O amigo mais fiel e mais antigo de Pelé, Manoel Maria relembra a primeira excursão de um time brasileiro ao Qatar, o país da Copa, longe da ostentação atual
Manoel Maria Evangelista Barbosa dos Santos tem 74 anos.
No final dos anos 1960 e no início dos 1970 ele fez parte do timaço do Santos, formando aquela que é considerada a terceira e última geração da era Pelé.
Foi um camisa 7, um ponta-direita que apareceu no futebol paraense para substituir Dorval, justamente o primeiro nome do quinteto ofensivo mais famoso do Brasil, talvez do mundo, com os parceiros Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
Manoel, oito anos mais novo que o ídolo Pelé, virou, desde o primeiro encontro, ainda no Pará, o amigo mais longevo e inseparável do Rei. Até a entrevista ser gravada, a última vez que ele esteve com o eterno camisa 10 foi em 23 de outubro, numa celebração reservada pelos 82 anos do amigo, no Guarujá. Mas no último dia 8 de dezembro o ex-ponta-direita fez uma visita a Pelé no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, ao lado do filho André.
O primeiro encontro
Discreto sobre a amizade com o Rei, Manoel Maria não esquece o primeiro encontro, ocorrido há 57 anos, quando ele nem imaginava tudo que o futuro lhe traria.
“Em 1965, um amigo me levou para fazer um teste no Remo, que eu não queria fazer, mas fui apenas porque ele disse que a gente poderia ver de graça uma partida que o Santos de Pelé faria. Foi a primeira vez que vi aquele time de perto”, disse.
O jogo foi em 29 de abril daquele ano, com vitória santista por 9 a 4.
Já a amizade entre ele e Pelé começou três anos depois, em junho de 1968, na Suíça, quando o jovem paraense, recém-contratado pelo Santos, se encontrou com o maior camisa 10 de todos os tempos durante um tour do time da Vila Belmiro pela Europa.
“Foi ali que eu tive contato com todos eles pela primeira vez. Eles pegaram no meu pé, tiraram sarro de mim, afinal eu era o mais novo e estava chegando”.
Amigos de violão
Nas concentrações, Mané, até então admirador, tornou-se o melhor amigo de Pelé. Juntos cantaram muitas músicas. Uma delas faz ele se emocionar até hoje. Ela se chama “Pelé Agradece”, e foi gravada por Moacyr Franco, em 1971.
“É assim: ‘Não sei como aconteceu / Quando acordei já era eu / Não sei se foi por encanto / E nem sei se mereço tanto / A meu pai eu agradeço / O começo da minha vida / Metade já está cumprida/ Meio tempo da partida / Sozinho não sou ninguém / Agradeço a você também / Você que me incentivou / Você que me criticou…’. É uma música que serve para todos os momentos da vida dele”.
Desbravadores no Qatar
Juntos, Pelé e Manoel Maria foram também desbravadores. Em 1973, o time santista fez uma excursão pelo Oriente Médio, com partidas na Arábia Saudita, Bahrein e, inclusive, Qatar, o país da Copa do Mundo, que naquela época ainda estava em formação.
Em 1971, o país conquistou sua independência em relação ao Reino Unido, tornando-se um estado soberano. Mas naqueles primeiros anos não havia o mesmo luxo nem a mesma ostentação de hoje em dia, com o Qatar na vitrine mundial por causa da Copa.
“Só tinha ar-condicionado no hotel. Fora era um calor de passar mal. Era impressionante. Outra diferença, nos países da África eles reparavam muito no Pelé. Até para ver como ele amarrava as chuteiras, entendeu? No mundo árabe, não”, disse.
O Santos jogou uma única partida nlá. Foi em 14 de fevereiro de 1973, contra uma seleção formada por jogadores (muitos amadores) de Doha. Há poucos registros daquele jogo.
“O campo era… parecia liso, todo lisão. Não tinha grama nenhuma. Improvisaram um campo lá. Não tinha estádio. Aí colocaram uma tenda para a gente usar como vestiário, para nos trocarmos. Foi assim que nós jogamos”, acrescentou.
