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Quase sete horas de viagem para jogar em casa e artilheiro que buscava clube pelo Facebook: time boliviano com cara de Brasil vai estrear na Libertadores

San Antonio Bulo Bulo fez história no futebol boliviano Divulgação/San Antonio Bulo Bulo

Há um pouco de Brasil em Bulo Bulo, uma região simples, com pouco mais de 3.500 habitantes, bem no centro da Bolívia. Quem olha à primeira vista pode até se confundir: o escudo do clube local é quase idêntico ao da seleção brasileira. Até as cinco estrelas estão lá. Nada a ver com um pentacampeonato mundial. As estrelas do San Antonio representam títulos de associações, campeonatos regionais, algo distante da nata do futebol. Até o ano passado, o time nunca havia jogado a primeira divisão do Campeonato Boliviano. Em 2025, vai jogar a CONMEBOL Libertadores pela primeira vez.

A vaga no torneio continental é histórica. Foram menos de três meses entre a estreia na elite boliviana, em 20 de fevereiro deste ano, e a conquista do primeiro título nacional, no último domingo (05). O feito surpreendente teve o comando do técnico brasileiro Thiago Leitao e contou com o brilho de dois atacantes: Daniel Passira, também brasileiro, e Felipe Pasadore, um argentino de 23 anos que começou a carreira como defensor e, até o fim de 2022, usava o Facebook para procurar clubes para atuar.

O duelo decisivo, disputado contra o Universitario de Vinto, aconteceu no estádio Dr. Carlos Villegas, onde o San Antonio Bulo Bulo manda seus jogos. A 'cancha' tem capacidade para 17 mil pessoas e fica em Entre Ríos, a 20 minutos de Bulo Bulo. Para chegar até lá, porém, os mandantes encaram quase sete horas de viagem. O elenco treina e mora em Cochabamba, uma cidade mais desenvolvida, a 362 quilômetros de distância. Essa é apenas uma das histórias do clube que surpreendeu a Bolívia e, agora, vai se aventurar pela América do Sul.

A cara do Brasil

É impossível não reparar na semelhança. O escudo do San Antonio Bulo Bulo sempre teve o mesmo formato e cores usados pela seleção brasileira. A principal diferença é uma cruz no meio. A explicação é simples: o clube tem raízes religiosas. Foi fundado pelo padre Félix Pascual, da paróquia de San Antonio, em 1962. Em 14 de fevereiro de 2021, sob o comando de Juan Tardío, foi refundado. O atual mandatário é um grande fã do futebol brasileiro. A combinação não poderia ser melhor.

Não é incomum que times bolivianos 'copiem' escudos de equipes famosas. O do Nacional Potosí, que está disputando a Sul-Americana, lembra o do River Plate; do Real Potosí, o do Real Madrid. Mas o que foi visto no Brasil como uma homenagem não é sempre bem-visto na Bolívia.

Em dezembro do ano passado, quando o San Antonio Bulo Bulo garantiu vaga na primeira divisão do Campeonato Boliviano, o clube entendeu que era o momento de mudar, de marcar uma nova fase -- e isso seria feito com o lançamento de um novo escudo. Foi divulgado, então, um concurso. "Com nosso acesso, vem um novo capítulo. Queremos um escudo que conte nossa identidade", dizia a publicação, nas redes sociais.

As exigências eram de que o novo escudo deveria conter a imagem de uma fábrica de fertilizantes localizada em Bulo Bulo e as cores verde, branco e azul celeste. O prêmio para o vencedor seria uma camisa oficial do acesso da equipe à elite. Foi dado o prazo de uma semana para os envios.

O vencedor não foi divulgado, e o time disputou a primeira divisão com o escudo quase igual ao da CBF. Tardío revelou à ESPN que nenhum desenho novo agradou. Agora parece ser tarde para mudar. No último domingo, a imagem do escudo rodou a internet nas redes sociais da Conmebol, que anunciou: "O San Antonio é o primeiro time classificado à Libertadores de 2025. Será a estreia dos bolivianos na busca pela glória eterna".

