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Como Ucrânia usa Nations League para tentar se recompor em meio à guerra e após fim do sonho da Copa

Após eliminação na repescagem para a Copa do Mundo, a Ucrânia inicia sua caminhada na disputa da Nations League


O sonho ucraniano de se classificar para a Copa do Mundo acabou na noite fria e chuvosa de domingo (5). O treinador Oleksandr Petrakov encarava o jogo, debaixo de chuva, e não sabia o que fazer. Um sinalizador vermelho foi jogado em campo e o ar ficou com cheiro de pólvora.

A fumaça subia para o céu nublado. O estádio tremia com o barulho. Petrakov se virou para deixar o campo, mas voltou, ficou sozinho e observou a seleção galesa comemorar. Ele parecia perdido. Seu time chegou tão perto. Muitas chances foram perdidas nessa derrota por 1 a 0, e era difícil até mesmo lembrar a esperança que havia nascido nos últimos quatro dias. O vestiário estava em silêncio. “Como em um funeral”, ele diria depois.

Agora, após a eliminação na repescagem para o Mundial, a equipe ucraniana inicia a jornada pela Uefa Nations League contra a Irlanda, às 15h45 (de Brasília) desta quarta-feira (8), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

Petrakov disse que o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy esteve na linha de frente e pediu pessoalmente aos soldados de lá que escrevessem mensagens de apoio em uma bandeira e que a equipe trouxesse essa bandeira para o País de Gales. Os jogadores do time sabiam quem estava torcendo por eles e por quê, e isso doía. Seus jogadores carregavam a dor no rosto, carregavam essa derrota profundamente em feridas que talvez nunca se curem, e ele disse que o fracasso era dele, Petrakov, e não deles.

Uma nação precisava de uma vitória, precisava de algo bom como um adiantamento sobre um futuro cheio de coisas boas. Ele tentou encontrar as palavras certas. Pediu desculpas na entrevista coletiva a seus compatriotas por não ter conseguido marcar gols. Fez uma careta e uma pausa, engoliu e outra pausa, e sorriu finamente e olhou vagamente para a parede. Foi difícil assistir. Ele sentiu as possibilidades dos próximos seis meses escaparem por entre seus dedos. Todos sentiram. Um jornalista ucraniano usou sua pergunta pós jogo para pedir aos repórteres de outros países que não esquecessem o que está acontecendo na Ucrânia.

Petrakov olhou para os jornalistas reunidos. "Vocês sabem o que está acontecendo na Ucrânia", disse ele. "Temos uma guerra que se espalhou pelo país. Crianças e mulheres morrendo diariamente. Nossa infraestrutura está sendo destruída diariamente por bárbaros russos. Os russos querem nos ferir. Os ucranianos estão resistindo. Os ucranianos estão se defendendo".

Na manhã do jogo de domingo no Cardiff City Stadium, dois mísseis russos atingiram Kiev, e a fumaça preta subiu mais uma vez no ar. Petrakov acordou no País de Gales com essa notícia sobre sua cidade natal, o primeiro ataque sobre a cidade em um mês. Ele é de Kiev. Quando criança, ele passava horas pescando nas margens do rio que atravessava o centro da cidade. Sua ideia de um dia perfeito é caminhar pela cidade e parar em todas as catedrais e igrejas antigas. Se sentar em um banco e pensar.

Quando o exército russo começou a atacar Kiev em 24 de fevereiro, ele não quis ir embora. Seus filhos imploraram. Ele disse que nasceu em Kiev e morreria em Kiev antes de deixar alguém roubar seu lar. Nos primeiros dias de luta, ele tentou se alistar ao exército. O recrutador disse a ele que eles não precisavam de soldados de 64 anos e que a maneira de ele servir ao país deles era fazer o que ele havia treinado a vida toda para fazer. Disseram a ele que ele não sabia nada sobre combate, mas que sabia sobre futebol. "Nos leve ao Qatar", ele disse que os militares pediram a ele.