O Santos venceu por 3 a 0, gols de Edu, Pelé e Alcido.
Poucos sabem, mas segundo o “Almanaque do Santos”, de Guilherme Nascimento, o jogo não terminou no tempo programado. Perto do fim, houve uma invasão do campo. Os torcedores carregaram Pelé até o xeique, que recebeu do Rei a camisa 10 de presente.
“Eu já não lembrava desses detalhes. Faz muito tempo. Eram muitos jogos, muitas viagens e muitas homenagens ao nosso Rei”, disse Manoel Maria.
Amigos no Cosmos
Além do Santos, eles jogaram juntos também no New York Cosmos, o último clube que Pelé atuou profissionalmente antes de encerrar a carreira em 1977.
Manoel Maria jogou apenas uma temporada por lá. Rodou bastante no futebol ao deixar o Santos. E, curiosamente, encerrou a carreira em Bauru, berço futebolístico do menino rei na infância e adolescência, jogando pelo Noroeste.
No Santos, o ponta-direita fez 165 jogos e 57 gols. Foi campeão brasileiro em 1968 e de dois Campeonatos Paulista, em 1969 e em 1973. Mas o título mais importante poucos lembram. Foi a Recopa Intercontinental, em 1968, quando o time alvinegro derrotou a poderosa Inter de Milão por 1 a 0, na Itália, fazendo os italianos desistirem do jogo de volta.
Cão de guarda
Se você for o tipo de pessoa que adora criticar Pelé, espero que você não faça isso perto de Manoel Maria, um legítimo cão de guarda do amigo Rei.
Além de ficar triste, ele revela que fica com muita raiva e se contém para evitar "problemas".
O ex-ponta-direita é o cidadão que todos sonham ter como amigo.
Confidente, conselheiro, fiel, ele é mais do que um “núcleo duro” da política, mais que um cão de guarda. Ele responde que para ser amigo do camisa 10 é preciso, em primeiro lugar, aceitar Edson Arantes do Nascimento como ele é, ou seja, teimoso.
“Às vezes, ele cisma com uma coisa e a gente não pode discordar. Ele fica bravo, bate o pé. Depois que passa um tempo, quando ele está mais calmo, eu digo que não estou de acordo com isso ou aquilo, coloco o meu ponto de vista e faço o meu papel de amigo. Afinal entendo que precisamos compreender o outro para que o outro compreenda a gente”.
A saúde do Rei
Não é segredo que Pelé passa pelo momento mais delicado de seus 82 anos. Manoel Maria esteve com o Rei no último aniversário dele, momento em que dividiu novamente afeto e boas lembranças. Também estavam presentes alguns familiares do eterno camisa 10.
Como fiel escudeiro, Manoel Maria não expõe as dificuldades que Pelé atravessa. Disse que ora muito por ele, e que vê o amigo muito apegado a própria fé.
“Eu oro para ele toda a noite, todo o dia”, disse. “Ele só fala de Deus. Tudo que ele fala ele agradece a Deus. Por isso ele é um cara bom, um homem bom. Sou grato a Deus por colocá-lo no meu caminho. E grato ao Pelé por tudo que ele fez para mim e para a minha família. Ele vai estar sempre no meu coração. Espero que ele se recupere o mais rápido possível. Volte para sua casa e tenha uma noite de Natal maravilhosa.”
Um craque humano
Encontrar com Manoel Maria no belo Memorial do Santos, na Vila Belmiro, é encontrar uma lenda que fez parte de uma rica história do nosso futebol, construindo com o Rei e tantos outros jogadores espetaculares a mais bela história de um gigante do futebol.
Humilde, generoso e atencioso, Manoel Maria nos mostrou, em quase duas horas com ele, como conquistar em pouco tempo a admiração em novas amizades.
Ele é como Dirceu Lopes, do Cruzeiro. Craques de um passado que, sinceramente, não se encaixariam nos modelos de hoje.
Certamente ganhariam mais dinheiro, mas não perderiam o chão, muito menos a humildade de contar, cara a cara, como se conquista o coração dos amantes do futebol, na bola e na simpatia. São lendas do esporte que permanecem acessíveis e humanas.
