<
>

Pelé e o Santos: história de amor começou de jeito inusitado e, por 19 anos, um foi sinônimo do outro

play
O Milésimo: Pelé faz sua estreia como profissional do Santos contra o Corinthians de Santo André (8:46)

Durante partida, Rei também marcou pela primeira vez (8:46)

Incertezas, gols, títulos e fama: a trajetória de Pelé da chegada cheia de dúvidas ao Santos até alcançar a coroa de Rei do Futebol mundial


O dia era 8 de agosto de 1956, uma quarta-feira. O lugar, as cercanias da Vila Belmiro, em Santos. A partir daí, as cenas variam, mas mostram uma coincidência de detalhes que tornam impossível qualquer mentira: quem viu o primeiro contato entre o maior jogador de todos os tempos e o clube que conquistaria o mundo, não esquece.

“A primeira vez que vi o Pelé, ele estava sentado em uma lanchonete aqui ao lado, tomando uma Coca-Cola. Estava junto com o Waldemar de Brito. Usava um terno azul-marinho e carregava uma mala de papelão. Fui apresentado a ele, e o Waldemar disse que era um garoto bom de bola, vindo de Bauru, que ainda daria muitas alegrias ao Santos”, lembra Pepe, como se desenhasse diante dos próprios olhos uma das cenas que mudaria sua vida.

É do ponta-esquerda, afinal, uma das mais célebres frases sobre o camisa 10. “Sou o maior artilheiro da história do Santos. O Pelé não conta porque era um ET”, costuma brincar.

Quando viajou de Bauru para Santos, 66 anos antes de sua morte nesta quinta-feira (29), Edson Arantes do Nascimento tinha dúvidas sobre a própria qualidade. Artilheiro no Baquinho, o time de pequenos do Bauru Atlético Clube, o então garoto de 16 ainda incompletos já havia perdido a chance de ir para o Bangu, do Rio, por veto da mãe, Celeste. O Santos poderia ser a última chance.

"A viagem foi marcada para um domingo. O plano era que Dondinho e eu saíssemos bem cedo para São Paulo, onde Waldemar de Brito estaria nos esperando na Estação da Luz, a principal estação ferroviária da cidade. Waldemar nos acompanharia até Santos para fazer as devidas apresentações ao pessoal do clube. A noite anterior à viagem foi de conselhos e malas por fazer, a minha e a do meu pai. Não consegui dormir. O que me esperaria em Santos? Será que eu seria bom o bastante?"

A dúvida, pelo jeito, não demorou muito para se perder entre gols e mais gols que o jovem Edson desandou a fazer ainda adolescente. Da chegada ao Santos, em 8 de agosto, o menino já foi jogado nos profissionais pelo técnico Lula e logo estaria brilhando nos principais campos do mundo.

Em 1956, os santistas ostentavam o título do Campeonato Paulista, e viam surgir uma nova geração de talentos no ataque, com Del Vecchio, Pepe. No meio-campo, os gritos de Zito — volante chegado do Taubaté anos antes — também ganhavam notoriedade. Ele era um dos líderes do grupo.

play
8:46
O Milésimo: Pelé faz sua estreia como profissional do Santos contra o Corinthians de Santo André

Durante partida, Rei também marcou pela primeira vez

Foi por ideia de Zito e de um par de jogadores mais experientes que a chegada de Pelé á Vila acabou tendo uma plateia especial. “Soube que o Waldemar de Brito levaria um garoto a Santos. Não sabia que era o Pelé, mas o Waldemar era um ex-jogador de seleção brasileira, ídolo de todos nós, e por isso fomos esperá-lo”, conta.

Naquele dia, de fato, os jogadores do Santos puderam ouvir histórias e conhecer um pouco do passado de Waldemar de Brito, um dos grandes craques do futebol brasileiro. Mas o ponto alto, ainda que eles não soubessem, foi poder conhecer o futuro do clube. Conhecer o jogador que mudaria a forma de o mundo ver o futebol.

Se foi coadjuvante no dia chegada, Pelé explodiu rápido. Deu tempo, porém, de antes pensar em abandonar o novo time, tentativa tão rápida quanto frustrada.