Petrakov andou pelas ruas e visitou soldados em trincheiras e bunkers. Ele conversou com eles sobre futebol e fumou com eles. Quando os russos chegaram nos arredores da cidade, ele pôde ouvir explosões. Sua esposa implorou para que ele não deixasse o apartamento. Uma vez, ele caminhou até o mercado para comprar pão e ouviu um assobio de míssil no ar sobre sua cabeça. Ele sentiu a terra tremer quando ele atingiu seu alvo. Cinco pessoas morreram, ele me disse. Incluindo uma família. Uma mãe e um pai. Um menino e uma menina.

"Você está caminhando e não sabe onde ele vai atingir", disse o treinador. "Uma loteria. Você não sabe. Mais um caiu a cerca de 2 km de mim. Um míssil. Todas as janelas estavam tremendo. A casa estava tremendo. Eu fiquei no apartamento, e minha esposa passou a noite no bunker. Ela não suportava, e eu não sei, talvez por ter 64 anos, eu não tivesse medo. Você não vai escapar do destino".

Depois da vitória da Ucrânia por 3 a 1 contra a Escócia na quarta-feira, o treinador comemorou muito. O olhar em seu rosto deixou claro para os que pudessem ver que eles não estavam apenas jogando uma partida. Três meses de medo e fúria - de resistência e defesa - transbordaram dele; e depois disso, ele parecia cansado, como se a vitória tivesse dado algo, mas também tivesse tirado um fardo.

É difícil explicar a situação na Ucrânia. As valas comuns ainda estão sendo descobertas. É possível dar um passeio na floresta ao norte de Kiev e, se não se pisar em uma mina terrestre, encontrar um buraco vazio onde os civis assassinados pelo exército russo foram rapidamente enterrados por seus conterrâneos, para depois serem enterrados com dignidade. Roupas ensanguentadas ainda estão no fundo desses buracos vazios. Os habitantes locais andam ao redor dos tanques russos queimados, para ver onde o inimigo conheceu a morte. As sirenes de ataque aéreo soam com frequência suficiente para existir agora um aplicativo para isso.

A filha de Petrakov ainda está na cidade. Assim como sua esposa. Eles falam com ele frequentemente, e a única maneira que ele pode ajudar é treinando. Sua equipe é sua única arma, a única maneira de ajudar seu país, e nos últimos quatro dias, ele acreditou que a equipe venceria o País de Gales e levaria a bandeira e o hino ucraniano para o Qatar para a Copa do Mundo. Que ele cumpriria a missão dada a ele pelos soldados que disseram delicadamente que ele era velho demais para pegar um fuzil e ocupar uma posição.

A guerra tem pouco mais de 100 dias. Nesses mais de três meses, surgiram motivos de esperança. O exército ucraniano expôs os russos, usando arsenais de armas estrangeiras para vencer a guerra em Kiev e para forçar os russos a recuarem em alguns lugares. Mas a situação no oriente evoluiu, com o exército russo pressionando a artilharia em posições vulneráveis, os combates acontecendo em trincheiras - tudo isso brutal e arcaico, mais parecido com Antietam do que Bagdá. Os russos controlam cerca de 20% do país, e esta guerra pode continuar por muito tempo. Já está acontecendo desde 2014, os ucranianos gostam de lembrar aos estrangeiros que pensam que tudo isso é uma novidade.

Por essas razões, e por tantas outras, os últimos quatro dias foram ótimos. São necessárias muitas pessoas para vencer uma guerra, para criar a mistura certa de desafio e determinação - e Oleksandr Petrakov é uma dessas pessoas. Ele deu a uma nação quatro dias felizes, seu próprio milagre durante momentos tão horríveis, e ele queria proporcionar mais.

