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Ney Franco vê técnicos estrangeiros 'mais protegidos' no Brasil e dispara sobre SAFs: 'Utilizada por alguns clubes para dar calote'

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Ney Franco diz que técnicos estrangeiros são 'mais protegidos' no Brasil e levanta debate sobre demissões: 'Se você não ganha, rapidamente perde espaço' (2:20)

Treinador concedeu entrevista exclusiva à ESPN (2:20)

Filipe Luís, Tite, Hernán Crespo, Dorival Júnior, Vojvoda... a temporada do futebol brasileiro ainda está no primeiro semestre, mas a demissão de treinadores já extrapolou, com sobras, a quantidade de meses no ano. E para quem já passou por esta situação, não há qualquer tipo de espanto em relação a este cenário.

O número de demissões de técnicos no Brasil virou pauta até mesmo na imprensa internacional. O tradicional jornal As, da Espanha, por exemplo, classificou o futebol brasileiro como uma espécie de "inferno" para os treinadores. E o número de chegadas e saídas de comandantes no mercado nacional aumenta cada vez mais.

Em entrevista à ESPN, antes de deixar o comando do Al Hussein, da Jordânia, e ficar livre no mercado, o experiente Ney Franco, que acumula passagens por grandes clubes do país como Flamengo, São Paulo e Cruzeiro, inclusive com conquistas a nível nacional e internacional, falou sobre a constante - e cada vez maior - pressão em cima dos treinadores no país e revelou já ter sentido na pele o que seus companheiros de profissão vivenciam no atual cenário.

Ney deixou claro que a questão não passa pela nacionalidade dos treinadores, já que até mesmo os estrangeiros muitas vezes são alvo das demissões "relâmpago" no Brasil. Mas, citou a diferença na legislação como um "adversário à parte" no que diz respeito aos técnicos brasileiros, que acabam menos "protegidos".

"É (cada vez) pior, e a gente sente na pele. Eu sou um treinador que já dirigiu times de Série A, com títulos nacionais, e de repente, no meu caso, o mercado de uma hora para a outra, ficou fechado para muitos treinadores. Tudo com imediatismo, você pega um time, se você não ganha, você rapidamente perde o seu espaço", disse.

E a solução para muitos treinadores brasileiros acaba sendo a buscar por mercados no exterior, incluindo a própria América do Sul, como pontuou Ney.

"Na América do Sul mesmo, você vê o Mano Menezes na seleção do Peru, o Zé Ricardo também está fora (no Sporting Cristal), o Tiago (Nunes), a gente vê o (André) Jardine fazendo um bom trabalho no México, o Carille agora no Mundo Árabe. Estamos começando de novo a achar este mercado no exterior. E no Brasil sempre foi isso, independentemente da nacionalidade, se é treinador brasileiro ou estrangeiro, parecia que isso iria melhorar, mas a cobrança continua sendo exagerada", prosseguiu.

"Nós treinadores brasileiros, quando somos dispensandos, o clube praticamente negocia o que ele te deve, da forma como ele quer. Nem as leis trabalhistas do Brasil mais protegem o treinador brasileiro. O estrangeiro, não, já é regido pela Fifa. Se ele é mandado embora, o clube tem que pagar tudo, e isso acaba segurando um pouquinho os treinadores estrangeiros, mas mesmo assim, perdeu três, quatro (jogos), já está sendo mandado embora também. O que comprova que o problema do futebol brasileiro com treinador não é questão se é brasileiro ou não, é cultural, e isso prejudica muito o nosso futebol."

"Isso é um sinal que, nós treinadores brasileiros, em alguns momentos é melhor até trabalhar no mercado do exterior do que trabalhar nessa loucura, nessa falta de respeito, principalmente com o treinador brasileiro. Acho que estamos achando um outro mercado onde somos mais protegidos e, consequentemente, mais valorizados."

'Independentemente se fala bem, se tem erro de concordância, é resultado'

No fim de março, após derrota do São Paulo para o Palmeiras, o técnico Roger Machado virou o centro de uma polêmica após usar termos técnicos (como "gatilho da bola rodada para trás"), o famoso "tatiquês" na linguagem popular, para explicar o gol sofrido por sua equipe no clássico.

Em entrevista recente à ESPN, Roger tocou no assunto e afirmou que a crítica é válida, mas "torna quem busca conhecimento em vilão", em um país que a educação é onde mais se precisa aplicar recursos.

