'Vou perder minha vida em um jogo de futebol': brasileiro que estava em campo em tragédia na Indonésia relata 'cinco horas de horror'

Goleiro brasileiro Adílson Maringá falou sobre a tragédia que ocorreu pelo Campeonato Indonésio, no último sábado (1º)


Adílson Maringá jamais vai esquecer a noite de primeiro de outubro de 2022. O que era para ser mais um clássico da Liga da Indonésia entre o Arema, time que o goleiro defende, e o Persebaya Surabaya, terminou em tragédia.

Após a derrota em casa do Arema por 3 a 2, torcedores invadiram o gramado e entraram em confronto com a polícia, provocando uma briga generalizada que terminou em 125 mortes, segundo as autoridades locais.

"É muito dificil falar. Foi uma noite inesquecível pela parte negativa. Até agora estamos em choque devido ao acontecimento. Nunca tinha presenciado uma cena de horror como foi essa, uma verdadeira selvageria. Temia muito pela vida", disse ao ESPN.com.br.

O brasileiro conta que os clássicos costumam ser disputados com casa cheia, mas sem violência. Tanto é que os jogadores têm o costume de cumprimentar os torcedores, independentemente do resultado das partidas.

No entanto, aquele jogo não foi como outro qualquer. Segundo as agências internacionais, cerca de três mil pessoas entraram o campo durante a confusão generalizada.

"Eles começaram a invadir, cinco ou seis me agarram e não consegui sair. Vieram os policiais e me tiraram. Consegui correr para vesitário. Vivemos cinco horas de horror".

O cenário teria piorado, segundo o arqueiro, após a morte de um policial durante o confronto. Os agentes de segurança teriam aumentado a repressão contra os torcedores.

"A gente presenciou do vestiário as bombas, os gritos. O gás lacrimogêneo, as ambulâncias. A gente não tinha notícia de ninguém, só sabíamos que estava tendo uma guerra! Estava perigoso e ficamos em desepero total", relatou.

Sem sinal de internet ou de telefonia no estádio Kanjuruhan, na cidade de Malang, que fica na ilha de Java, Adílson temia pela segurança da namorada, que estava nas arquibancadas. E ele contou destalhes de todo esse drama vivido.

"Ficamos cinco horas sem comunicação e não sabia se ela estava bem. Não tinha como avisar aos meus familiares no Brasil também", relatou.

"A pior parte foi quando umas oito pesoas que inalaram muito gás foram levadas para dentro do vestiario - porque tinha um médico por lá - e faleceram. Isso me assustou muito porque falei: 'Meu Deus, vou perder a minha vida dentro de um jogo de futebol. O que vai ser da nossa vida? Pessoas estão morrendo, vão invadir, quebrar tudo e soltar bombas'. Foi uma verdadeira guerra'', confessou.

Cenário de guerra

Após a bataha campal, o goleiro diz que o estádio Kanjuruhan parecia um cenário de guerra, inclusive com a presença de veículos blindados e até mesmo um tanque.

"Meu Deus! Você não têm noção. Estádio ficou todo destruído, vidros quebrados... Vi três carros da polícia destruídos, um caminhão queimado. Teve até tanque de guerra! Os jogadores do outro time saíram em um veículo blindado do exército", relatou.

Adílson tem recebido muitas mensagens de apoio após a tragédia que repercutiu no mundo todo. E cobra providências após o episódio.

"Vi vários treinadores falando, até o Guardiola e técnico do United. No país é a principal notícia desde sábado. É a segunda maior tragédia da história do esporte, alguma providência grande será tomada".

Após cinco horas do começo da confusão, o arqueiro soube que a namorada foi levada para um sala junto com as outras esposas dos jogadores para ficarem em segurança. Ela entrou em contato por meio de um aparelho de uma colega. Assim que a confusão começou a se dissipar, o brasileiro conseguiu, enfim, avisar seus familiares que estava vivo.

Com vínculo com o time até 2024, Adílson não sabe se permanecerá no clube ou no país. A Liga da Indonésia está suspensa por tempo indeterminado, e a Federação local informou que o Arema não mandará mais partidas em casa na temporada.

"Não estou com nenhuma capacidade psicológica para jogar. Estamos vendo as decisões das organizações superiores, como o nosso presidente e a Fifa. Todos os jogadores estão sem condições. Agora é esperar acalmar os ânimos e orar para que a nossa vida possa seguir normalmente. Não sei o que será da minha carreira porque isso me afeta diretamente".

"Espero que isso nunca mais se repita na história do futebol, que é lamentável, triste mesmo. Que isso sirva de exemplo para que não voltem a se repetirem cenas como essas", finalizou.