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Da cerveja gelada e asinhas de frango aos alarmes e o terror: como a Ucrânia sonha com a Copa em meio à guerra

Em meio à guerra no país, povo ucraniano tem encontrado novas maneiras para conseguir assistir a seleção tentar se classificar para a Copa do Mundo


No nono andar de um prédio próximo ao zoológico local, um grupo de amigos se reuniu para assistir a uma partida de futebol. Lá fora, o pôr do sol no primeiro dia do verão na capital. Eles conferiram a hora. Um pouco mais de uma hora antes da partida entre Ucrânia e Escócia em Glasgow. O anfitrião, Ivan, preparou o lugar para os amigos. Ele colocou cerveja para gelar, queijo frito, asinhas de frango, salame e algumas garrafas de uísque. A Ucrânia precisa de uma vitória naquele duelo, e outra em quatro dias contra o País de Gales para se classificar à Copa do Mundo no Qatar, mas ninguém parece nervoso.

“Durante a guerra,” disse Ivan, “você não se estressa com esportes”.

Um deles está sentado em uma poltrona na ponta da mesa, tomando uma cerveja local, é a casa de um soldado de folga da linha de frente no leste. Seu nome é Volodya e antes da guerra ele trabalhava como TI. Antes do jogo começar, tiveram momentos em que ele parecia desaparecer, seu corpo estava em sua cidade, mas sua mente estava com seus irmãos na guerra. Olhava para seu celular, via fotos e vídeos do combate. Ele me deu o celular para me mostrar dois soldados russos mortos. Então ligou para seus amigos na linha de frente. Eles estão tão próximos da Rússia que eles conseguem fotografar os soldados da fronteira. Seus amigos nas trincheiras se amontoavam ao redor do celular para falar com eles.

“Vocês estão assistindo futebol?”, ele perguntou. “Sim!”, eles responderam.

Os soldados fazem piadas, dão risadas esperando a partida. Os rapazes no apartamento faziam o mesmo. Um cobriu a casa de bonecas de sua filha com uma bandeira ucraniana. Volodya comeu um pedaço de carne seca e contou histórias sobre membros do exército americano que os treinaram. Alguém abriu uma cerveja. Dois rapazes subiram para o terraço para observar a cidade e fumar.

Sirenes de alarme soaram. Todos no apartamento se viraram para a varanda para ouvir o barulho - longos, altos, um sobrepondo o outro, e a cada sirene mais estridente e urgente. “Vamos rezar”, disse Ivan. “Eu odeio esse som”, sussurrou minha intérprete ucraniana.

As sirenes significam que um míssil russo foi lançado de um navio de guerra mirando algum local da Ucrânia. Kiev não é atingida há quase um mês e, com a partida próxima de começar, os convidados optaram por não irem para os abrigos no porão. Eles fazem piadas. Um rapaz chamado Misha começou a cantar Sirens, do Pearl Jam. Volodya mostrou a foto de uma cratera imensa e disse que uma sirene não o assusta nem um pouco. Enquanto o barulho das sirenes chega a todas as pessoas na cidade, a transmissão na TV mostra a escalação dos jogadores e suas posições.

“Temos os 11 titulares”, comemorou Misha. Eles debateram táticas e os jogadores escolhidos para irem a campo. Garrafas de cerveja vazias começavam a se amontoar. Ninguém mais falou uma palavra sobre o míssil voando pela noite.

Eu fui para Kiev ver uma cidade assistir a um jogo. Uma equipe de segurança e uma equipe de filmagem viajaram comigo em uma van preta desde a Cracóvia, Polônia. No caminho entre Lviv e Kiev, nós observávamos as janelas em silêncio. Paramos para ver um carro abandonado na estrada. Nosso motorista disse que uma família que tentava escapar recebeu tiros no carro. Não haviam marcas de balas na porta do lado do motorista onde a mãe se sentava, mas as portas de trás estavam esburacadas. As crianças que estavam sentadas ali foram mortas, segundo ele.

Mais adiante na estrada, cavalos que fugiram de fazendas. Alguns adolescentes ensaboados lavando seus carros, outros jogando futebol. Ônibus amarelos passavam pela rodovia lotado de pessoas voltando para suas casas, rostos cansados colados às janelas.