Viagens de quase sete horas para jogar em casa

A vaga à Libertadores vai render 3 milhões de dólares (cerca de R$ 15,4 milhões) ao San Antonio Bulo Bulo. O valor, comparado à realidade do clube, é enorme. A atual folha salarial gira em torno de 80 mil dólares (por volta de R$ 412 mil). É a menor da elite boliviana.

A equipe não tem centro de treinamento nem estádio próprios -- o que faz cada jogo como mandante ser quase uma odisseia, com longas viagens e diferentes altitudes. O contexto social também contribui para isso.

É preciso entender a geografia boliviana: o departamento de Cochabamba, algo como um estado no Brasil, abriga as quatro regiões, como as cidades, pelas quais o San Antonio se desloca: a capital Cochabamba, homônima ao departamento, Bulo Bulo, Entre Ríos e Villa Tunari.

A região de Bulo Bulo, que dá nome ao clube, é pouco desenvolvida. O movimento é baixo e quase não há escolas e outros locais para frequentar. No começo do ano, o time teve dificuldades para contratar jogadores. Muitos não queriam levar as famílias para lá. A solução encontrada foi que o elenco treinasse e morasse na capital, a mais de 300 quilômetros de distância. A viagem de ônibus dura quase sete horas.

O estádio Dr. Carlos Villegas, casa do San Antonio, fica em Entre Ríos, a cerca de 20 quilômetros de Bulo Bulo -- um trajeto de pouco mais de 20 minutos -- e a 267,6 quilômetros da capital.

Quando a equipe vai atuar como mandante, viaja de três a quatro dias antes. A questão não é apenas o tempo de deslocamento, mas também uma necessária adaptação: Cochabamba, onde moram, tem por volta de 2.500 metros de altitude. Bulo Bulo e Entre Ríos estão a somente 240 metros acima do nível do mar. As diferentes condições atmosféricas costumam mexer com quem não está acostumado. A partir de 2.300 metros, pode haver sintomas como dificuldades para respirar, vômitos, aumento da frequência cardíaca e dor de cabeça.

Nos dias em que está nas regiões mais baixas, o elenco costuma treinar no Centro de Alto Rendimento da Villa Tunari. É um espaço com campo moderno, academia, quadras cobertas e um hotel, que foi construído pelo governo para atrair atletas. O problema, mais uma vez, está na distância: de lá ao estádio em Entre Ríos, são quase duas horas e meia de viagem.

"Temos de ir buscando campos para treinar, precisamos contar com apoio de alguns municípios para conseguir locais em condições. É meio que uma vida de cigano", disse o técnico Thiago Leitao, à ESPN.

"Com a injeção econômica que vamos ter com a classificação para a Libertadores, o projeto é que nossa diretoria possa começar a construção de um centro de treinamento em Bulo Bulo ou Entre Ríos para termos nossa casa", completou.

A Conmebol exige que os estádios da fase de grupos da Libertadores tenham capacidade mínima de 10.000 espectadores. Para as oitavas, o mínimo é de 20.000 -- caso a equipe avance, não poderá mandar partidas no Dr. Carlos Villegas. O clube, de acordo com o presidente Tardío, já está conversando com prefeito e governador para investimentos em aeroportos e no estádio, a fim de estar perto de sua torcida.

Técnico brasileiro ajudou no crescimento do clube

Em abril de 2022 o clube boliviano fez uma publicação nas redes sociais. "O San Antonio Bulo Bulo quer incorporar em sua equipe de trabalho um ou uma fisioterapeuta. Os interessados devem mandar currículo e pretensão salarial no nosso número de celular ou e-mail", dizia o comunicado. A publicação teve 13 curtidas e cinco compartilhamentos. Um retrato de um time, até então, beirando o amadorismo.

