder ganhar 2 reais para ir ao treino. Tive também que ir trabalhar com meu pai, vender picolé no decorrer do dia e, ao final do dia, conseguir meu dinheirinho para ir para o treino", lembra.
"Isso marcou muito a minha vida. Meus pais não tinham de onde tirar o dinheiro, às vezes eles não compravam comida para me dar o dinheiro da passagem, minha mãe chegava a chorar muito por não poder me ajudar", completa.
Foi aí, então, que ele conheceu "Júnior", um grande amigo pessoal que foi o verdadeiro anjo da guarda de sua vida. Foi ele o responsável por convencer Vitor a seguir tentando carreira no futebol.
E uma boa notícia chegou: um teste na Ponte Preta, a quase 2.400km de sua cidade natal.
"Minha mãe, no começo, pela minha idade, não queria deixar eu ir porque não tinha como comprar minha passagem. Eu falei que o dono da escolinha do Carajás, Guidomar de Jesus, me deu a notícia que tinha comprado. Fiquei muito contente, conversei com meus pais, cheguei pra minha mãe e disse: ‘mãe, vai valer a pena, é a última oportunidade da minha vida, não vou desistir’. E fui embora", recorda.
Chegando na grande cidade do interior paulista, Vitor, no entanto, sofreu o que muitos dos craques do futebol mundial também sofreram e acabou sendo rejeitado.
"Eu lembro que, quando fui reprovado, chegou um cara pro Júnior e tinha dito que eu não tinha condições de ficar, que era para ele me mandar embora para minha cidade de volta. Mas fiquei para mim mesmo que essas palavras que ele disse, só me deram mais incentivo para eu não desistir", comemora. E ele não desistiu.
No dia seguinte, fez outra tentativa, desta vez em outro clube do interior de São Paulo.
E tudo começava a se mostrar cada vez mais complicado.
"Nesse mesmo dia, eu lembro que tinha uma casa nos fundos de um amigo do Júnior que só era um quartinho pequeno e não tinha espaço para eu dormir. Era o Júnior, a esposa dele e a filha dele. Não tinha espaço para eu dormir. A gente teve que emprestar a rede do amigo dele e colocar lá fora. E só tinha uma parte coberta. Nesse dia estava chovendo muto, estava muito frio e eu não tinha cobertor pra dormir. Não consegui dormir por ansiedade", diz.
"Cheguei lá, nem almocei, chegamos lá ao meio-dia. Ficamos no carro esperando a hora de começar o teste e, logo no primeiro teste, eu fui aprovado no primeiro dia. Mas havia outro teste no segundo dia. A gente tinha que voltar pra casa, mas, depois de muita conversa, conversamos com o presidente e ele deixou o alojamento para eu ficar. Aí, fiz o teste e fui aprovado também", celebra o atleta.
Na equipe paulista, porém, até para comer a situação era extremamente precária. O clube não disponibilizava o almoço ideal para os jovens atletas, mesmo antes das partidas.
"Nos finais de semana tinha jogo no sábado pela manhã, 11h, e a gente só comia um pão com Nescau para aguentar os 90 minutos de jogo. Nos fins de semana, não tinha comida no alojamento. A gente tinha que se virar e, quem tivesse dinheiro, comprava comida; quem não tivesse, pedia. Naquele tempo, a esfiha era R$ 1. Então a gente corria para comprar uma. Mas não matava nossa fome do sábado e do domingo", rememora.
Apesar da escassez de comida, Vitor era altruísta. Prova disso era a ajuda constante a um pobre cão que passeava pelas dependências da instituição.
"Tinha um cachorrinho que morava com a gente que também não comia. Toda vez que a gente comprava algo, a gente dividia com ele. E isso ficou marcado na minha vida. Não esqueço disso", diz, emocionado.
Dormindo no chão para, depois, chegar ao Santos
Vitor driblava as dificuldades da vida, muito longe do luxo da minoria dos jogadores de futebol. Após fechar um contrato com o time paulista, ele via-se próximo da oportunidade de sua vida, quando enfrentaria o Santos. Sabendo da força do time praiano nas categorias de base, o zagueiro queria mostrar trabalho, mas acabou vendo quase tudo desmoronar.
"Eu fui dormir num quarto que tinha um colchão no chão, onde todos os jogos eu dormia sozinho. Acordei no dia seguinte, vi que não tinha ninguém no alojamento e vi que todos tinham esquecido de me acordar. Fiquei de fora de um jogo que era tão importante para minha vida... fiquei muito triste, chorei muito e quase fui embora", lamenta.
"Mas, ali, vi que Deus tinha preparado algo melhor para mim".
"Ainda havia o jogo de volta. Fui para o quarto dormir no chão novamente. Acordei no dia seguinte, fui para o jogo, joguei bem e fui visto pelo técnico Aarão Alves, que disse que no fim do campeonato eu poderia fazer um teste no Santos. Chegando no Santos, eu contei a história para ele, que não me levaram para o jogo. Fiz o teste e fui aprovado", celebra.
Agora, titular da equipe sub-20 na Copinha, Vitor Guedes, inclusive, já assinou contrato profissional com o "Peixe". Seu vínculo vai até 2020. Nesta sexta, às 19h15, o Santos pega o Aliança-CE, pela segunda rodada do torneio.
"Isso foi só um pouco da minha história do que aconteceu. Ainda tem muito para acontecer. Hoje em dia deito na cama todas as noites para dormir e penso o quanto sofri, o quanto chorei e o quanto pedi a Deus para que ficasse bem. Troquei minha infância para viver o meu sonho. Agradeço a Deus por essas oportunidades e a essas pessoas que sempre acreditaram no meu trabalho. Às pessoas que nunca me desejaram mal, que nunca torciam pela minha queda, mas pela minha melhora. Eu creio que mais lá para frente, onde Deus tem planos melhores para mim, estarei honrando todas as pessoas e dando um abraço apertado dizendo: obrigado a todos pelo que fizeram por mim. Obrigado a todos", finaliza.