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7:25
Roger, sobre críticas: 'Não falo difícil para mostrar conhecimento; mas não quero perder minha essência'

O técnico concedeu entrevista exclusiva à ESPN

E para Ney Franco, independentemente da linguagem usada pelos treinadores, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, a questão segue enraizada no resultado que é entregue dentro de campo. E lembrou, inclusive, de uma situação que vivenciou no Goiás, citando também como exemplo Marcelo Oliveira, que foi bicampeão brasileiro com o Cruzeiro.

"Eu não acredito que exista esta questão, eu acredito em resultado. Independentemente se é treinador brasileiro ou estrangeiro, se fala bem, se tem erro de concordância, é resultado. Tivemos experiências recentes, agora e antigamente, de treinador que é campeão brasileiro em uma temporada, e no ano seguinte perde um Estadual e já é mandado embora... Tudo é resultado, independentemente de como chegou no clube, se ganha muito ou pouco, se tem uma multa rescisória alta ou não, o ponto inicial é resultado", disse.

"Eu já estive em clubes em que fui questionado, que começamos a ganhar, fomos campeões, e tudo muda. Da mesma forma que você é criticado, quando você começa a ganhar, você também é colocado em um pedestal. Eu tenho uma experiência, por exemplo, no Goiás, em 2018, que eu peguei a equipe na Série B, conseguimos uma arrancada com um time que era vice-lanterna, e de repente a gente subiu, você era o maior treinador do Goiás, e depois na temporada seguinte, você deu alguns deslizes, de repente você já não é o treinador que serve para aquele clube", prosseguiu.

"Isso vale para qualquer treinador, o Marcelo Oliveira foi bicampeão brasileiro com o Cruzeiro, depois na temporada seguinte já não valia porque ele não teve resultado. Como já teve estrangeiros que passaram por esta situação. A palavra nossa é resultado o tempo todo, e você tem que ter força mental para aguentar este suporte, ser treinador de futebol, hoje, não é só entender de parte técnica, tática, desenvolver um treinamento de qualidade, você tem que aguentar essa pressão, e o resultado que define o seu tempo no clube. Infelizmente, é desta forma que funciona."

Por último, Ney Franco ainda levantou um debate sobre as SAFs no país, que foram vendidas como uma "solução" para muitos clubes brasileiros, mas que no fundo não resolvem, de fato, os principais problemas dos mesmos.

E mesmo com todas as questões que envolvem os técnicos no país e a pressão exercida sobre eles, afirmou que foi preparado para atuar no futebol brasileiro, onde passou praticamente toda a carreira, à exceção do seu trabalho mais recente, na Jordânia.

"Vendeu-se a imagem da SAF, que ela salvaria o futebol brasileiro. Na realidade, estamos percebendo que a SAF está sendo utilizada por alguns clubes para dar um calote em profissionais. Um clube que está devendo entra na SAF, praticamente a Justiça brasileira passou em cima dos direitos trabalhistas da maioria dos jogadores, estou falando isso com propriedade porque têm dois clubes que eu saí e praticamente deram um 'Tomé' (tirar vantagem) na gente, devido à questão da SAF. Infelizmente, está acontecendo no futebol brasileiro de equipes se tornando SAF para sair de dívidas, mas que já estamos percebendo que, dependendo da SAF, ela não é a saída do futebol brasileiro. Os problemas estruturais do futebol brasileiro são muito piores do que isso", disse.

"O meu sonho de consumo é trabalhar no Brasil, mesmo com todos estes problemas. Mesmo com todos estes problemas de cobrança, eu prefiro a cobrança do futebol brasileiro, eu fui preparado, estou preparado para dirigir qualquer time do futebol brasileiro, de Série A, Série B, a minha grande motivação é trabalhar em um clube brasileiro, mas a gente percebe que, independentemente da nacionalidade, a gente vê grandes clubes brasileiros com treinadores contratados recentemente que já se discute se o treinador vai ficar ou não", prosseguiu.

"A cobrança é muito grande, mas estou totalmente adaptado a isso, se pudesse escolher trabalhar no Brasil, logicamente que gostaria de estar aí, é o meu país, sei como funciona, me identifico com isso, estou perto dos meus familiares. É desta forma que eu vejo o futebol, mas vejo muita dificuldade a gente mudar isso daí, o treinador realmente é o que paga, é o primeiro quando um trabalho não dá certo", finalizou.