A situação mudou. Em 2023, foi anunciado um novo técnico: o brasileiro Thiago Leitao. O treinador, de 45 anos, foi meio-campista. Revelado pela Ponte Preta no fim da década de 1990, teve passagem também pelo Ceará. No início dos anos 2000, foi levado por um olheiro ao Jorge Wilstermann, da Bolívia, e fez carreira no país. Assumiu o comando de uma equipe pela primeira vez em 2019, no Aurora. Passou por San José, Palmaflor, Always Ready e Blooming, todos bolivianos, antes de chegar ao San Antonio.

A comissão técnica conta com outro brasileiro: João Paulo Barros, auxiliar técnico. Há ainda um argentino, um colombiano e um boliviano. O salário é pago integralmente a Thiago Leitao, e ele tem a responsabilidade de dividir com os companheiros de trabalho.

"A diferença salarial [para os profissionais do Brasil] não é muita. Se fizer a conversão do dólar para o real, fica na faixa paga por clubes médios do Brasil. É um valor bacana, dá para viver bem, guardar dinheiro, investir e ter profissionais do corpo técnico felizes", disse Leitao.

Primeira vez na elite

A atual comissão técnica assumiu o trabalho em julho do ano passado. Menos de seis meses depois, conseguiu o inédito acesso à primeira divisão. A equipe foi vice-campeã da Copa Símon Bolívar, equivalente à Série B do Brasil, perdendo a final para o GV San José nos pênaltis. O time de Bulo Bulo foi derrotado no primeiro jogo, em casa, por 1 a 0, e venceu a volta pelo mesmo placar, fora.

A vaga para a elite foi decidida contra a Libertad Gran Mamoré, vice-lanterna na primeira divisão naquele ano, em um play-off. O San Antonio venceu a primeira partida, jogando diante de sua torcida, por 2 a 0. Na volta, porém, perdeu pelo mesmo placar e mais uma vez foi encarar uma decisão por penalidades. O resultado, enfim, foi feliz: vitória por 4 a 2 e acesso garantido.

"Foi a primeira vez que dirigi um clube na segunda divisão, um projeto legal, bacana, eu já conhecia. Vi que era um clube sério, aceitei e subimos. Está sendo uma experiência maravilhosa", exaltou Thiago Leitao.

DVD fez atacante brasileiro reforçar a equipe

Para a estreia na elite, o San Antonio Bulo Bulo manteve sete nomes do time titular. Mas também era preciso se reforçar. A contratação mais certeira foi de um brasileiro: Daniel Passira. O atacante, de 27 anos, leva no nome a cidade onde nasceu, em Pernambuco. Ele estava no MAC, do Maranhão, até fevereiro deste ano, quando recebeu o convite.

"Vimos o DVD dele e trouxemos", contou o auxiliar João Paulo Barros. E a negociação não foi mesmo difícil. O jogador, que nunca havia atuado fora do país, se empolgou com a possibilidade, ainda que em um local sem muita expressão no futebol. "Quando meu empresário chegou para mim e falou [da proposta], eu não pensei duas vezes. Já fui arrumando as malas. No começo foi complicado, mas cada vez que joga vai se acostumando", revelou o jogador, à ESPN.

Daniel brilhou. Foi o vice-artilheiro do campeonato conquistado no último domingo, com dez gols, além de cinco assistências. "Eu não pensava que faria um campeonato tão bom, mas já estava bem fisicamente, então ficou mais fácil. A torcida me abraçou muito rápido. Eles amam estrangeiros", disse.

O atacante, apesar de alguma dificuldade com o idioma diferente, logo se sentiu em casa. O escudo ser parecido com o da CBF, claro, ajudou. "O escudo é muita resenha. Parece demais com o da seleção brasileira. Eu amei. Até me sinto jogando nela", brincou.

A relação com o Brasil vai além: na partida de ida da final da primeira divisão, os jogadores subiram ao campo com crianças vestidas com uma camisa brasileira. Não era um uniforme de jogo, mas tinha o escudo da seleção e o nome do país. O próprio clube foi quem forneceu o material.

Argentino buscava time pelo Facebook e virou artilheiro

Acima de Daniel Passira na artilharia do Campeonato Boliviano só esteve um jogador: o também atacante Felipe Pasadore, nascido na Argentina, que chegou ao San Antonio Bulo Bulo em janeiro de 2023. Ele já foi contratado pelo clube na posição de um camisa 9, mas o início da carreira foi como defensor.