Antes do jogo de domingo, o estádio vibrava de energia quando o ônibus ucraniano chegou. Petrakov foi para o campo e cruzou os braços, gritando e passando instruções. Era um homem que havia passado uma vida inteira se preparando para um único momento. A chuva começou a cair, mas ele não vestiu um casaco. Ele simplesmente limpava seus óculos de vez em quando e ficava bem na linha lateral.

O jogo começou, e a torcida do País de Gales sacudiu o prédio, o barulho ecoando nas arquibancadas. Os torcedores da casa cantavam e gritavam. Desde 1958, o País de Gales não participava de uma Copa do Mundo, e contra qualquer outro adversário, teria sido o favorito sentimental. Todos esses fracassos, e o anseio de conseguir apagá-los, estavam em todas as canções e aplausos. A chuva ficou mais forte. Finalmente, um dos assistentes do treinador colocou um casaco em seus ombros.

No minuto 34, Gareth Bale se preparou para uma falta. Ele cobrou mirando a direita, e o craque ucraniano Andriy Yarmolenko mergulhou para cortar a bola de cabeça.

Yarmolenko joga pelo West Ham, e um dia antes do início da guerra, ele mandou sua esposa e filho de volta para Kiev para uma consulta médica. "Você pode imaginar como eu estava quando tudo começou na manhã seguinte", disse ele aos jornalistas ingleses em março, após o retorno deles em segurança. "Eu só queria dar com a cabeça na parede. Que idiota eu fui mandando minha família para Kiev ficando aqui em Londres".

Yarmolenko desviou o chute de Bale e, tentando pôr a bola para fora, ele acidentalmente a jogou para o lado esquerdo do seu próprio gol.

A tensão aumentava a cada minuto que passava. A Ucrânia perdia chance atrás de chance. Petrakov teve que ser separado de um dos jogadores do País de Gales por fazer a famosa cera. Ele gritou de baixo da chuva para seu time. Todos estavam encharcados. O jogo ficou duro, e a multidão estava no limite, com ambos os lados cantando, torcendo e reclamando dos árbitros. O setor dos ucranianos cantava o nome de seu país em quatro sílabas, repetidas vezes. Ambas as equipes queriam a vitória. A vontade era clara para quem estivesse assistindo das arquibancadas, que pareciam entender que estavam assistindo a uma das partidas mais intensas de futebol que já haviam visto.

Os jogadores do País de Gales estavam caindo no chão, e Petrakov gritou para o árbitro, apontando para seu relógio, implorando por muitos minutos de acréscimo. Com 88 minutos, Serhiy Sydorchuk soltou um chute. Ele passou muito por cima do gol e Sydorchuk caiu de joelhos desamparado. Ele parecia já admitir. Os torcedores do País de Gales começaram a comemorar e cantaram uma velha canção de futebol inglês com estas letras: "Por favor, não me faça ir para casa".

O jogo terminou, e Petrakov não se mexeu no início, atordoado, perdido. O estádio estava barulhento, esfumaçado e cheio de energia. Os torcedores do País de Gales entraram em campo e tentaram driblar os seguranças. Finalmente, Petrakov soube o que fazer.

Ele foi para onde os torcedores ucranianos cantaram e balançaram bandeiras durante 90 minutos de chuva. Bale veio e deu um longo abraço em Petrakov, e então o treinador aplaudiu os torcedores que o estavam aplaudindo. Não havia muita diferença entre eles naquele momento, todos eles cidadãos de uma nação em guerra, uma nação que luta para existir.

Ele havia proporcionado a eles quatro bons dias. Mais tarde, no silêncio da derrota, Petrakov disse como ele queria que sua equipe ficasse na memória de seu país. "Eu desejo muito que o povo da Ucrânia se lembre do nosso time", confessou o treinador. "Queria dizer que lamento por não termos marcado hoje, mas isso é o esporte. É assim que as coisas são, e eu simplesmente não..."

Debaixo do estádio, a sala de imprensa estava em silêncio. "Estou sem palavras", lamentou Petrakov. "Eu não sei o que dizer".