Em Kiev, os moradores se sentam em mesas em cafeterias. Nossa primeira noite na cidade, um grande grupo de jornalistas foram a um restaurante crimeano para comer bolinhos e kebabs, ao lado de uma mesa em que ex-soldados britânicos comiam. Mais tarde naquela noite, nós os veríamos de novo no Hotel Intercontinental. O bar do saguão se tornou um grande epicentro de uma estranha tribo de pessoas que cobriam a guerra: repórteres e produtores de todo o mundo e voluntários humanitários. Noite após noite, eles se sentavam abaixo de uma enorme pintura de Netuno navegando pelo oceano com cavalos mitológicos.

Fumaça subia dos cinzeiros, e garçonetes entregavam cervejas. Jornalistas comiam sanduíches e escreviam em seus laptops. Um rapaz chamado Markiyan sentou perto de mim e, durante o jantar, tentou me explicar o quão importante era essa partida contra a Escócia para ele.

“Antes do dia 24 de fevereiro, eu diria que esse seria um momento de união”, disse ele. “É muito fácil se unir em volta do time. Depois do dia 24, não precisamos mais disso. Isso é apenas uma ponta dessa união nacional que não existia antes”.

O jogo não criaria nada novo, mas daria ao resto do mundo a chance de ver o que está claro para todos que voltaram para Kiev. Essa é uma guerra por território e recursos, claro, mas também é sobre memória e símbolos. Vladimir Putin diz que não existe Ucrânia. Os russos têm tentado apagar a identidade ucraniana bombardeando museus e focando em símbolos culturais. No centro de Kiev, os monumentos mais importantes estão cercados por sacos de areia. Vencendo ou perdendo, um time de futebol vestindo suas cores para essa partida envia uma mensagem para o Kremelin: Se nós não existimos, então, por que estamos correndo juntos em campo contra a Escócia? Por que nosso povo torce e agita suas bandeiras?

Tem sido dias difíceis em Kiev, mas suas raízes são profundas. É uma cidade antiga. Moscou ainda era um pântano quando um grande império se ergueu aqui. Os mongóis sitiaram em 1240 e dividiram o império em pedaços. Alguns foram para o norte e se tornaram russos. Outros ficaram e se tornaram ucranianos. Faz parte da crença dos líderes russos, desde Pedro I e Catarina, a Grande, que a Ucrânia deveria ser um irmão mais novo subserviente aos seus vizinhos mais poderosos do Norte. Putin queria apagar uma cultura, mas, em vez disso, unificou uma, e embora a união e a determinação sejam ideias indescritíveis, elas também são inconfundíveis.

Por toda a cidade, as pessoas pediam cafés chiques. Eles fazem reservas para o jantar e caminharam pelos escombros para ir a uma academia que havia reaberto em um prédio bombardeado.

Minha intérprete perguntou a uma mulher se ela estava com medo. Ela riu de nós. "Medo de quê?"

Kiev estava segura no momento, mas ainda tinha cicatrizes profundas: prédios destruídos; grandes barricadas de metal com espinhos, projetadas para parar tanques; dúzias de bunkers de concreto e sacos de areia protegendo os principais cruzamentos. No extremo norte da cidade, soldados mantinham trincheiras e barricadas, escovando os dentes à beira da estrada. Os ucranianos forçaram os russos a recuar em muitos lugares, mas no Leste, diariamente surgem notícias assustadoras. Terras perdidas, cidadãos mortos.

Sentado no saguão do hotel, pedi a Markiyan uma previsão. "A guerra ou o jogo?" ele perguntou, sorrindo.

O hotel fica em frente a uma grande praça com um mosteiro em uma das pontas. Este é o lugar favorito do técnico Oleksandr Petrakov na cidade, onde ele "sente sua alma descansar", como ele me disse há algumas semanas. Estacionados entre o Intercontinental e as cúpulas douradas da igreja, estavam queimados destroços de veículos militares russos. Uma fila constante de pessoas caminhava vagarosamente, visitantes de um museu estranho. Eles olhavam atentamente para essas tumbas alienígenas. Na véspera do jogo, uma dessas pessoas era a filha de Petrakov, Viktoria.

Ela ficou ao lado de um tanque destruído. Uma nuvem passou por seu rosto enquanto ela tentava explicar como se sentia ali. Finalmente ela encontrou a palavra certa: feliz. Ficou feliz por estar tão perto do lugar onde seus inimigos fracassaram.

