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Ele desafiou o preconceito ao se declarar gay no futebol e viralizou com pedido de casamento em campo

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Transformando o medo em liberdade! Joshua Cavallo é o único jogador em atividade das principais ligas a se assumir gay: 'Eu não poderia estar mais orgulhoso' (3:33)

O atleta de 24 anos é lateral-esquerdo do Adelaide United, da primeira divisão do futebol australiano (3:33)

Joshua Cavallo escolheu o palco onde defende o Adelaide United, da Austrália, para pedir o namorado Leighton Morrell em casamento. A demonstração de amor em março deste ano não apenas ganhou as manchetes como também mexeu com o mundo, especialmente por se tratar de uma relação homoafetiva envolvendo um jogador profissional de futebol.

O australiano se assumiu em 2021 por meio de um vídeo nas redes sociais.

"Encontrei minhas asas no Adelaide United FC, uma casa onde o verdadeiro Josh Cavallo se anunciou ao mundo. Eu queria fazer o pedido em um lugar onde eu me sentisse em casa e onde parecesse certo. Eu também queria fazer isso para trazer meu noivo ao meu mundo, para participar da minha jornada, de quem eu sou", disse Cavallo à ESPN.

Sendo o único jogador em atividade das primeiras divisões do mundo a se assumir gay, Josh disse que transformou o sentimento de medo em liberdade e que a “simples” decisão de assumir publicamente sua orientação sexual o fez ter muito orgulho de si mesmo.

"Eu estava ciente de que poderia haver muitas reações ou comentários negativos. E a realidade é que, sim, há muita negatividade e ódio, mas eu não poderia estar mais orgulhoso de ser quem sou hoje. Eu queria mostrar o caminho e mostrar que é possível ser homossexual e jogar futebol. É possível ser você mesmo e jogar futebol, não importa quem você é, de onde vem, em que acredita ou qual é sua formação", afirmou.

"Não sabia se depois desse anúncio eu ainda teria um contrato com meu time ou se eu não seria mais jogador de futebol por causa da minha sexualidade, dos pensamentos e processos que envolvem isso. Pensando nisso naquela época, é realmente muito triste."

Antes de se assumir, Cavallo revelou que inventava histórias para se sentir incluso nas conversas entre seus companheiros, fingindo, por exemplo, ter encontros com mulheres.

"Depois percebi que não preciso mais pensar no que vou dizer nos vestiários ou no campo quando fazemos uma pausa, quando tinha uma pergunta sobre como foi seu encontro no cinema com sua namorada ou algo parecido, e isso enquanto eu estava tentando ser futebol profissional. Eu tinha que fazer malabarismos na minha cabeça e inventar histórias de que eu estava com uma garota e outras coisas, o que não era verdade. Foram mentiras."

Mas a trajetória dele na luta contra a homofobia não ficou mais amena após ele ter assumido, muito menos pedido o namorado em noivado. Ela prossegue. O australiano precisou lidar com o preconceito onde menos imaginava: dentro do próprio time.

"Ao longo dessa jornada de me assumir e ser um jogador de futebol em atividade, eu tenho batalhas e desafios. Há alguns colegas no meu vestiário que não usariam a camisa do Orgulho e não concordam com o que estou fazendo. E isso aconteceu recentemente no meu time. Portanto, sempre há batalhas contínuas que estamos enfrentando."

A experiência fez com que ele buscasse ajudar outras pessoas da comunidade LGBTQIA+ que passa pelos mesmos desafios que ele passou. Para isso ele usa as próprias redes sociais. Tem quase um milhão seguidores no Instagram, e é uma referência.

"Eu não tinha nenhuma referência no futebol que eu pudesse admirar e dizer que queria copiar. Eu trabalho com muitos atletas em todas as minhas redes sociais para ajudar a orientar as pessoas. Todo mundo é diferente, e eu tive a minha própria jornada. Tenho a honra de poder ajudar quem entra em contato e pede meu apoio. Eu sinto um senso de responsabilidade porque eu sei, vejo e sinto todas as mensagens que recebo e as pessoas que me procuram precisam dessa voz. E não faz muito tempo era eu quem precisava."

No passado, outros jogadores tentaram sair do armário, mas a história foi cruel com eles. O caso mais emblemático é também o primeiro que se tem registro no futebol: Justin Fashanu.

Joia da base do Norwich no final dos anos 70, o inglês acabou perambulando por equipes menores a partir do momento que passaram a suspeitar da opção sexual dele Nottingham Forest, então bicampeão europeu, já nos anos 80. Em 1990, quando estava em um time canadense, deu uma entrevista ao tabloide "The Sun" assumindo a homossexualidade. Foi um escândalo.

Oito anos depois, quando Fashanu estava aposentado, cometeu suicídio na Inglaterra. Na época, ele enfrentava uma acusação de estupro de um menor nos EUA e o peso de ter assumido algo que até hoje é um tabu dentro do futebol masculino mundial.

Não é o que Josh tem experimentado. Ao contrário, outros atletas apoiaram quando ele se assumiu. E alguns se inspiraram, como Jake Daniels, do Blackpool, que está emprestado ao Bradford Park Avenue, da sétima divisão inglesa. Ele assumiu em 2022, quando tinha 17 anos, e chegou a ser parabenizado pelo então ministro britânico Boris Johnson.

"Enquanto eu estava tentando ser jogador de futebol profissional, eu tinha que fazer malabarismos na minha cabeça e inventar histórias de que eu estava com uma garota e outras coisas, o que não era verdade. Foram mentiras. Você vê o futebol feminino e é absolutamente fenomenal quantas pessoas estão se abraçando. E isso é encorajado. Eu me sinto determinado a fazer isso no futebol masculino. Então, eu não sei por que, mas eu gostaria de ser o primeiro ponto de virada. Ser homossexual e jogar futebol profissionalmente é uma realidade, e eu sou uma prova viva disso", disse.

Há algum tempo, Cavallo participa de conferências pela Europa para debates sobre diversidade, contando suas experiências na busca por um mundo que tenha mais tolerância e respeito, citando países onde a homossexualidade ainda é crime, como a Arábia Saudita.

"Na semana passada, eu estava na Alemanha. É muito triste que a realidade seja que, se você olhar para qualquer post de orgulho anunciado no mundo do futebol nas redes sociais, basta ver os comentários que explica isso por si só", disse.

"Ainda temos um longo caminho a percorrer e esses foram fatores importantes sobre os quais falamos. Sediar Copas do Mundo na Arábia Saudita [a última foi no Qatar, em 2022], esse é um lugar onde se eu pisasse para representar meu país na Copa do Mundo, você sabe, minha vida estaria em risco", finalizou o jogador do Adelaide United.