Atualmente no São Paulo, Roger Machado sofre no Morumbis o mesmo "hate" desde o início da sua carreira: as críticas pela forma com que aborda o futebol nas suas entrevistas, com termos do "tatiquês" que acabam causando polêmica a cada coletiva pós-partida.
De "regra do gatilho da bola rodada para trás" (quando Roger pede para o time pressionar e o adversário sem espaço não consegue quebrar linhas e apenas toca para trás) a "cruzamento de quina" (cruzamento feito com a ponta do pé), Roger coleciona termos técnicos que ganharam mais destaque do que de fato o conteúdo que as palavras ditas pelo treinador expressam em campo. À ESPN, o treinador do São Paulo abriu o jogo sobre a situação.
Sincero, Roger assumiu uma "culpa" caso o torcedor não entenda tal termo e admitiu que todo técnico precisa se adaptar caso a comunicação não seja a mais clara possível. E explicou que tais termos são ditos por ler e estudar bastante sobre o futebol, onde tais elemento estão presentes em livros do esporte.
"O torcedor tem o direito de gostar ou desgostar do treinador, dependendo do seu estilo de jogo ou da forma de comunicação que ele tem. Se o torcedor não compreende, cabe ao treinador se adaptar. E essa é a minha culpa naquele momento ali".
"Por viver tanto o jogo e ler bastante sobre futebol, saindo do jogo envolvido emocionalmente com a partida, às vezes você esquece de trocar o chip para alinhar a comunicação que você precisa com aquele torcedor, que deseja que o treinador se conecte muito mais com a sua emoção do que com a razão, de uma explicação mais detalhada do todo. Essa é a minha culpa e aceito ela", completou.
Roger também é um treinador que fala abertamente sobre política. Além disso, ocupa um posto raro no futebol brasileiro: ter um técnico negro na Série A. Além do comandante do São Paulo, Jair Ventura, do Vitória, é o outro.
"Falar sobre outras questões extracampo impactam, sobre as minhas posições sociopolíticas, de alguma forma, a gente pode entrar no debate do número de treinadores negros do país. A gente não conseguiria resolver em apenas uma pergunta. É um debate que precisa ser ampliado, ao mesmo tempo que o futebol é um espaço que confere ao ex-atleta prestígio social, indivíduos que depois saem do campo e almejam outro lugar dentro dessa estrutura sofrem resistência. Mas é um debate importante", disse Roger, antes de seguir falando sobre o 'boom' da renovação dos técnicos pós-7 a 1.
"É um fenômeno desse momento que a gente vive, com um pouco do desprestígio do treinador brasileiro. Na Copa do Mundo que teve no Brasil, a figura dos profissionais que prestaram serviços para o Brasil depois da perda em casa... aqueles profissionais todos foram ditos como ultrapassados, com pedidos por renovação. Eu entrei nessa renovação, eu surfei essa onda, assim como outros treinadores jovens que eram pedidos naquele momento. Treinadores jovens, atualizados e estudiosos. Muitos de nós entramos. Alguns permaneceram, outros talvez não tenham dado a resposta imediata".
Além da renovação dos técnicos, o futebol brasileiro viveu outro fenômeno a partir de 2019: a entrada em massa dos técnicos estrangeiros, em especial portugueses. Roger pregou respeito aos profissionais e voltou a falar dos termos técnicos, onde outros treinadores também abordam muito pelo conhecimento que adquirem na leitura.
"Começou a entrada dos treinadores estrangeiros, que eu não tenho nada contra. Há uma demanda de necessidade nossa como treinadores brasileiros, que fomos estrangeiros em outros lugares, levando a nossa cultura para lá. Mas vindo profissionais de outra cultura se aceita melhor o vocabulário mais distinto e tal. Mas os mesmos livros que eles leram eu também li. Passamos pelos mesmo lugares. Eu não falo difícil para mostrar que tenho mais conhecimento. Mas, ao ler, você assume e absorve o palavreado, o linguajar, a expressão daquele lugar. E como a gente vive, na verdade, dentro e se conectando com o fora, essa mudança no meio do caminho precisa ser relativizada com a nossa mudança de chip. Eu juro que estou me policiando. Eu entendo que é necessário".
"A comunicação é muito mais o que o outro entende do que o que a gente está dizendo. Não quero também perder a minha essência. A crítica é válida, mas tornar aquele que busca conhecimento como se fosse quase uma falha, um vilão da história, em um país onde sabemos que a educação é onde mais precisamos aplicar recursos".
Roger também comentou sobre o baixo número de técnicos negros no futebol brasileiro. Seria um racismo na profissão? O técnico do São Paulo afirmou que o baixo número faz com que seja necessário um debate mais amplo sobre a situação. No entanto, admitiu que o baixo número de negros em gestão, principalmente comparado ao número de atletas negros, traz uma reflexão importante.
"Se a gente imaginar a proporcionalidade do campo quando atletas, ainda não representa essa proporção (de poucos treinadores negros do futebol brasileiro). Se a gente pegar no campo, talvez a gente seja a representatividade da população brasileira, é quase meio a meio. E quando a gente alcança os cargos de gestão... é fácil lembrar: tem eu e Jair Ventura, o Cristõvão Bórges já esteve, o Marcão quando está no Fluminense. Novamente, é um debate importante, para no mínimo tentarmos entender a proporcionalidade (negros x brancos) do campo desaparece nos outros andares dessa pirâmide do futebol. Tomou esse caminho pelo mesmo motivo que o futebol traduz o que somos como sociedade, com todas as nossas qualidades e todas as questões que temos a resolver".
"O ambiente histórico do país está posto. O que gente precisa neste momento é criar alternativas para que esses indivíduos tenham mais acesso, que não sejam reservadas vagas para apenas um grupo. Sou a favor de entender. Já demos passos importantes para lidar com discriminação e racismo dentro dos estádios. Punindo e educando, mas é preciso criar espaços para acessos. Nesse lugar, cumpro uma função importante, que é fazer e ajudar com que permaneçam portas abertas para que outros acessem. É um cenário parecido com o que nós vivemos como sociedade. O futebol acaba cristalizando alguns aspectos que somos socialmente, e a gente resolve coletivamente", finalizou.
Próximos jogos do São Paulo:
Internacional (F) - 01/04, 19h30 (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Cruzeiro (C) - 04/04, 18h30 (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Boston River (F) - 07/04, 21h30 (de Brasília) - CONMEBOL Sul-Americana