"É assim que é a morte", Viktoria disse, e depois quase para si mesma, "Eu odeio russos". Ela olhou para algumas comidas enlatadas. "A comida deles", disse ela, que tocou um pedaço queimado de casaco camuflado. "As roupas deles”.

Ela leu os rótulos. A fuligem do uniforme grudou em suas mãos e ela limpou. Um garoto caminhou ao redor do tanque segurando uma espada de madeira. Ninguém falou muito. Haviam kits de refeitório queimados com alças laranja, uma única cebola e xícaras de café deformadas pelo calor. Uma criança chutou um pedaço de metal que havia caído de um blindado.

Viktoria olhou para sua cidade e disse parecer vazia. Muita gente não voltou. À beira do rio, deveria haver mesas de pessoas tomando café e fingindo estar incomodadas com os skatistas. Sim, existem tentativas de se voltar a vida normal, que todos comemoram, e a cidade está viva com guindastes e equipes de construção, dançando ao som de martelos e tratores, reconstruindo, limpando e se reerguendo de novo. Mas ainda existe um sentimento silencioso pairando sobre tudo, uma mistura de preocupação de que o sucesso que eles conheceram até agora possa se transformar em derrota, que a destruição da guerra possa voltar a Kiev, e essa vaga sensação de que nada será como antes, não importa quão desafiadores os cidadãos se mantenham.

"Tem algo no ar", ela me disse, tentando explicar. "A dor do povo ucraniano está no ar".

Entramos na igreja. Ela e um padre conversaram sobre a partida. O padre adorava ter consigo a filha do grande treinador e a levou para a torre do sino que dava para a praça. Quando os primeiros ataques russos aconteceram, a igreja tocou uma canção de resistência da Segunda Guerra Mundial que se tornou uma espécie de hino nacional sombrio durante os últimos 90 dias. Agora, os padres tocam músicas através dos sinos todas as manhãs às 4. Na tarde antes do jogo, eles tocaram especialmente para Viktoria. Lá embaixo na praça, as pessoas andando em volta dos tanques queimados pegaram seus telefones e gravaram a música.

A primeira vez que ouvi a música foi há duas semanas na Itália. A Ucrânia estava jogando um amistoso contra um time da Serie A, o Empoli, e o estádio estava cheio de refugiados. O vento soprava pelo campo. O sistema de alto-falantes tocava uma música simbólica atrás da outra e quando esse hino popular começou, uma mulher chamada Olena cantou junto. Ela escapou de Kharkiv, onde aconteceram os piores combates. De pé perto do campo, ela me contou sua história. Ela se escondeu em seu porão por 10 dias com o marido e cinco filhos. Nos primeiros três dias, os russos apenas dispararam mísseis. Então, um dia, por volta das 5 da manhã, ela ouviu o barulho de um avião. Esse foi o aviso deles. Uma bomba atingiu a escola três casas abaixo. Sua filha de 10 anos acordou gritando. Agora ela tem pesadelos recorrentes. Com aviões.

Os filhos de Olena são adotados e ela explicou que queria levá-los para longe dos russos, pois tinha medo que eles pegassem crianças da Ucrânia e as entregassem a famílias russas. Foi muito difícil para eles sair. O carro da família, uma lata velha quebrada, não funcionou. Três vezes o governo local programou, e depois cancelou, um ônibus. O marido dela foi para a garagem e, de alguma forma, conseguiu dar partida no carro. Ele foi na direção, ela se sentou ao lado dele, e quatro de seus filhos foram espremidos na parte de trás. Seu filho mais velho, de 19 anos, se recusou a ir. Ele e muitos de seus colegas ficaram em Kharkiv e se juntaram ao exército.

As sirenes soaram quando eles deixaram a cidade. Bombas caíram. Levou quatro dias para ficarem em segurança. Eles não tinham comida, mas, em pequenas cidades ao longo da estrada, os cidadãos locais preparavam refeições e as distribuíam aos viajantes. Ela e sua família dormiam com estranhos. Uma noite, por volta das 3 da manhã, eles chegaram a uma cidade e um casal de idosos os convidou para ficarem em casa. Lá dentro, eles encontraram uma mesa de jantar cheia de comida.