Atuando pelo sub-20, Pelé foi chamado para reforçar a equipe sub-16 que decidia um torneio local. A final era contra o Jabaquara, também de Santos, e ele teve a chance de garantir a taça numa cobrança de pênalti, mas bateu por cima do travessão e acabou como vilão do vice-campeonato.

"Sentia um misto de embaraço e vergonha, e naquela noite concluí que não conseguiria mais ficar em Santos. Na manhã seguinte, acordei às 6h30 com a firme intenção de voltar para Bauru. Fiz a mala em silêncio, saí do quarto na ponta dos pés e me encaminhei para a porta", conta o Atleta do Século no livro "Pelé, a autobiografia". Mas o momento de rebeldia foi interrompido por Sabuzinho, mordomo do clube, que perguntou pela autorização para a saída do prédio e, claro, impediu a partida de Pelé.

Para alegria da torcida santista e do futebol, Pelé permaneceu. Em 7 de setembro de 1956, fez o primeiro gol com a camisa santista, num amistoso contra o Corinthians de Santo André. Em 1957, começou a série de nove Campeonatos Paulistas consecutivos onde foi o máximo artilheiro, incluindo os 58 gols da edição de 1958 e também o posto de maior goleador na Taça Brasil, no Rio-São Paulo, no Mundial Interclubes, na Libertadores e em outros tantos torneios pela seleção brasileira. Ufa.

Curiosamente, porém, as primeiras grandes atuações que levaram Pelé a ser conhecido e convocado à seleção brasileira não foram com a camisa santista. Depois de já balançar algumas redes no início de 1957, foi com as cores do Vasco, numa equipe combinada entre os dois clubes, que o Rei apareceu no Maracanã, para o Rio de Janeiro e todo o país.

play
1:01
O tamanho de Pelé: Multicampeão com o Rei no Santos, Pepe classifica ex-companheiro como 'maior de todos os tempos'

Rei do futebol, Pelé faleceu aos 82 anos de idade

"À primeira vista, parece mais uma lenda envolvendo o maior jogador de todos os tempos, mas nesse caso é a mais pura e comprovada verdade", conta o jornalista Thiago Arantes no livro Os Dez Mais do Santos, que tem, obviamente, um perfil de Pelé. Pela Taça Morumbi, o Vasco-Santos venceu Belenenses, empatou com o Dínamo de Zagreb e o Rei fez quatro gols. No empate em 1 a 1 contra o Flamengo, gol dele. E no fim da série, desta vez com o time usando a camisa do Santos, novo empate, 1 a 1. Mais um na conta.

Sob comando de Pelé (e claro, com um belíssimo time), o Santos venceu dez vezes o Campeonato Paulista e estabeleceu uma hegemonia quase absoluta no período, não fossem as três taças que ficaram com o Palmeiras em 1959, 1963 e 1966. Foram ainda outros 16 títulos, entre eles os dois Mundiais em 1962-63.

"Agradeço a Deus pela oportunidade de estar aqui e ter me colocado no Santos. Tive a felicidade de presenciar o clube crescendo para o mundo. Eu fiz parte dessa história", cravou o eterno camisa 10 nesta semana, durante evento comemorativo do centenário do clube.

E foi praticamente inevitável que a saída do maior jogador da história, em 1974, combinasse também com um certo declínio do clube. Tanto que não é exagero dizer que a trajetória santista é separada entre antes e depois de Pelé - até a lista dos artilheiros costuma ser dividida, já que os jogadores posteriores ao time histórico ainda estão longe de alcançar nomes como Pepe e Coutinho, grandes goleadores entre os "comuns" que jogaram com o Rei.

Sem o maior nome, o clube ainda levou o Paulista de 1978, com Pita e Juary, e 1984, ano do famoso gol de Serginho contra o Corinthians. Depois, passou por uma fase complicada e de poucos grandes resultados, e os santistas tiveram de esperar até 2002 para voltar a comemorar um caneco nacional. Da geração Diego e Robinho passando pelo Santos de Neymar, a sala de troféus voltou a ter fluxo constante. Ainda distante, claro, do absurdo aproveitamento de Pelé e cia. Até aí, difícil não ser.