Pasadore era um típico camisa 5 até 2021. Virou atacante por acaso. Um centroavante se lesionou e seu então técnico o mandou para o ataque. Deu certo: ele fez gol e não mudou mais de posição. A carreira, porém, não decolava.

No fim de 2022, o argentino teve uma ideia. Entrou em um grupo de Facebook chamado "Jogadores livres buscam clube" e fez uma publicação.

"Busco representante ou algum clube da AFA (Associação Argentina de Futebol)", escreveu. Nas descrições, apresentou suas características: atacante, canhoto, 22 anos, 1,78m, atualmente no Belgrano, de Cordoba". Ao fim, deixou um número de telefone para que entrassem em contato e vídeos de gols.

A ideia não funcionou, mas as coisas se ajeitaram na carreira do atleta. O técnico Julio Zamora, que já o conhecia, o levou ao San Antonio Bulo Bulo. O argentino fez 12 gols em 14 jogos na primeira divisão.

"Eu sonhava em ser artilheiro e tinha como objetivo desde o primeiro ano [no clube], mas não imaginava que isso aconteceria sendo campeão e da forma como foi", contou, à ESPN.

"O Felipe é extraordinário, humilde. Falo que ele não é do futebol, porque não tem malícia e jeito dos jogadores. Vive no mundo dele, se cuida muito. Tem porte físico avantajado. É um atacante que todo treinador gostaria de ter", disse Thiago Leitao.

Campanha surpreendente

A campanha do título do San Antonio Bulo Bulo na elite do futebol da Bolívia foi digna de filme. Em 14 jogos, a equipe conseguiu sete vitórias, três empates e apenas três derrotas.

"Ele fizeram um ótimo campeonato. Competiram de igual para igual com os grandes clubes aqui da Bolívia, então ficou uma impressão muito boa. Uma equipe que sobe para a primeira divisão [pela primeira vez] sempre encontra dificuldades. E aqui o time surpreendeu a todos. Ninguém esperava que fossem campeões", disse, à ESPN, Antônio Carlos Zago, ex-jogador brasileiro que é técnico da seleção boliviana.

No caminho para a taça, o San Antonio aplicou uma goleada por 5 a 1 no The Strongest, que venceu o Grêmio por 2 a 0 nesta edição de Libertadores. Nas quartas de final, eliminou o Bolívar, maior campeão nacional, com uma vitória por 1 a 0, em casa, e um empate por 1 a 1, fora.

Na semifinal, goleou o Independiente Petrolero por 6 a 1. Conquistou a vaga para a final mesmo tendo perdido a volta por 3 a 1.

A grande final foi disputada contra o Universitario de Vinto. Na ida, como visitante, o San Antonio Bulo Bulo venceu por 2 a 1. Um empate por 1 a 1 no Dr. Carlos Villegas, em um calor intenso em Entre Ríos, deu a taça e a vaga direta na fase de grupos da Libertadores de 2025.

"Há muito talento ali, queríamos democratizar e descentralizar o futebol na Bolívia. Nossa política e filosofia foi potencializar o talento futebolístico das províncias. E o San Antonio conseguiu o título com muita justiça e mérito", afirmou, também à ESPN, Fernando Costa, presidente da Federação Boliviana de Futebol.

Ano que vem tem Libertadores

O San Antonio Bulo Bulo vai agora disputar a outra parte do Campeonato Boliviano: o Clausura. Se vencer, como já é campeão do Apertura, se consolida como o único campeão nacional da Bolívia no ano. O restante da temporada será também uma preparação para fazer bonito na Libertadores.

"O dia a dia é muito complicado. Não é fácil, mas o desafio é o que move a gente. Estou muito feliz, muito identificado e espero poder ficar por muito mais tempo. A nossa expectativa é de crescer junto com o clube", finalizou Thiago Leitao.

*Colaborou Antônio Chamorro