No oeste da Ucrânia, uma cidade permitiu que eles dormissem em um ginásio e depois de três dias, seu marido conseguiu passagens de ônibus para a Polônia. Ele a deixou e depois voltou para a Ucrânia para se juntar ao exército. Ele recebeu duas dispensas - uma por causa de sua idade e outra porque ele tem três ou mais filhos - mas ele recusou.

Eles se despediram rapidamente, como se ele estivesse saindo para comprar leite. "Ainda rezo para vê-lo de novo um dia", disse ela.

Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto ela falava, mas ela não chorou. Nenhum dos adultos chorou. Eles apenas pareciam tristes e exaustos, sem lágrimas. A Ucrânia venceu e a equipe se reuniu para cantar o hino nacional. Cerca de três dúzias de órfãos se levantaram para cantar com eles. Olena também, e finalmente, as lágrimas começaram a cair – suas emoções emergiram não por memórias de dor, mas por causa desta celebração do lar. Ela tentou secar o rosto, enquanto cantava: "Nossos inimigos vão morrer... vamos viver felizes em nossa terra."

Na manhã da partida eu fui a uma capela local. Haviam 3 cerimônias de casamento marcadas antes do almoço, em uma quarta-feira, o que poderia ser considerado algo inédito há pouco tempo. Muitas pessoas estão se casando em Kiev depois do início da guerra, todos os dias da semana. “As pessoas não querem deixar nada para depois”, disse a mulher que gere a agenda da capela. O toque de recolher às 23h significa que não existem mais festas como antes, então as cerimônias são feitas mais rapidamente, mas ainda com alegria. Os convidados chegam primeiro com garrafas de champanhe. Depois os noivos, o homem com um terno cinza, camisa branca e cabelo recém-cortado. A noiva em seu vestido branco, em volta de um grande círculo de flores. Música ao fundo. Seus amigos os cumprimentavam conforme se encaminhavam para fora da igreja, enquanto os sinos da igreja tocavam. O próximo casal espera para que tudo fosse reorganizado para que também pudessem se casar. Todos estavam felizes e sorrindo. Dias de esperança para esquecer a dor. Esses também são dias de dor e memória.

Trinta minutos após o último casamento, um homem chamado Denys me recebeu em sua casa em cidade à região norte chamada Bucha. Ele é um pouco reservado, um pouco nerd, que gosta de histórias de militares e usa um chapéu tático de velcro. As tropas russas ocuparam Bucha nas primeiras semanas do ataque à Ucrânia em março, e o nome da cidade se tornou sinônimo da extrema violência da invasão. Jornalistas e organizações de direitos humanos relataram tortura, estupro e execução de centenas de cidadãos encontrados em valas comuns. A estrada de Kiev para Bucha parece o terreno de uma batalha medieval. Existem postos de gasolina queimados e casas bombardeadas. As paredes estão cobertas por milhares de buracos de bala. As florestas estão infestadas de minas terrestres. Os tanques deixaram marcas na estrada.

Sentamos na sala de Denys. Ele conta que os russos também se sentaram ali e arrombaram seu cofre. Ele disse que ele e sua mãe se esconderam no galinheiro e um soldado enfiou a cabeça lá dentro, mas não os viu. É por isso que ele está vivo para contar essa história. Todos os seus avós são russos. Ele tem família na Rússia que insistem em dizer que os ucranianos se mataram em Bucha para que a Rússia ficasse rotulada como a vilã. Ele não fala mais com eles.

“Eu acho que eles são zumbis”, disse ele.

Denys me acompanhou até a porta da frente e desceu um caminho estreito. Ele apontou para frente. Este é o lugar onde uma fileira de civis foram colocados. Ele apontou para trás dele. Esse era o lugar onde o exército russo começou a atirar neles.

Ele passou por baixo de um fio e foi até um buraco no chão bastante fundo. Uma pá ainda estava presa em um monte de terra. Ele apontou mais uma vez. Era uma vala comum. Ele viu seus vizinhos enterrarem quatro estranhos mortos pelos russos ao tentarem escapar. Um dia, quando a história desta guerra for escrita, haverá capítulos sobre os pequenos atos de humanidade e amor que os ucranianos comuns mostraram, não por que se conhecessem, mas porque estavam unidos por algo mais poderoso que amizade ou geografia. Seus vizinhos cavaram uma cova e enterraram quatro estranhos porque ninguém deve apodrecer no sol.

