Ary Borges desabafa sobre bastidores nos EUA e cobra respeito ao futebol feminino no Brasil: 'Que um dia a gente chegue nisso'

Ary Borges, da seleção brasileira e do Angel City FC, vive uma realidade bem diferente daquela que conheceu quando criança no Maranhão.

Hoje, nos Estados Unidos, a meio-campista contou com exclusividade à ESPN como é diferente o tratamento dado ao futebol feminino por lá. A atleta percebeu que, no país, a modalidade é tratada de forma natural e respeitada, algo que, segundo ela, ainda está longe de acontecer plenamente no cenário brasileiro.

A comparação veio à tona quando Ary refletiu sobre o cotidiano fora de campo e sobre como o futebol feminino é visto pela sociedade norte-americana.

“Aqui é muito, muito natural, sabe?”, disse ao falar sobre o ambiente que encontrou ao chegar aos Estados Unidos.

Para a brasileira, a diferença vai muito além da estrutura ou da competitividade dentro das quatro linhas. O ponto principal está na forma como as pessoas encaram o esporte praticado por mulheres.

“Uma das coisas que eu mais senti diferença quando eu cheguei é a forma como as pessoas tratam a modalidade. É completamente diferente do que a gente tem no Brasil”.

Ary explicou que, culturalmente, existe uma aceitação muito maior. O futebol faz parte da vida das meninas desde cedo e é incentivado dentro das próprias famílias. Em uma conversa com pais norte-americanos, a jogadora ouviu algo que, para ela, resume bem essa mentalidade.

“Quando eu soube que eu ia ter uma menina, eu queria colocar minha filha para jogar futebol”.

Para a meio-campista, esse tipo de pensamento mostra como o futebol feminino já faz parte do cotidiano dos Estados Unidos. No Brasil, segundo ela, o esporte até cresceu em visibilidade nos últimos anos, mas ainda precisa avançar no aspecto mais básico: o respeito às mulheres dentro do futebol.

“Acho que crescer, talvez, é até a palavra errada. Talvez seja realmente respeitar que a gente chegou. Eu espero que um dia no Brasil a gente chegue a esse ponto… É o momento de aceitarem e respeitarem que hoje as mulheres estão desempenhando bem os seus papéis dentro do futebol”.

Copa do Mundo no Brasil e o retorno à seleção

Apesar dos desafios ainda existentes, Ary acredita que um evento pode ajudar a mudar esse cenário no país: a Copa do Mundo feminina de 2027, que será realizada no Brasil.

Para a jogadora, sediar o torneio representa uma oportunidade única para ampliar o olhar do público sobre o futebol feminino e gerar impacto direto no desenvolvimento da modalidade.

“Fiquei muito feliz de saber que o nosso país vai sediar uma Copa do Mundo. As expectativas são muito grandes, não só para a gente que vive ali dentro da seleção brasileira, mas também olhar para o que a Copa pode trazer para a gente, para a nossa modalidade no futebol brasileiro. Eu acho que a Copa pode trazer um grande impacto”.

Dentro da seleção brasileira, Ary Borges sempre foi vista como peça importante, seja pela qualidade técnica ou pela liderança dentro do grupo. Porém, a última edição dos Jogos Olímpicos, disputada em Paris, em 2024, acabou sendo um período difícil na carreira da meio-campista.

Uma sequência de lesões a tirou da lista de convocadas do técnico Arthur Elias, frustrando o sonho de disputar o torneio.

Agora recuperada, Ary trabalha para voltar a vestir a camisa da seleção e se coloca novamente como opção para o ciclo que culminará justamente na Copa do Mundo no Brasil.

“Foi muito difícil para mim ter ficado fora das Olimpíadas. Isso não só fisicamente, mas também mentalmente. Foi um momento bem difícil para mim, porque queria estar lá, queria estar brigando. Estava dentro do grupo ali até a primeira lesão que eu tive. Depois voltei e tive uma outra logo em seguida, que aí acabou pegando um pouco mais de tempo. Mas para mim é como eu falei, é sempre um prazer, sabe? Vestir a camisa da seleção brasileira é o sonho de qualquer jogadora. Não é diferente para mim e eu trabalho muito por isso”.

Marta na Copa do Mundo?

Quando o assunto é liderança dentro da seleção, um nome inevitavelmente surge: Marta. A camisa 10 segue como a maior referência do futebol feminino brasileiro e ainda gera debate sobre sua presença na Copa do Mundo de 2027.

Ary não esconde a admiração pela “Rainha” e reforça o tamanho da importância que ela tem dentro e fora de campo.

“Para falar a verdade, eu particularmente não sei (se vai jogar), mas ela é a maior referência que a gente tem, enquanto ainda está jogando e quando ela parar de jogar. A Marta sempre vai ser a Marta quando se falar de futebol feminino”.

Mais do que um ídolo, Marta representa liderança dentro do grupo da Seleção algo que Ary faz questão de destacar.

“Ela é nossa capitã, nossa líder, nossa camisa dez. A pessoa que chama a responsabilidade quando a gente precisa. Foi assim na final da Copa América. E como eu falei, para mim é um sonho poder dividir a seleção brasileira com ela, já que a gente se enfrenta.

Entre o respeito conquistado no exterior e a esperança de evolução no Brasil, Ary Borges segue vivendo o futebol em alto nível. E, enquanto trabalha para voltar à seleção, mantém também um desejo claro: ver o futebol feminino brasileiro alcançar o mesmo reconhecimento que ela hoje encontra fora do país.