Esses corpos ficaram no chão de 5 de março à 15 de abril, quando as pessoas chegaram para oferecer um funeral adequado. Denys e eu não conversamos muito. Fizemos contato visual algumas vezes, mas principalmente nos retraímos em nós mesmos. Os edredons grossos usados para cobrir os corpos ficaram no buraco, junto com um pedaço de pano fino azul-claro, como um vestido coberto de sangue. Um dia as pessoas aqui vão encher esse buraco, mas Denys vau se lembrar.

Minha intérprete perguntou se ele tinha planos para assistir à partida. “Vai ter jogo?”, ele perguntou. “Quem vai jogar?”

No apartamento perto do zoológico da cidade, o anfitrião, Ivan, mandou todos pararem de conversar. “Ok, pessoal”, chamou a atenção. “O hino”.

Todos se levantaram. Dois homens que fumavam do lado de fora entraram. O time em campo na Escócia cantou e as pessoas na sala cantaram junto, alto, sem timidez, com a mão sobre o coração. Não há como saber como essa guerra terminará, ou o que acontecerá com essa forte união ucraniana, mas naquela noite, por toda a cidade de Kiev, as pessoas se reuniram em pequenos grupos para assistir seu país tentar vencer.

Todos tinham que estar em casa antes do jogo terminar. Essa partida não era uma grande atividade pública, mas sim íntima e privada que aconteceu em pequenos grupos por toda a cidade. Os homens ao meu redor no apartamento falavam sobre a guerra. Eles perguntaram o que os americanos pensavam sobre eles, queriam mostrar fotos de seus filhos, queriam ver minhas fotos. O soldado disse querer que o porta-aviões Harry Truman viesse para a costa da Ucrânia. A televisão ficou sem som algumas vezes e eles brincaram dizendo que Putin teria hackeado a transmissão.

Aos 33 minutos, a Ucrânia marcou para abrir a vantagem de 1 a 0. Durante a comemoração, não houve, por apenas um momento, nenhuma menção à guerra ou ao passado, ou ao futuro.

Fui embora do apartamento no intervalo para voltar ao hotel antes do toque de recolher. Poucas pessoas permaneciam nas mesas do bar. O jogo não estava sendo transmitido. Os funcionários disseram não ter o canal disponível. Minha intérprete e segurança apareceram e puxaram cadeiras. Um saxofone tocava bem baixo no som do saguão. Todos nós ouvimos o jogo no rádio, acompanhando o gol da Ucrânia, que fez 2 a 0, e depois a Escócia fez o 2 a 1. Minha intérprete balançou a cabeça sobre o rádio. "Como nos velhos tempos", disse ela, rindo. "Esta é a Segunda Guerra Mundial!"

Um homem na nossa frente acendeu um cigarro. Alguns seguranças pagaram suas contas e foram embora. Produtores de notícias da TV americana andavam pelo salão. Soubemos que o míssil que provocou a sirene de ataque aéreo anterior caiu no oeste da Ucrânia, perto de Lviv, ferindo duas pessoas.

A Ucrânia marcou novamente nos últimos segundos e a partida terminou, dando a eles a chance de enfrentar o País de Gales no domingo, com uma vaga na Copa do Mundo em jogo. Algumas pessoas comemoraram no bar e depois subiram. Minha intérprete olhou seu celular e sorriu. Denys em Bucha, que parecia triste e fraco enquanto contava sua história mais cedo, decidiu assistir ao jogo.

Ele nos enviou alguns vídeos que um amigo dele fez da reunião deles. Em um, a câmera passa por toda a sala até parar no rosto de Denys e ele dá um pequeno sorriso e um sinal com a mão - como quem diz “tudo ‘joia’”. Três meses atrás, ele se escondeu em seu próprio galinheiro e ouviu soldados russos saquearem sua casa e na noite de quarta-feira ele assistiu a um jogo como uma pessoa normal em qualquer outro país. Ele ainda estava de pé. Seu time ainda estava jogando.

Acabei de assistir ao vídeo mais uma vez, no meu quarto de hotel, prestes a fazer as malas e deixar Kiev. Já era um pouco depois das 5 da manhã, e abri as persianas para ver o sol já no alto, o céu azul da manhã com nuvens brancas, e pássaros voando por uma rua lateral que leva à praça.